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Maison & Objet: inspirações da terra ao céu

29/01/2020

Na 25ª edição, realizada em Paris de 17 a 21 de janeiro, a feira francesa teve (RE) GENERATION! como tema e exibiu as tendências no décor para 2020, com referências na natureza e no lifestyle das novas gerações que inclui a preocupação com o Planeta.

Surpreendente e acolhedora: eu me sinto em casa e ao mesmo tempo curiosa como se estivesse começando uma expedição ao mundo do design na Maison & Objet, feira de mobiliário e de objetos funcionais e decorativos realizada em janeiro e setembro na grande Paris. A diversidade de estilos e produtos é estimulante. Isso sem falar no fato de em grande parte dos estandes encontrarmos os autores das criações ou os donos das marcas prontos a dar uma explicação breve ou nem tanto sobre os produtos, o que torna a visita à feira quase um passeio pela vizinhança para saber das novidades. E sempre há o que descobrir até em gastronomia na hora do lanche. Nesta edição, de 17 a 21 de janeiro, foram 600 marcas novas entre os 3 mil expositores de vários países a disputarem atenção. Há grandes grifes, mas também pequenas que não são encontradas em outras feiras. Esse é um dos charmes da Maison, que este ano teve cuidados extras, como curadorias até para pequenas instalações em destaque nos pavilhões. 

Maison & Objet

A organização é bem didática. Isso facilita na hora de escolher o que vamos priorizar na visita. Um tapete vermelho conduz pelos corredores principais, mas a graça está em fazer um circuito pelas marcas novas (crédito: reprodução)

O mapa em forma de uma copa de árvore com oito galhos ou pavilhões batizados com nomes explicativos separa à direita, a área Maison, organizada por estilos e, à esquerda, a Objet, por categorias de produtos. A estrutura facilita a compreensão e a organização e reduz as possibilidades de nos perdermos acidentalmente. Para chegar ao Parque de Exposições Paris Nord-Villepinte tem ônibus gratuitos da feira, metrô e aplicativos que funcionam muito bem para fazer o percurso que passa por Saint-Denis (dá até para espiar pela janela o Stade de France). A viagem leva perto de 50 minutos, conforme o transporte, claro.

Aprendendo com os jovens

Nesta edição, a Maison & Objet completa 25 anos. E o assunto central deste aniversário busca os códigos de consumo que têm a ver com a sua idade, mas certamente não foram escolhidos apenas por isso, mas pelo anseio de antecipar tendências de lifestyle. (RE) GENERATION! é o tema, focado nas gerações Y e Z, que incluem aqueles jovens que não lavam a louça em casa, mas querem se engajar em movimentos da limpeza das margens do rio de sua cidade, por exemplo. Valorizam a transparência e a procedência dos produtos que consomem. Nota-se que há muitas marcas que colocam o nome do país no estande para evidenciar sua origem.

Volume especial abriga os seis espaços de jovens escolhidos por um júri como as apostas da edição da Maison & Objet, este ano importante por completar 25 anos. A curiosidade é que são todos parisienses e passaram pela mesma escola, a ENSCI Les Ateliers no 11º distrito da capital francesa – como alunos ou, no caso de Julie Richoz, no papel de professora (crédito: Eleone Prestes)
Lateral do espaço dos jovens talentos (crédito: Eleone Prestes) 
Julie Richoz faz experimentações com tons pintando quadros no tablet usando os dedos e, mais recentemente, está testando produtos em impressora 3D (crédito: Eleone Prestes)
A dupla Natacha e Sacha mostrou protótipos de uma luminária ajustável e outros equipamentos funcionais para a casa concebidos como eletrodomésticos (crédito: Eleone Prestes)
Adrien Garcia criou uma peça com encaixes dentro que contém todo o mobiliário para uma sala de jantar que, conforme a disposição, também pode ser usada como escritório. É um exemplo de móvel multifuncional, uma tendência (crédito: Eleone Prestes)

 Para marcar esta comemoração de boda de prata – expressão antiga, mas perfeita para identificar 25 anos de uma relação, neste caso da feira com os visitantes –, os seis Rising Talents eleitos para a edição de janeiro são todos franceses. Cada ano vêm de uma nacionalidade e representam uma janela para o futuro com suas experimentações e protótipos de objetos a móveis que mexem com o jeito de enxergarmos a casa. Os criativos que fazem parte das gerações sob os holofotes desta edição da feira são os jovens Adrien Garcia, Julie Richoz, Mathieu Peyroulet Ghilini, Natacha e Sacha, Wendy Andreu e Laureline Galliot. 

Já o experiente Designer do Ano da edição de janeiro, Michael Anastassiades, radicado em Londres, foi escolhido por um júri e ele mesmo fez parte do corpo de jurados que escolheu os jovens e promissores talentos. Ambos, Rising Talents e Designer do Ano, merecem sempre espaços especiais na feira. 

Michael Anastassiades é o Designer do Ano desta Maison & Objet. Nascido na Ilha de Chipre e radicado em Londres, ele mostrou em Paris a Sixteen Acts, uma instalação que lembrava planetas em movimento, com 16 luminárias mostrando as linhas do seu trabalho. Ele me mostrou desde a primeira, mais simples e reta, e a evolução delas. Além de acreditar que, “para projetar uma luz, primeiro é preciso abraçar a escuridão: não é necessário transformar noite em dia”, Anastassiades considera que 80% do tempo as lâmpadas estarão apagadas. Assim, desenha linhas ora retas, mas na maioria, curvas, que funcionam desligadas pelas formas escultóricas. Na exposição na Maison, estavam suspensas e em constante movimento, lembrando móbiles (crédito: Eleone Prestes)
O importante designer de marcas de iluminação como Flos e de móveis como B&B Italia, Herman Miller e Cassina, com obras em museus como o Museu de Arte Moderna de Nova York e o Victoria & Albert Museum em Londres, foi de extrema gentileza ao me explicar a sua coleção de luminárias na Maison & Objet. Depois nos encontramos novamente na cerimônia de premiação que, apesar de oficial, foi descontraída (crédito: Eleone Prestes)

Vale referir que há uma programação paralela de conteúdo, enfocando desde a obra do Designer do Ano até as gerações que levaram ao tema da feira. E, do lado da exposição de produtos, este ano teve uma novidade, um esforço de inclusão de novos criativos: uma área para mostrar talentos da China com identidade própria, em uma parceria da Maison & Objet com empresas e entidades como Chaoshang International Trading e a Academia Central de Belas Artes de Beijng que resultará em um concurso, cujos ganhadores serão apresentados na edição de setembro da Maison, nas categorias de design de produto, de interiores e talentos emergentes. 

Maison & Objet

Exposição de talentos chineses na Maison & Objet (crédito: Eleone Prestes)

Tendências dão o tom: cores, formas, materiais e inspirações do momento

Ninguém precisa abandonar a certeza de elegância dos cinzas e beges, mas se até a Fendi Casa adotou outras cores junto dessas nas propostas apresentadas, é bom pensar pelo menos em pinceladas pontuais. Pena que era proibido fotografar dentro do estande. Acompanhada todo o tempo durante a visita, muitas informações foram compartilhadas, mas nem uma tomada geral foi autorizada para mostrar toda a composição do décor. Mas temos fotos dos móveis fornecidas pela grife. 

Fendi investe em cores sem perder a elegância (crédito: Fendi, divulgação)
Como joias, as poltronas têm braceletes de metal (crédito: Fendi, divulgação) 
Mesas acessórias têm pés com desenhos diferentes e tampos idem (crédito: Fendi, divulgação) 
Observe o jogo de estampas nos estofados (crédito: Fendi, divulgação)

Voltemos às cores: eu me referia específica e somente, no caso da Fendi, a azul-marinho, laranja/tijolo, marrom e a composição preto e … fendi, claro. Acabamentos de metal, formatos orgânicos e circulares nos móveis, mas linhas retas no jantar e na geometria dos tapetes. Além da surpresa da importância de uma paleta muito além do tom que dá o nome à Fendi Casa, os materiais impressionam, principalmente couros de uma maciez inacreditável, com estampas discretas em roupas de camas, por exemplo, criadas a partir do logotipo. Padrões mais marcantes, nos estofados, são conectadas aos grafismos dos tapetes. Texturas e acabamentos à mão conectam a marca a uma grande tendência: o artesanal elevado a um nível de luxo.

Combinação de cores e acabamentos é um luxo (crédito: Fendi, divulgação) 
Tampos e pés da mesa de refeição merecem um momento de reflexão (crédito: Fendi, divulgação) 
Grafismo sofisticado nos tapetes Fendi Casa (crédito: Fendi, divulgação) 

Podemos dizer que os tons secos do outono predominam na feira, mas há também a alegria do verão, principalmente no caso das marcas que já transitam por uma paleta de cores mais rica, como a italiana Seletti. Entre os terrosos outonais, estão incluídos o rosa, é bom ressaltar, e o amarelo-queimado. O branco diz presente principalmente nos estofados, apresentados em grande parte em formato de meia-lua e dispostos de forma circular no ambiente, o que não é novidade.

O mundo de pernas para o ar no estande da sempre lúdica e colorida Seletti, no setor Today Signature da Maison & Objet (crédito: Eleone Prestes) 

Interessante ver as combinações propostas em ambientes (crédito: Eleone Prestes) 

Poltrona em rosa, cor que se mantém entre as preferidas, e revestida em tecido com textura também em alta (crédito: Eleone Prestes) 

Os neutros estão salvos, aliados a elementos da natureza que comprovam sua origem  (crédito: Eleone Prestes)

Cores e estampas são companhias garantidas nos tapetes, cada vez mais ousados também nas formas e temáticas. Um exemplo desse movimento é a CC Tapis, empresa de tapetes contemporâneos feitos no Nepal por artesãos especializados. Fundada na França, a empresa hoje está sediada em Milão. De inspiração na temática espacial dos retrô-futuristas anos 1980, o Studio Milo havia criado para a CC em 2019 uma proposta inclusive para o estande que, a exemplo deste 2020 em Paris e na próxima feira IMM de Colônia, de 13 a 19 de janeiro na Alemanha, é feito com material reciclável e esse clima sutil de ficção científica. As coleções da marca mostram ainda tapetes de formatos orgânicos inspirados nas penas dos pássaros, em mosaico de azulejos, experimentos na criação de pedras fake e até uma cortina teatral. 

Inspiração retrô-futurista nesta linha do Studio Milo para a CC Tapis  (crédito: Eleone Prestes) 
Este tapete inspirado pelo interesse pelos pássaros do jovem belga Maarten de Ceulaer desde criança é um dos meus tapetes preferidos (crédito: Eleone Prestes) 
Este mosaico de azulejos é de um realismo que parece ter sido feito de revestimentos mesmo. A criação é do laboratório de design da CC Tapis (crédito: CCTapis, divulgação) 

Super Rok, da londrina Bethan Laura é uma coleção a partir de uma investigação de pedras fake, cores e detalhes que interessam à designer, o que fica claro ao ver a sua própria produção de figurino (crédito: Eleone Prestes) 

Este tapete merece uma parede para ser visto adequadamente. Esta tapisserie, Plissé, de Cristina Celestino, dá vontade de tocar pelo realismo do movimento das camadas da “cortina” (crédito: Eleone Prestes) 

Mas os tons naturais em formas sinuosas têm seu espaço na CC Tapis. Mae Engelgeer trabalha com a verdade de fios não tingidos de lã das ovelhas do Himalaia: “Nesta versão calma dos tapetes Bliss, mostro meu apreço pela beleza da natureza”.

Tapetes da coleção Bliss, de Mae Engelgeer feitos com os tons originais das lãs de ovelhas do Himalaia (crédito: Eleone Prestes)

 

Materiais, formas e influências

No quesito belezas naturais, as fibras são um capítulo especial. Cada vez mais presentes na Maison & Objet dos dois últimos anos, servem para fazer de móveis a luminárias rústicas com a delicadeza do trabalho manual. 

As fibras naturais estão nos móveis e nos acessórios como espelhos e luminárias (crédito: Eleone Prestes) 

Mais de um tipo de trabalho com materiais naturais para mostrar a diversidade de aplicação das fibras (crédito: Eleone Prestes) 
A delicadeza do trabalho com materiais naturais impressiona (crédito: Eleone Prestes) 

Em estandes projetados com arcos por todo lado na estrutura do espaço e nos produtos, as luminárias inspiradas no sol e na lua, referências recorrentes, mostram as possibilidades de criação a partir de outros elementos da natureza. Pedras, em grande parte, mármores, compõem pequenos móveis e acessórios, misturadas a metais. As linhas da arquitetura moderna como a de Oscar Niemeyer junto com os hits do estilo art déco dizem presente inspirando móveis e acessórios, como espelhos e bares, em peças geralmente com um toque contemporâneo de mistura de materiais que não faziam parte do vocabulário das vertentes originais. Franjas em luminárias e até móveis fazem referência direta a um adorno de decoração e moda usado nos anos dourados do estilo, 1920 e 1930.

 Os arcos são o grande clichê da feira (crédito: Eleone Prestes) 
Arcos por todos os lados (crédito: Eleone Prestes) 
A dualidade do introvertido, extrovertido é o resultado dessas criações da Haberdashery, marca que também evoca a atmosfera noturna urbana em outras peças  (crédito: Eleone Prestes) 
Estas peças são do português Toni Grilo, que foi convidado pela feira para mostrar seu trabalho para todas as marcas para as quais ele trabalha (crédito: Eleone Prestes) 
 Marm é a marca de luminárias de mármore assinadas por Toni (crédito: Eleone Prestes)
Os móveis são interessantes por várias razões, mas a principal é a formação de uma instalação quase de arte quando elas são reunidas (crédito: Eleone Prestes) 
A arquitetura deste estofado marca os lançamentos da francesa Roche Bobois que a cada ano consegue surpreender com lançamentos bem diversos a cada temporada (crédito: Eleone Prestes) 
Mesmo nos pequenos formatos, o bom design deixa sua marca de excelência (crédito: Eleone Prestes) 
Franjas em utilizações improváveis como no fechamento deste armário da marca sempre curiosa IBride (crédito: Eleone Prestes) 

Não poderia deixar de falar dos tecidos e das porcelanas. Nos primeiros, tons crus com muita textura ou estampas inspiradas na natureza, claro, são os mais sedutores. Nesse quesito, Missoni Home sempre dá um show. Olhe nas fotos. E, nas porcelanas, Portugal é um dos destaques: vai das tradicionais Bordallo Pinheiro e seus objetos figurativos de cair o queixo e Vista Alegre, com linhas assinadas por grandes nomes do design e da moda, até a estreante Nosse, que escolheu a Maison & Objet para lançar a marca. Moroso não é estreante, mas a grife italiana está retornando à Maison & Objet com seus móveis assinados por Patricia Urquiola e outros renomados designers em um estande duplo. Linhas curvas, tons suaves, mas coloridos em sofás, cadeiras e mesas orgânicas com a identidade da marca.

A figuração misturada a grafismos faz a graça da Missoni Home em cortinas, estofados, tapetes e biombos (crédito: Eleone Prestes) 
A inspiração em sombras, pedras e madeiras da floresta estão presentes nesta coleção que mostra de tons P&B a super alegres e coloridos, passando pelos terrosos, é claro (crédito: Eleone Prestes) 
Entre as maravilhas das porcelanas Vista Alegre, destaco a linha de Marcel Wanders que tem texturas impressionantes nas superfícies  (crédito: Eleone Prestes) 
Esta é a novidade da marca portuguesa Vista Alegre: uma linha de tecidos lançada nesta Maison & Objet  (crédito: Eleone Prestes)
Estas peças são da nova marca portuguesa Nosse que estreia na feira parisiense com uma ótima qualidade de acabamento e impressão em pratos, luminárias e canecas (crédito: Eleone Prestes) 
Moroso era uma das grandes grifes da feira (crédito: Eleone Prestes) 
Nesta edição, a Moroso disse presente na Maison & Objet com um grande movimento no estande (crédito: Eleone Prestes) 

Esta viagem quase interminável – porque a Maison & Objet vai do décor à moda, passando pela joalheria e a arte (e interessa a designers, arquitetos, lojistas, fabricantes e produtores de conteúdo) – chega ao fim. É muita criação para conhecer, contemplar ou comprar. Mas temos que eleger o que mais interessa para ver e relatar. Feira é assim, exige curadoria.

Foto de destaque:
GeralSeletti (crédito: Eleone Prestes) – A feira conta com grifes consagradas como a italiana Seletti e pequenas marcas que ousam nas propostas e deliciam os visitantes

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