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Criar é um pandemonium

23/04/2021

Tese de doutorado é lançada em livro pela editora Senac São Paulo e procura desmistificar o processo criativo de designers. Publicação do doutor em design, Leopoldo Leal, recebeu o certificado de excelência tipográfica do Type Directors Club de Nova York em 2020.

Como é o seu processo criativo? Um livro lançado recentemente ajuda a desmistificar esse assunto e fica como dica de leitura a todos os criativos que passam por processos caóticos no desenvolvimento de seus produtos. Criar é um pandemônio, pode ter certeza. Investigando o tema, o professor doutor em design pela FAUUSP, Leopoldo Leal, encarou a jornada de transformar sua tese de doutorado no livro “Processo de Criação em Design Gráfico: Pandemonium”, lançado em abril pela editora Senac São Paulo. 

A obra é graficamente instigante, primorosa e aborda o estudo do processo de criação em design gráfico a partir das oito fases descritas pelo professor Robert Keith Sawyer: problematização, adquirir conhecimento, coletar informações, incubação, geração de ideias, combinação de ideias, seleção e exteriorização. As etapas são divididas em capítulos e para representar cada uma, o autor desenvolve oito experimentos gráficos ao longo do livro a partir de um desafio/problema que ele mesmo se impôs: criar a palavra pandemonium de diferentes formas. 

Processo de Criação
Capa do livro

Foi o professor orientador da tese de doutorado que provocou Leal a passar pelo processo de criação ao longo do desenvolvimento do trabalho. Dessa maneira, ele somou à pesquisa teórica e suas leituras, experimentos em cada capítulo e tornou o livro muito mais interessante para o leitor. “O objetivo da pesquisa é mostrar que a criação não é linear, burocrática, existe referência, metodologia, mas o processo é um zigue-zague como diz o professor Robert”, comentou Leal durante o lançamento da publicação, em uma roda de conversa promovida pelo Museu da Casa Brasileira (assista no canal do Museu da Casa Brasileira). Por isso, o livro também pode ser lido a partir de qualquer capítulo.

Processo de Criação
Caderno do designer, que é uma das ferramentas do seu processo criativo

“Processo de Criação em Design Gráfico: Pandemonium”, que recebeu o certificado de excelência tipográfica do Type Directors Club de Nova York em 2020, traz ainda entrevistas com profissionais que debatem as relações do design e a criação. Sua tese “Pandemonium” obteve o 1º lugar no 33º Prêmio Design Museu da Casa Brasileira, 2019, na categoria de Trabalhos escritos não publicados, e o projeto gráfico foi também selecionado para a 13ª Bienal Brasileira de Design Gráfico (ADG Brasil, 2019).

“(…) o processo de aprendizado por meio da experimentação pede mais que tempo, requer desvios e descaminhos. (…) andar inicia com engatinhar; falar, com balbuciar. Erros que são identificados promovem o progresso”. Josef Albers

Acaso e experimentação 

Longe de ser uma manifestação divina, o processo de criação é “caótico, confuso e de contornos poucos definidos, ou seja, um pandemonium”, escreve Leal no início do livro. Ele explica que o termo pandemonium foi criado pelo escritor inglês John Milton em 1667, na obra “Paraíso Perdido”, para designar o palácio e a capital do inferno, local onde todos os demônios se encontram em conselho para discutir seus planos. Do original em inglês, a palavra foi criada do prefixo grego pan, que significa “todos”, e do vocábulo grego daimónion, que equivale a “demônio”. Foi na era cristã que a palavra ganhou a conotação de maligna e no século XIX pandemônio também passa a indicar caos e confusão.

No livro, Leal procura passar a ideia de que o acaso e a experimentação também estão inseridos no desenvolvimento criativo. E que o problema pode ser a primeira etapa assim como a experimentação, reforçando o conceito caótico e individual de criação, que envolve inúmeros aspectos que irão determinar o resultado. Importante frisar que o envolvimento profundo no processo criativo é um gatilho essencial para identificar as oportunidades no acaso. O autor cita os artistas que buscam/criam problemas para investigar e cujo resultado são as obras propriamente ditas. “Formular um problema é criar limites, é definir um objetivo a ser alcançado e se concentrar somente naquilo que é relevante”, diz o designer com mais de vinte anos de experiência, que trabalhou na Landor, Interbrand, Futurebrand e Branding. 

Processo de Criação
Imagem do capítulo “conhecimento” do exercício fotográfico com  as mãos do autor da tese para chegar a formação da palavra pandemonium

O autor é bastante didático ao explicar as fases do seu processo e o ponto de chegada, em cada capítulo. A publicação intercala esses experimentos com pensamentos de designers, artistas, escritores, pesquisadores, e as leituras do próprio Leal. Para se ter ideia, no capítulo “conhecimento”, além de tratar sobre o assunto com referência teórica, ele mostra um experimento seu que começa com a cópia do trabalho do artista austríaco Egon Schiele, onde as mãos são um símbolo forte na pintura, passa pela fotografia das mãos cuja combinação dos gestos formam as letras da palavra pandemonium. Por último, as letras são digitalizadas e distorcidas com o auxílio de um escâner. “Essa última etapa demonstra que um trabalho nunca tem fim. Novas ideias aparecem durante o processo, guiando o designer a novas experimentações”, escreve. Reforça ainda que “artistas e designers inevitavelmente se inspiram em outras pessoas. Por isso é importante educar o olhar, observando e reproduzindo trabalhos de quem já produziu algo com excelência dentro do seu campo de atuação”.

Processo de Criação
Designer Leopoldo Leal, autor do livro (Foto: Divulgação)

Conclusão

O autor é bastante generoso ao elencar os passos principais do seu próprio processo criativo, com muita ilustração, tornando a publicação uma verdadeira aula, arrisco a dizer, fundamental para a biblioteca dos criativos não apenas no campo do design gráfico. Uma das ferramentas usadas por ele foram os cadernos de ideias onde armazena seus pensamentos, esboços e coleções de materiais efêmeros. “Essa ferramenta demonstra que as ideias não nascem só de palavras ou conceitos, mas podem nascer da experimentação material”, escreve Leal, que tem em seu portfólio o desenvolvimento de projetos como a identidade visual do Banco Itaú após a fusão com o Unibanco e a identidade visual do Aeroporto Internacional de São Paulo.

Processo de Criação
Páginas do livro

E qual a sua ferramenta no processo de criação


Ficha técnica

Processo de Criação em Design Gráfico: Pandemonium
Editora Senac São Paulo.
Autor: Leopoldo Leal
Páginas: 282
Onde comprar: http://www.livrariasenac.com.br

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