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Jean-Michel Basquiat obra amarela

(Foto: arquivo Pedro Andrade)

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O Irresistível Jean-Michel

26/04/2022

Pedro Andrade escreve sobre o homem por trás do fenômeno Basquiat, artista que revolucionou as artes no final do século 20

Eu tinha nove anos quando Jean-Michel Basquiat morreu de overdose em um apartamento pequeno no East Village. Naquela noite, um dos artistas mais revolucionários de todos os tempos entrava para o trágico Clube dos 27. Com essa mesma idade faleceram Janis Joplin, Kurt Cobain, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Amy Winehouse e a lista – infelizmente – continua. 

Basquiat na exposição King Pleasure
Foto do artista Jean-Michel Basquiat na exposição King Pleasure (Arquivo: Pedro Andrade)

O auge e o fim de Basquiat foram tema de inúmeros livros, peças, documentários e artigos, no entanto, pela primeira vez uma exposição foca noutra época: o começo. King Pleasure é uma homenagem às raízes do ser humano por trás da lenda. Mais de três décadas após sua morte, Lisane e Jeanine, irmãs mais novas de Basquiat, decidiram abrir o baú da família e expôr não apenas mais de 200 obras nunca antes exibidas, mas também alguns dos ambientes mais decisivos na formação do artista. O visitante tem acesso a desenhos, boletins, carteiras de escola, brinquedos, livros, fotos, cartas, pincéis, tintas e também a objetos que o acompanharam ao longo da vida – desde a inseparável bicicleta que o levava do Brooklyn ao SoHo diariamente, até as fitas VHS e os copos de vinho encontrados em seu estúdio após sua morte. Um mero curador, crítico ou outsider não seria capaz de compartilhar essa perspectiva singular da privacidade da família.

Segundo elas, essa abertura visceral da vida privada do irmão não é fruto de uma decisão fácil, afinal de contas, o mundo já conhece boa parte do legado de Basquiat, mas a intimidade dele sempre foi um privilégio para poucos. Até agora. 

Poucos artistas no século 20 foram tão copiados, celebrados e estudados e, talvez por isso, todo mundo tenha uma opinião, ainda que equivocada, sobre Jean-Michel. Suas obras atualmente transcendem museus e galerias. Estão em camisetas, outdoors, capas de disco, mochilas escolares, clipes da Beyoncé, letras de Jay Z e nas milhares de imitações espalhadas por aí. Seus traços são tão presentes no nosso cotidiano, que, mesmo quem acha que não foi influenciado pelo artista, com certeza, conscientemente ou não, já bebeu dessa fonte.

Essa minha constatação não é uma crítica. O próprio Basquiat se tornou um expert na arte de se deixar afetar por todas as influências possivelmente alcançáveis ao seu redor. Era uma verdadeira esponja, nada era desperdiçado. Observando seu trabalho, é inevitável identificar sua paixão por quadrinhos, seu interesse por outras culturas, os traumas que vieram com a separação dos pais, as cicatrizes deixadas por encontros com a polícia, a admiração incondicional que tinha por outros artistas e a forma como ele digeria absolutamente tudo que passava na sua frente. 

Seu pai, Gerard, nasceu no Haiti e trabalhava como contador. Nas horas vagas, era um cozinheiro de mão cheia e um amante inveterado da música americana. A trilha sonora da casa incluía Miles Davis, Aretha Franklyn, Diana Ross, Peggy Lee, Marvin Gaye, Grace Jones, Nina Simone e King Pleasure, que por sinal inspirou o título da mostra. Apesar de os três filhos terem ficado com o pai após o divórcio do casal, o carinho pela mãe nunca foi diluído. A porto-riquenha Matilda Andrades trabalhava tanto que não tinha condições de criar os filhos. Era professora de dia e costureira à noite e fez questão de compartilhar os livros, as lições e as lutas de James Baldwin, Maya Angelou e Mark Twain com a família.

obras de Basquiat na exposição King Pleasure
Pedro Andrade registra obras de Basquiat na exposição King Pleasure (Foto: arquivo Pedro Andrade)

Seu fascínio por gênios como DaVinci, Michelangelo, Picasso e Paul Richer (uma verdadeira autoridade nos estudos da anatomia humana) são tão evidentes em suas obras quanto seu encanto por máscaras africanas e a espiritualidade de povos originários. 

Basquiat passou sua curta e produtiva vida processando todas aquelas experiências, sensações e questionamentos e usava seu trabalho como um verdadeiro espelho para a nossa sociedade. A forma como cada um de nós encara suas obras diz mais sobre a gente do que sobre o artista. 

É inevitável perceber que seu comentário social, lamentavelmente, ainda é relevante. Em outras palavras, de lá para cá, pouco mudou. Continuamos tentando encontrar respostas e soluções para os mesmos problemas que o afligiam nos anos 70 e 80. Muitos dos nossos debates ainda giram em torno dos absurdos atrelados ao racismo sistêmico, ao abuso de poder, à desigualdade social, à truculência de autoridades, aos direitos humanos da comunidade LGBTQ e assim por diante. 

Encontrar a dose exata entre ser o influenciado e o influenciador é uma tarefa que requer treino e disciplina. Nessa habilidade, Basquiat sempre foi mestre. 

Nascido em Flatbush, no Brooklyn, em uma área um tanto quanto barra-pesada, Jean-Michel sempre soube o que queria ser quando crescesse. Essa certeza serviu como combustível para a segurança com a qual ele se portou a vida toda. Poucos lugares no mundo são tão competitivos quanto Nova York e o início de carreira de um artista geralmente não é fácil. Munido de prática, experiência, cara de pau e com uma convicção quase pretensiosa, fez o que tinha que fazer para ser notado. Namorou Madonna, se encantou por Andy Warhol, frequentou as festas mais disputadas, paquerou galeristas e se recusava a pagar as contas fazendo outra coisa que não fosse sua vocação. Essa teimosia dificultava seus relacionamentos amorosos e amizades, já que por alguns anos teve que dormir no sofá alheio por não ter dinheiro para pagar o próprio aluguel. Dureza nunca foi empecilho para sua criatividade; quando não tinha grana para comprar telas, pintava compulsivamente muros, pratos, portas, jornais, bolas de basquete e tudo o que estava ao seu alcance.

Pedro Andrade na exposição sobre Basquiat (Foto: arquivo Pedro Andrade)

Em 1982 sua vida começou a mudar. Mary Boone – até hoje um nome poderoso na cena artística de Manhattan – abriu as portas de sua galeria para a primeira mostra de Basquiat nos Estados Unidos. O sucesso foi instantâneo e meteórico. Meses depois, a marca Comme Des Garçons o contratou como embaixador, o NY Times o colocou na capa de sua revista dominical e suas obras passaram a valer muito mais do dia para a noite. Em 1984, a boate Palladium, frequentada pela nata do entretenimento global, comissionou Jean-Michel para pintar a área VIP do estabelecimento. Essa obra será leiloada em junho pela Sotheby’s. Estima-se que o preço inicial da peça seja algo em torno de 70 milhões de dólares. Em 2017, o quadro Untitled foi comprado por um bilionário japonês por, nada mais, nada menos, que 110,5 milhões.

Além de sua contribuição incontestável para cultura pop, é importante destacar que estamos falando do artista americano mais lucrativo de todos os tempos (ultrapassando Warhol, Haring, Hopper, O’Keefe, Twombly e Lichtenstein). Como se isso não bastasse, é o único negro incluído na lista das obras mais caras do mundo e até hoje sua marca é uma verdadeira máquina de fazer dinheiro. 

Apesar de não ter vivido para testemunhar a magnitude que seu sucesso mais tarde alcançaria, o moleque capricorniano do Brooklyn conseguiu desfrutar de muitos privilégios antes de sua morte. Viajou o mundo, foi celebrado na Costa do Marfim, ovacionado no Japão, premiado em Tel Aviv e copiado de norte a sul… Na sua última década de vida brincou de DJ com Ian Schrager (fundador do Studio 54), jantou com Debbie Harris, dançou com Allen Ginsberg, se perdeu com Mick Jagger, se achou com Liza Minelli, foi generosíssimo com os mendigos do East Village (aparentemente distribuía notas de cem dólares toda vez que vendia um quadro), fez amor com alguns dos homens e mulheres mais interessantes de sua época (sim, era bissexual) e teve a sorte de proporcionar uma vida confortável a quase todos ao seu redor. 

Com isso dito, é fundamental entender que, talvez, sua maior contribuição não possa ser contabilizada em cifras. Arte é e sempre será algo subjetivo; ninguém é obrigado a gostar dos quadros de Basquiat, mas a verdade é que poucas figuras no último século representam com tanta clareza a ideia frequentemente inatingível do sonho americano, ou seja, o conceito de que, independente de onde uma pessoa venha, esse país é de fato uma terra de oportunidades. Como um menino negro nascido em uma família de classe média baixa e educado em uma escola pública no subúrbio de Nova York se torna uma das maiores potências de todos os tempos no disputadíssimo mundo das artes? A exposição King Pleasure tenta explicar essa equação. Pela primeira vez, o talento do artista está no banco do carona, enquanto a essência humana dele se agarra ao volante. No final das contas, respeitar Basquiat é bom, mas se apaixonar por Jean-Michel é muito melhor.  

13 Comentários

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  • Lizete Martins says:

    Pedro vc mostra muito bem o Basquiat que amamos, e que sempre será atual, porque nada mudou. Parabéns pelo texto!

  • solange kihida says:

    Eu sabia quando te encontrei no Face q seria maravilhoso.Vc me mostra um mundo q não posso vê

  • Maria Elide Bortoletto says:

    Parabéns pelo excelente texto. Espero ver esta exposição.

  • Auxiliadora Avertanio Conceição says:

    Que história incrível parabéns Pedrinho por registrar essa obra linda. Bjosss na ❤️

  • Adriane Caire Castelo Branco says:

    E sempre um prazer ler os textos sensíveis enriquecedores e culturais que Pedro nos traz ….
    Muito orgulho do maravilhoso jornalista que se tornou 😘

  • Adriane Caire Castelo Branco says:

    E sempre um prazer ler os textos sensíveis enriquecedores e culturais que Pedro nos traz ….

  • Ilana says:

    Que incrível, Pedro. Obrigada por compartilhar tanto conhecimento. Artista incrível, e eu conhecia quase nada da vida pessoal dele. 💛

  • Toni Souza says:

    Conheci Basquiat nas aulas de História da Arte com um professor apaixonado pelo que transmitia e esse grande artista me cativou por sua história e genialidade desde o início, quando eu nem sabia direito a importância da pop art no pensamento social.

  • Raquel Nery says:

    Artigo maravilhoso! Basquiat explodiu tb por sua originalidade e traços únicos, criou um diálogo unico entre a arte primitiva, a street art e a arte moderna, daí vem toda a potência de suas obras. Um gênio da arte contemporânea.

  • Ana Luísa da Silva Santos says:

    Maravilhosa maneira de trazer mais seguidores ao mundo da arte, pois a maneira que voçê expressa sua arte e linda. Obrigada