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Fazendo beleza com memórias afetivas

24/06/2020

Bordados transformam pesados fardos reais ou emocionais em flores aplicadas nos retratos feitos na Índia por Mylene Rizzo.

A beleza está nos olhos de quem a vê.”

(Poeta espanhol Ramón de Campoamor y Campoosorio)

Nesta quarentena, inspirações para projetos criativos postergados desabrocham no tempo espichado do isolamento produtivo. Talentos como o de Mylene Rizzo não precisam mais esperar. A série “Índia – Paradigmas da beleza” desabrocha em ramalhetes ou flores esparsas multicoloridas bordadas sobre fotos p&b. A psicóloga, historiadora, fotógrafa e viajante contumaz, dividida entre as casas de Porto Alegre e Gramado, desembarcou da Índia direto para a quarentena. Trouxe na bagagem o olhar de cada pessoa fotografada em março de 2020 nas cidades Jaipur, Jodhpur e Agra a pedir um toque de alegria na dureza da vida que não impede sorrisos largos e acenos espontâneos para desconhecidos.

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Foto colorida obtida pela fotógrafa é transformada em P&B antes de ser impressa em canvas e de entrar em cena a artista

Mylene Rizzo lembra da menina abanando para o seu ônibus, clicada em um segundo, como uma foto jornalística. Com o sorriso maior do que as dificuldades da vida, a garota virou uma das protagonistas do trabalho que agrega o substantivo artista à decidida Mylene. Nesse caso da menina na sinaleira, os bordados parecem estarem caindo do céu, criando uma estampa suave como um banho de flores.

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Como a artista vê a menina risonha da sinaleira

Quase pedindo desculpas pela ousadia, Mylene cita a frase do escultor, pintor e arquiteto italiano Michelangelo Buonarroti: “Não faço esculturas. Na verdade, elas sempre estiveram lá. Eu apenas retiro os excessos.” Faz sentido, como explica a autora:

     – Transformando as fotografias em imagens monocromáticas consegui enxergar mais fundo para ressaltar o colorido que vem do âmago. No maior paradigma indiano, a beleza brota e se multiplica em flores e ramas. Cada fotografia tem intrínseca a sua paleta de cores, meu trabalho é desvendá-la e aplicar as linhas do bordado para que a fábula surja naturalmente.   

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Este é um dos casos em que a artista agrega elementos além das fronteiras figurativas da foto e contribui com mais um elemento para contar uma história fabulosa

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Sempre estiveram aquecidas no coração da artista as vivências com a avó costureira (e bordadeira!), Emy Hofstaetter, e a avó jardineira, Gladys Friedrich. Mylene é capaz de dizer quais espécies inspiraram cada obra. Mas a mãe, Vânia Westin, também seguiu a estirpe das bordadeiras e há cerca de um ano deu umas aulas de bordado para a prendada filha, que já tinha uma destreza incomum com as agulhas de tricô. Enquanto hoje os jovens olham furtivamente ou nem tanto o celular durante as aulas, Mylene admite, um pouco constrangida, que tricotava durante as aulas do curso de Psicologia, aos 17 anos. “Mais tarde, migrei para a tapeçaria, os quartos dos meus bebês foram decorados com telas em casa caiada e arraiolo”, lembra Mylene.

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O tempo de execução de cada trabalho leva em torno de uma semana, da impressão da foto, da escolha das linhas ao bordado e colocação no bastidor para desamassar o tecido

 

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Em alguns trabalhos, como este, mais trabalhados, Mylene segue os elementos preexistentes e ainda acrescenta algumas flores

Mas hoje exercita pontos rococó, atrás, laçada (e eu achando que sabia bordar com ponto cheio e corrente). Claro que escolhe conforme a flor que quer plantar naquele momento. Sim, porque os trabalhos não têm projeto, esboço, risco, nada. As criações vêm do ímpeto de exibir beleza junto daquelas pessoas e cenários tocantes pela estética e a tristeza ao mesmo tempo, sentidas por perceber quão difícil é o cotidiano daquelas personagens. A mãe acredita que a vó Emy, do tempo de pintura de agulha (técnica de bordado com um fio só com resultado tão perfeito que parece uma pintura) não aprovaria um bordado com linhas tão grossas. Mas ocorre que a base é canvas, o que chega a ferir os dedos de Mylena. As fotos, obtidas coloridas, são transformadas em preto e branco e impressas sobre o material usado como suporte para pintura em tamanho A3, de 30cm x 40cm. A primeira a ser emoldurada foi uma imagem fora da série da Índia: a mãe Mylene fez um trabalho sobre a imagem da filha vestida de noiva. A arquiteta Victoria Rizzo ganhou um novo buquê de noiva. Coisa de mãe. 

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Amor rebordado no traje de noiva da filha com a interpretação da mãe para o buquê

Mylene diz que uma das questões que precisa lidar é com a hora de acabar as obras. Para isso, conta com os palpites do filho Torben Rizzo e do marido Renato Rizzo: este, adepto do “menos é mais”, acha que já basta e o filho, ao contrário, tende para o “mais é melhor”. A sua vivência em desbravar destinos pelo mundo no projeto Viajando com Arte inclui a companhia da filha sempre que possível. Provavelmente nessas experiências foi plantado o seu gosto pelas cores. Mylene conta que nesta recente viagem à Índia, que encerrou na segunda metade de março, em Jaipur vivenciou Holi, a Festa das Cores. 

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A tradição inclui pintar toda a superfície do corpo e Mylene entrou de cabeça na proposta

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A roupa branca da viajante vai receber tinta e, para o cabelo, uma proteção antes do banho de tinta na Festa das Cores que ocorre em todo país

E não só a mistura incomum de tons chama a sua atenção, mas a combinação de estampas. Bom, se formos falar de tecidos e estampas indianas, o assunto vai derivar para regiões como a Caxemira, onde foi criado um padrão de tecido conhecido como cashmere. Isso quando nem se falava em design de superfície.

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Os tecidos encantam pelo colorido, pelos bordados e rebordados e as estampas, pesos e texturas variadas

– Suas cores sempre me seduziram, os tecidos com combinações inusitadas, as tramas e as padronagens. O povo tem uma mistura única de alegria e acolhimento. Nas minhas fotos eu buscava deslindar esta alma ingênua e verdadeira – diz Mylena.

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A artista tenta trabalhar mais com as cores típicas da paleta cromática da Índia, mas, como ocorreu neste caso, em que não havia azul na proposta, ela sentiu falta de acrescentar mais essa cor

Possivelmente ela está entre os brasileiros que viajaram mais recentemente ao exterior, com retorno já em plena quarentena. Para ela, “não foi por acaso que estava na Índia neste momento em que o mundo todo se volta para olhar para dentro, para repensar a maneira de se relacionar com os outros e com a natureza. Uma busca da verdade interior inerente e individual”.

Eu disse a ela que mesmo quem não foi à Índia precisou trilhar caminhos para dentro de si em meio ao convívio intensivo com a família, alguns buscando trabalhar da maneira possível, outros estudando ou compondo agenda com ambas as atividades. No período livre, alguns fazem pão, organizam a casa, estão maratonando séries ou buscando a chave para liberar a bem-vinda criatividade até nas atividades mais pragmáticas, atrás de novos caminhos para antigos negócios. No caso de Mylene, foi buscando um passatempo que encontrou “um mundo de criatividade e cor adormecido”, além de ser tocada pela religiosidade diferente de um povo com muitos deuses: 

– Os indianos são defensores da tolerância e da espiritualidade e acreditam que somente através de nossos próprios esforços somos capazes de nos libertar. Sinto que encontrei na minha história os fios que ligam ao passado e me dão suporte para alçar voos legítimos.

Esta série da Índia terá de 15 a 20 obras e, neste momento, com mais da metade pronta, a produção envolverá pelo menos em uma imagem o trabalho conjunto com a mãe: Vânia e Mylene terão a mesma foto impressa em canvas para bordar, no mesmo formato vertical das demais, com dimensão de 30cm x 40cm, sem que uma veja a evolução criativa da outra. E aguardemos os próximos voos bordados de Mylene Rizzo, que está de olho em dois destinos: no Peru, para onde já viajou várias vezes, e no Brasil, onde possivelmente o foco estará na Amazônia. Será que as flores continuam ou entrará outro elemento como fio condutor?

Mylene trabalha em conjunto com a mãe Vânia

 

Foto de destaque:  Mylene Rizzo no trabalho de campo, no mês de março, na Índia

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