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(Crédito: John Marquez Collection)

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Quando a arte muda tudo

08/12/2021

Cinco dias são efetivamente uma máquina de fazer dinheiro, mas o impacto da Art Basel vai além do aspecto econômico.

Minha paixão incondicional por NY não é novidade para ninguém, mas há quem se surpreenda com meu amor duradouro por outra cidade americana: Miami. 

Décadas atrás esse lugar era associado a uma série de estigmas no mínimo justificáveis: paraíso de traficantes, terra da muamba, meca da cafonice… e isso é só o começo. 

Para entender as nuances dessa cidade, a gente tem que analisar seu passado. A Flórida é um estado relativamente novo. No fim do século 19 uma visionária chamada Julia Tuttle convenceu o empreendedor Henry Flager a investir milhões em linhas ferroviárias capazes de conectar outras partes dos Estados Unidos a esse pântano tropical. A ideia, por mais megalomaníaca que parecesse, deu certo. Americanos e europeus se apaixonaram pelo clima tropical e pelas praias da região. Os franceses trouxeram a arquitetura Art Déco, italianos se encantaram pelo mar caribenho e, mais tarde, os cubanos adotaram essa terra enquanto fugiam de Fidel. 

Entre as décadas de 70 e 90, essa região virou sinônimo de gangues sangrentas, comércio ilícito de cocaína, Pablo Escobar, violência e… parques de diversões. 

Da mesma maneira que Flagler decidiu investir na ideia maluca de conectar Miami ao mundo em 1896, mais de um século depois um grupo de suíços resolveu trazer uma feira de arte para a capital latina da América do Norte.

O plano era inaugurar a iniciativa em setembro de 2001 mas, por conta dos ataques às Torres Gêmeas, o lançamento foi adiado para o ano seguinte. A origem da primeira versão do evento aconteceu em 1970 na cidade da Basileia, na Suíça. Três galerias decidiram impulsionar as vendas dos artistas que representavam apresentando seus trabalhos para uma plateia maior em uma grande feira cultural. O interessante é que a Art Basel europeia, apesar de ter se tornado um evento cheio de credibilidade, não chega aos pés da irmã mais nova em South Beach. 

Hoje é evidente o impacto desse momento na história da cidade. É fácil enxergar que havia uma Miami antes e outra depois desse marco. Estamos falando de mais de 4 mil artistas vindos de 36 países, mais de 300 galerias espalhadas por 5 continentes e pelo menos meio bilhão de dólares injetados na economia local.

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Art Basel, Miami, 2021 (Arquivo: Pedro Andrade)

Em 2021, 90 mil visitantes decidiram pagar preços altíssimos para fazer parte da festa. Nem no réveillon os preços de quartos de hotéis, aluguel de carros e passagens de avião são tão salgados. 

Nenhum outro evento cultural ou esportivo no país atrai tantos bilionários com seus jatos particulares, iates e supermodelos a tiracolo. Aqueles que realmente têm interesse nos nomes mais promissores do mundo da arte contemporânea se misturam com legiões de visitantes famintos pela oportunidade de ver e ser visto. 

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Art Basel, Miami, 2021 (Arquivo: Pedro Andrade)
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Art Basel, Miami, 2021 (Arquivo: Pedro Andrade)

Esses cinco dias são efetivamente uma máquina de fazer dinheiro, mas o impacto da Art Basel vai além do aspecto econômico. O fenômeno fez com que o mundo levasse Miami a sério. Há quem veja o mundo da arte como apenas uma fatia microscópica de um bolo muito maior, mas, nesse caso, é impossível ignorar o efeito dominó causado pela atração anual. Hoje, em Miami, a gente encontra restaurantes incríveis, projetos imobiliários ambiciosos, casas de show espetaculares, galerias premiadas, museus enormes, ótimas escolas, arquitetura de primeira e uma diversidade cultural irresistível. Isso tudo à beira de um dos mares mais deliciosos do planeta. 

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Miami, 2021 (Arquivo: Pedro Andrade)

Atualmente, há pelo menos cinco grandes metrópoles espalhadas por aí – dentre elas Abu Dhabi, Sidney e Cingapura –  tentando lançar empreitadas semelhantes. Essa ideia de que investimento em arte é algo supérfluo não existe mais. Para que a gente tenha noção da importância desse segmento na nossa sociedade é fundamental entender que arte não é só o quadro pendurado na sala, o filme dentro do cinema ou a instalação exposta no museu. Muito pelo contrário: é a roupa que você usa, a música que você ouve, o carro que você dirige ou o prato que você vai escolher no seu restaurante favorito. Tudo isso foi devidamente sonhado, planejado, criado e efetivamente construído… Assim como Miami. 

3 Comentários

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  • Paulo Goffi says:

    Muito bom!

  • Paulo Goffi says:

    O esqueleto enraizado suscita algumas elocubrações. Interessante a perspectiva desses empreendimentos. Boa atualização.

  • Vera Lúcia F Bueno says:

    Pedro, parabéns pelo texto, você com toda sua habilidade consegue que todos apreciem sua escrita. Adoro todo tipo de arte. Adorei saber desta particularidade de Miami que é uma cidade que gosto muito.
    Com sua escrita tenho certeza que muito mais pessoas vão passar a apreciar vários tipos de arte que com certeza passava despercebido. Uma vez mais “Parabéns “