Menu
Projetos e Obras
Busca

Conteúdo Colunistas

Estética do futuro

13/07/2018

A combinação de tecnologias avançadas e a observação de padrões naturais são a tônica do design realizado pelo nolii.

Imagine uma grande tigela redonda repleta de água. O ambiente está calmo e a superfície está lisa. Uma gota d’água cai com força, gerando uma sequência de ondas concêntricas a partir da pulsação provocada pela gota. Um segundo depois, em outro ponto da superfície, mais uma gota cai. As novas ondas começam a se intercalar com as primeiras, e o conjunto se distorce reciprocamente. Uma terceira gota torna a reação mais complexa, e assim por diante.

As mesas g.sp são feitas de uma única peça de alumínio cortada e gravada com máquina CNC. O desenho do tampo se inspira nos aneis de crescimento de troncos de árvore e simula as deformações nas linhas causadas por nós. Crédito: Ana Mello/divulgação nolii

As mesas g.sp são feitas de uma única peça de alumínio cortada e gravada com máquina CNC. O desenho do tampo se inspira nos aneis de crescimento de troncos de árvore e simula as deformações nas linhas causadas por nós (Crédito: Ana Mello/divulgação nolii)

Seria difícil e trabalhoso transpor para o papel ou para um modelo tridimensional o resultado das linhas ondulatórias na superfície aquosa. Mas é possível, em alguns minutos, simular esse movimento digitalmente, inserir um novo ponto de tensão, observar o resultado, torná-lo estático ou colocá-lo novamente em curso, a qualquer momento. Esse é apenas um exemplo de como podem funcionar sistemas computacionais que estão alargando o campo de possibilidades de projetos para designers e arquitetos – em especial softwares de desenho paramétrico como o Grasshopper. Em vez de partir de uma linha fixa, esses desenhos paramétricos, ou generativos, baseiam-se em pontos definidos por coordenadas. Quando os parâmetros sofrem modificações, essas reverberam automaticamente no todo.

“As formas geradas digitalmente têm imprevisibilidade e complexidade que seriam inconcebíveis sem o uso do computador”, diz Andrea Macruz, do estúdio nolii, uma das criadoras que vêm explorando mais consistentemente, no Brasil, os novos caminhos possibilitados por tecnologias avançadas. Ela entrou em contato com as ferramentas digitais no mestrado em Arquitetura Biodigital realizado em Barcelona, após uma formação mais tradicional na disciplina pela Universidade Mackenzie. Hoje dedica-se principalmente ao design de produto e a transmitir suas pesquisas aos alunos da Belas Artes e do Istituto Europeo di Design, ambos em São Paulo.

Nas mesas s.ce, o estudo da topografia de dunas de um deserto e de triangulações fractais, parametrizados pelo Grasshopper, cria as cavidades esculpidas por CNC em uma placa de MDF, que depois é pintada. Crédito: Ana Mello/divulgação nolii

Nas mesas s.ce, o estudo da topografia de dunas de um deserto e de triangulações fractais, parametrizados pelo Grasshopper, cria as cavidades esculpidas por CNC em uma placa de MDF, que depois é pintada (Crédito: Ana Mello/divulgação nolii)

Tanto a criação quanto a produção são beneficiadas pelas novas tecnologias. A primeira inclui softwares e plugins como o Rhino, Grasshopper, Phyton e scriptings (códigos de programação); a segunda se caracteriza por ferramentas de fabricação digital como impressoras 3D, máquinas CNC e braços robóticos.

As luminárias m.sa derivam do movimento de propulsão de águas vivas e são feitas como um kirigami, técnica japonesa de corte de papel. Finas chapas metálicas são cortadas a laser ou jato d’agua, seguindo desenho feito no computador. Na hora da montagem, a forma final pode ser facilmente modificada pela fixação das abas por tachas. Crédito: Ana Mello/divulgação nolii

As luminárias m.sa derivam do movimento de propulsão de águas vivas e são feitas como um kirigami, técnica japonesa de corte de papel. Finas chapas metálicas são cortadas a laser ou jato d’água, seguindo desenho feito no computador. Na hora da montagem, a forma final pode ser facilmente modificada pela fixação das abas por tachas (Crédito: Ana Mello/divulgação nolii)

Os projetos do nolii combinam esse instrumental com a observação aguda da natureza. Nos softwares é possível não somente reproduzir padrões naturais como modificá-los conforme a criatividade quiser. O comportamento de ciclones, ondas do mar, dunas de um deserto ou fissuras tectônicas são alguns dos padrões que de alguma forma já serviram à designer, sempre combinados a outros inputs, como transformar linhas curvas em linhas retas. Essas referências provenientes do mundo natural, segundo ela, aproximam as pessoas dos desenhos gerados no computador: “A tecnologia ainda é algo que assusta. A conexão com a natureza é interessante porque cria relações com fenômenos que o cérebro reconhece”.

As luminárias f.ly nasceram a partir da medição da distância entre nervuras de uma folha de árvore, que Andrea Macruz transpôs manualmente para dobraduras um papel, de modo a criar um origami. A curvatura foi se estabelecendo naturalmente, como acontecia na folha que lhe serviu de inspiração. A pintura, com pigmentos naturais, faz parte de uma pesquisa de observação de como líquidos se ramificam quando se espalha sobre uma superfície que o absorve. Crédito: divulgação nolii

As luminárias f.ly nasceram a partir da medição da distância entre nervuras de uma folha de árvore, que Andrea Macruz transpôs manualmente para dobraduras um papel, de modo a criar um origami. A curvatura foi se estabelecendo naturalmente, como acontecia na folha que lhe serviu de inspiração. A pintura, com pigmentos naturais, faz parte de uma pesquisa de observação de como líquidos se ramificam quando se espalha sobre uma superfície que o absorve (Crédito: divulgação nolii)

O interessante, para ela, é fazer com que analógico e digital, natural e artificial, dialoguem continuamente. A luminária c.as, baseada na espiral da íris do olho humano, foi desenhada no computador mas é produzida artesanalmente com tubos de plástico. A série de luminárias m.sa nasce de recortes a laser em uma chapa metálica mas sua forma tridimensional é definida manualmente por cada usuário – tal flexibilidade foi inspirada pelo movimento de propulsão das águas vivas, sua capacidade peculiar de expandir e contrair, alterando continuamente sua forma.

A fruteira m.ar se baseia no movimento vórtice, escoamento giratório onde as linhas de corrente apresentam um padrão circular ou espiral, que pode ser observado em fenômenos como furacões e redemoinhos. O desenho é digital, mas a sua fabricação totalmente manual. Crédito: divulgação nolii

A fruteira m.ar se baseia no movimento vórtice, escoamento giratório onde as linhas de corrente apresentam um padrão circular ou espiral, que pode ser observado em fenômenos como furacões e redemoinhos. O desenho é digital, mas a sua fabricação totalmente manual (Crédito: divulgação nolii)

Algumas vezes, do mesmo modo que os desenhos seriam inconcebíveis fora do universo digital, eles também são impossíveis de produzir com meios analógicos. Um exemplo é a luminária m.us, de desenho complexo proveniente da fita de Möbius modificada pelo estudo de cavidades de conchas, que só pode ser materializado por impressora 3D. Outras vezes, o caminho é inverso. Certo dia, Andrea encontrou caída na calçada uma folha de árvore de formato intrigante. Percebeu que os filamentos ligados à nervura central saíam de um mesmo ponto em uma extremidade da folha e, gradualmente, iam se desencontrando no centro, para então se reencontrarem na outra extremidade. Mediu essa variação de distâncias e, munida de uma folha de papel, mimetizou o observado. Dobrou-a ao meio para criar o eixo da nervura central e, a partir dele, começou a dobrar cada lado do papel a partir de pontos com a mesmas distâncias da folha natural. Surgiu, assim, um origami cuja curvatura foi gerada naturalmente pelas dobras. Agora, ela irá escanear em 3D o objeto, batizado f.ly, para obter o desenho digital e eventualmente poder fabricá-lo com uma fresadora CNC.

As mesas d.ir, que utilizam os softwares Rhino e Grasshopper, têm desenhos compostos por linhas que saem de um ponto central e vão mudando de direção, conforme se aproximam do seu perímetro, como se encontrassem obstáculos no meio do caminho que as redirecionassem. Crédito: divulgação nolii

As mesas d.ir, que utilizam os softwares Rhino e Grasshopper, têm desenhos compostos por linhas que saem de um ponto central e vão mudando de direção, conforme se aproximam do seu perímetro, como se encontrassem obstáculos no meio do caminho que as redirecionassem (Crédito: divulgação nolii)

As formas orgânicas, não ortogonais, complexas e dinâmicas ganharam um grande aliado com a emergência das tecnologias digitais – como já foi dito, tanto para serem idealizadas quanto para tornarem-se objetos físicos. Pouco a pouco, as coisas construídas vêm abraçando essas novas influências. O trabalho do nolii apresenta, assim, um belo vislumbre da estética do futuro.

A designer Andrea Macruz, do nolii. Crédito: divulgação

A designer Andrea Macruz, do nolii (Crédito: divulgação)

3 Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *