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Pela causa da Arquitetura

29/06/2020

Olhar para além da zona de conforto das escolhas seguras e riscar decisões definitivas não são posturas incomuns para Fernanda Manfro, que se diz uma “sonhadora obcecada por soluções”: aos 33 anos, já atualizou com sucesso itens da jornada profissional que passou pelo Direito antes de chegar à Arquitetura.

A jovem de Caxias do Sul, Serra Gaúcha, vive em Porto Alegre intensamente a profissão sonhada e decidida com o amadurecimento na mais recente década. Contrariando o movimento da média, primeiro abriu uma empresa com uma sócia e depois a fechou para trabalhar como funcionária, mas não em um escritório qualquer: trata-se de um daqueles em néon no currículo, Smart Arquitetura. Neste momento, está focada em ganhar experiência no escritório, mas ainda pensa em fazer mestrado fora do Brasil.

Para Fernanda, seria natural aplicar o poder de oratória, desenvolvido como advogada, formada pela PUCRS em 2010, na defesa de suas propostas de projetos com os clientes. Mas a moça de aparência tranquila surpreende ao compartilhar com os mais inexperientes na Arquitetura caminhos que podem levar a um trabalho de conclusão de curso memorável como o seu: escolheu a comunicação pelo perfil no Instagram idealizado por ela, @quebrandoabanca.co, com vídeos e dicas. 

causa da arquitetura

Projeto para um prédio no centro de Porto Alegre que destaca a jovem arquiteta até hoje (Imagem: reprodução/arquivo pessoal)

O projeto do seu TCC, com o significativo nome de Renascer – Antigo Hotel Carraro, rendeu-lhe o Prêmio Albano Volkmer 2018, do Instituto dos Arquitetos do Brasil IAB/RS, e ainda recebeu indicação ao Ópera Prima 2019. Isso sem falar de que a tese sobre a compatibilidade entre revitalização de imóveis antigos como potencial para o mercado imobiliário a tem feito conhecida nas universidades, como palestrante e em bancas de avaliação. A arquiteta ainda idealizou o perfil @relíquia_urbana para falar do tema que a apaixona.

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Fernanda recebeu prêmio do IAB/RS por seu projeto de conclusão de curso (Foto: Giulia Cassol)

Vista do prédio de quem olha a partir da praça

Proposta de uso interno do edifício

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Outra vista do prédio de esquina com fachada para duas ruas

Memória afetiva e o chamado

Fernanda Manfro viveu em duas regiões serranas, antes da Capital. Nasceu no ano de 1987 em Caxias, serra gaúcha e, aos 13 anos, os Manfro mudaram-se para Bom Jesus, região Campos de Cima da Serra. Filha mais velha, tem “um irmão que foi muito pedido”, cinco anos mais novo, Augusto. Com a mãe, dona Evelaine, “uma sonhadora”, desenhava a casa que construiriam no futuro:

Essa é uma memória querida, que eu acredito ter influenciado meu gosto pela arquitetura.

Buscando suas lembranças da infância, depara com sua imagem, enquanto os pais trabalhavam, pegando escondida a filmadora “para criar histórias, com personagens e figurinos”. Ela consegue conectar a brincadeira com seus interesses atuais, em especial com a vontade de criar conteúdo relacionado à arquitetura. Da tia que cursou Moda e quem acompanhava nos desfiles do curso marcou a emoção ao ver na passarela um “vestido todo feito de luzes”. 

A advocacia veio da influência do padrinho, oficial de justiça formado em Direito e do gosto por ler e escrever. Acabou fazendo Escola do Ministério Público com o objetivo de ser Promotora de Justiça e estudava muitas horas por dia. 

– Certo dia, comecei a pensar se estava verdadeiramente feliz e percebi que não. Nesse mesmo período, meu namorado e eu decidimos reformar o nosso apartamento junto com uma decoradora que conhecíamos. Mergulhei naquela experiência. Eu amava fazer aquilo! Decidi, então, pedir reingresso na universidade e fazer duas ou três cadeiras (na Arquitetura da PUCRS) a título de hobby, mas me matriculei em cinco – conta.

Claro que não é fácil e nem tão clara a decisão de dar uma guinada dessas na vida. Fernanda lembra que voltava para casa e estudava para concursos durante o primeiro semestre de Arquitetura. Veio também a culpa e optou por trancar a faculdade. Foi um semestre sabático, mas nem tanto. Conheceu aquela que seria a sua primeira cliente da nova área. À pergunta se queria decorar um apartamento, não titubeou. Mas recorreu a um curso profissionalizante de Design de Interiores na escola Criart.

–  Esse primeiro trabalho me fez perceber que eu poderia viver disso. Sendo assim, no semestre seguinte, retornei ao curso de Arquitetura, desta vez para ficar. E segui com o curso de interiores, em paralelo – lembra.

Durante o curso, não abandonou a decoração de interiores, o começo da mudança de carreira. Fundou o Estúdio Voe, que chegou a ter uma sócia nos últimos anos. E, na altura do nono semestre, recebeu convite para estagiar na Smart. E não recusou, por se identificar com o trabalho do escritório e antever a possibilidade de aprender. Assim que se formou, foi efetivada. Claro que, como tinha o Voe, acabou decidindo junto com a sócia pelo encerramento do estúdio.

Projeto Max Haus, finalista de prêmio em 2019, foi assinado pelo então escritório de Fernanda Manfro, Estúdio Voe, dela e da arquiteta Kelleen Schmidt (Foto: Marcelo Donadussi, divulgação)
Projeto Max Haus, finalista de prêmio em 2019, foi assinado pelo então escritório de Fernanda Manfro, Estúdio Voe, dela e da arquiteta Kelleen Schmidt (Foto: Marcelo Donadussi, divulgação)
Projeto Max Haus, finalista de prêmio em 2019, foi assinado pelo então escritório de Fernanda Manfro, Estúdio Voe, dela e da arquiteta Kelleen Schmidt (Foto: Marcelo Donadussi, divulgação)
Projeto Max Haus, finalista de prêmio em 2019, foi assinado pelo então escritório de Fernanda Manfro, Estúdio Voe, dela e da arquiteta Kelleen Schmidt (Foto: Marcelo Donadussi, divulgação)
Projeto Max Haus, finalista de prêmio em 2019, foi assinado pelo então escritório de Fernanda Manfro, Estúdio Voe, dela e da arquiteta Kelleen Schmidt (Foto: Marcelo Donadussi, divulgação)
Projeto Max Haus, finalista de prêmio em 2019, foi assinado pelo então escritório de Fernanda Manfro, Estúdio Voe, dela e da arquiteta Kelleen Schmidt (Foto: Marcelo Donadussi, divulgação)
Projeto Max Haus, finalista de prêmio em 2019, foi assinado pelo então escritório de Fernanda Manfro, Estúdio Voe, dela e da arquiteta Kelleen Schmidt (Foto: Marcelo Donadussi, divulgação)
Projeto Max Haus, finalista de prêmio em 2019, foi assinado pelo então escritório de Fernanda Manfro, Estúdio Voe, dela e da arquiteta Kelleen Schmidt (Foto: Marcelo Donadussi, divulgação)
Projeto Max Haus, finalista de prêmio em 2019, foi assinado pelo então escritório de Fernanda Manfro, Estúdio Voe, dela e da arquiteta Kelleen Schmidt (Foto: Marcelo Donadussi, divulgação)

– O último projeto do estúdio Voe foi finalista do Prêmio Casa e Jardim 2019, na categoria Apartamento Bem Resolvido, dentre projetos de todo país publicados pela revista nos últimos dois anos. Penso que foi um ciclo que se encerrou com chave de ouro – analisa.

Para Fernanda, tudo faz sentido hoje.

Fico pensando em todos os projetos que tive a oportunidade de trabalhar, o antigo escritório, o atual. Mas me orgulho muito de ter escutado a voz interna que dizia para eu realizar meu antigo sonho e bancar o desafio de fazer a transição de carreira, recomeçando do zero na Arquitetura. Sem isso, todos os momentos bonitos que tenho vivido não seriam possíveis.

Arquitetura e arquitetos

A Arquitetura é um mundo. É poesia. É tão complexa, humana e sensível. Fico emocionada como influencia em absolutamente tudo, como qualidade de vida, sensações e memórias. É testemunha física no tempo e espaço. Acho que é uma área que demonstra, materialmente, um otimismo realizável por meio de múltiplas alternativas. E, como uma sonhadora obcecada por soluções que sou, nutro absoluto respeito por esta área.

A aproximação com os high lights do mundo da arquitetura a apresentou, no início do curso, à “desconstrução apresentada em algumas obras da Zaha Hadid”. Fernanda admite que isso influenciou sua maneira de ver a “mensagem intangível que a arquitetura pode conter”. Lembro que as duas têm em comum a guinada profissional: a arquiteta iraniana radicada em Londres até sua morte, ocorrida em 2016, primeiro formou-se em Matemática em Beirute e depois estudou na Architectural Association de Londres. E foi a primeira mulher a ganhar o Oscar da Arquitetura, o Pritzker. 

Mas Fernanda logo descobriu as obras do uruguaio Eladio Dieste (nascido em 1917 e falecido em 2000), formado em Engenharia e posteriormente professor no curso de Arquitetura e Urbanismo, com uma obra diversa, projetos de silos até igrejas. A arquitetura e a sensibilidade de Paulo Mendes da Rocha, o primeiro brasileiro distinguido com um Leão de Outro na Bienal de Arquitetura de Veneza, gerou a admiração inaugural por um arquiteto de sua nacionalidade. 

Dizendo que “o Brasil tem muito arquiteto bom”, hoje acompanha com interesse o trabalho dos paulistas do Terra e Tuma, do franco-brasileiro Triptyque e do mineiro Gustavo Penna. Destaca o paulista Brasil Arquitetura, “que tem um trabalho lindo na temática intervenção em patrimônio histórico” (entre esses projetos, Museu do Pão em Ilópolis e Museu do Pampa, em Jaguarão, obras no Rio Grande do Sul). Ao falar do que a motiva criar, diz que a inspira “ver o potencial de transformação de um lugar, de um edifício, de uma pessoa. Fazer resgates de relíquias antigas, traduzidas em móveis, arquitetura e obras”.

– Gosto de fazer arquitetura para o mercado imobiliário, que é a área que atuo hoje. Naturalmente, gosto também de interiores. Mas tenho forte em mim a vontade de me especializar na área de Patrimônio, para que eu possa trabalhar arquitetura antiga + nova, como um resgate do potencial destas edificações preexistentes para o mercado imobiliário, como foi a proposta do meu TCC – ressalta.

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Alvo da proposta do TCC de Fernanda Manfro, um prédio de esquina em frente a uma praça da capital do gaúchos (Imagem: reprodução/arquivo pessoal)

Durante o processo criativo, gosta de “ver/ler/ouvir obras que me emocionam, que eu consigo perceber que há uma linguagem não verbal ali”. Fernanda gosta de ler códigos. Ler críticas de filmes e “entender mensagens ocultas que estão por trás de cada escolha de figurino, luz, cenário”, práticas de buscas de referências em outros lugares a motivam.

Muitas vezes, quando sinto dificuldade no projetar, gosto de ouvir músicas que me façam sentir conectada com a minha essência. Tento buscar na emoção um sentimento que me ajude a traduzir o que eu quero criar. O trabalho do arquiteto é muito colaborativo, também. Procuro trocar ideias com colegas. Se fica muito difícil e tenho tempo, saio e vou fazer outra coisa. No dia seguinte, sempre melhora – ensina a jovem arquiteta.

Sentido para tudo

Ao falar de seu perfil de consumo, diz que prefere não ter do que comprar algo que não faça sentido para ela e que procura aplicar essa lógica nos projetos. Imagino que neste quesito a qualidade dos produtos na hora da especificação esteja sempre em mente.

Sei da confiança que os clientes depositam em mim: é importante que cada item ali tenha um valor, seja no conjunto, seja individualmente considerado. E, junto a isso, é preciso conciliar todos os fatores que incidem sobre um projeto como: custos, prazos, fornecedores e expectativas. São vários os pratos a se equilibrar, já que a nossa área é um trabalho de muitas mãos, orquestrado por um projeto que precisa resultar em algo único e coerente – diz.  

Se fosse projetar uma edificação para ela, “com certeza seria uma intervenção em um edifício antigo. Muita luz das janelas e, também, luz zenital. Um pátio interno com um jardim muito agradável. Teria vidro e aço, interagindo com a edificação preexistente. Uma edificação sutil no contexto urbano, mas individualmente interessante”. 

No interior, “piso de madeira, de preferência parquet restaurado. Cortinas leves e esvoaçantes, tapetes shiraz e kilins espalhados pelo ambiente, uma marcenaria apurada e contemporânea interagindo com alguns móveis antigos de madeira, garimpados. Alguma influência art déco. Bastante verde, estante com livros, quadros na parede e também despretensiosamente apoiados no chão. Um balanço e poltronas convidativas. Uma boa mesa de madeira para celebrar. Iluminação indireta para dar o clima intimista. Um espaço de estúdio criativo”.     

Efeitos da pandemia

Fernanda analisa os efeitos colaterais da pandemia e afirma sentir que “reforçou algumas necessidades que sabemos ser importantes, como a importância das sacadas e dos gardens nos apartamentos. Ou, ainda, o valor de um espaço para poder trabalhar em casa.  Isso, fazendo um recorte no mercado em que eu atuo. Também só reforçou, para mim, que os espaços muito compactos em prol de uma área comum hiper completa, podem não ser a melhor opção”.

Saindo de dentro de casa, vê os espaços públicos como cenários de reconquista da confiança nas interações entre as pessoas, assumindo um papel ainda mais fundamental na dinâmica da cidade. “E, claro, voltar o olhar para as camadas menos privilegiadas, como uma questão urgente a ser resolvida em termos de qualidade de habitação e saneamento básico.”  

Como herança deste período, acredita que o mercado vai procurar escolher revestimentos com “facilidade de manutenção e limpeza”. Isso junto com soluções de ventilação e qualidade dos espaços. Na hora de consumir, serão levados em conta “fatores relacionados a impactos na natureza, política da empresa, causas que apoia e postura diante do contexto poderão ser considerados mais fortemente neste mix que antes se detinha, talvez, mais a qualidade e design”.

Por falar em design, aprecia o internacionalmente reconhecido Jader Almeida, uma das assinaturas de linhas e produtos da Portobello, e diz ter tido contato recentemente com as criações de Pedro Paulo Venzon. De Porto Alegre, acompanha o trabalho da Volta. Perto de si, em casa, tem diferentes modelos das cadeiras idealizadas pelo casal Charles e Ray Eames: “Além do design, acho muito simbólico por ser fruto criativo de um casal tão talentoso e são cadeiras muito versáteis”. 

Foco atual

Na Smart, estou me dedicando ao estudo de um futuro empreendimento de uso misto (residencial e comercial) localizado no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre, mas que ainda não posso entrar em detalhes. Paralelo a isso, estou envolvida com meus projetos particulares. Por ter a vivência do Direito, tenho compartilhado meus conhecimentos de defesa de causa e uso de instrumentos adequados para advogar pela “causa” Arquitetura através dessas iniciativas – diz

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Croqui de estudos para futuro empreendimento

 

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Projeto em curso da Smart, onde Fernanda trabalha atualmente e ao qual está dedicada

Por outro lado, Fernanda atua no projeto Quebrando a Banca (@quebrandoabanca.co), em parceria com o Arq. Augusto Dieguez. A dupla ensina colegas em etapa de conclusão de curso a construírem estratégias de argumentação para defesa de seu trabalho, não só no momento da banca, mas também na vida profissional. Em oficinas práticas, conteúdo e mentorias, o objetivo é fortalecer a confiança e a capacidade argumentativa desses profissionais para que encontrem sua forma de expressão não só em desenho, mas também por meio da oratória. E no Relíquia Urbana, “um desdobramento do meu trabalho de conclusão, falo sobre patrimônio, incorporação imobiliária e trago reflexões em um Podcast com o mesmo nome, disponível no Spotify”, conta a arquiteta que alimenta diferentes maneiras de fazer Arquitetura.

Para se informar, Fernanda costuma consumir conteúdo nas redes sociais e em sites específicos. Ressalta que acredita no poder da informação para melhores escolhas e desenvolvimento de qualquer área e faz o que considera a sua parte: “Minha meta é seguir compartilhando conhecimento e convidando futuros colegas a serem arquitetos solucionadores, envolvidos verdadeiramente com causas importantes do nosso ofício”. Conclui as suas pretensões do trabalho como arquiteta no cenário deste momento:

Quero seguir me especializando em patrimônio e mercado imobiliário, para que eu consiga aplicar essas ideias, enquanto me dedico a fazer a minha parte por meio de uma arquitetura que seja gentil com as pessoas e a cidade.

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