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Conteúdo Design em pensamento

É a sustentabilidade, estúpido!

09/10/2017

Ou seria a economia? Na leitura a seguir, Fernando Serapião avalia as reais preocupações ambientais e destaca iniciativas de qualidade.

“É a economia, estúpido!”. A célebre frase dita por um assessor de Bill Clinton estala na minha mente quando sou indagado a tratar do tema da sustentabilidade na arquitetura.

A razão dessa associação é que o conceito da sustentabilidade começou a ganhar força nas duas últimas décadas ao reverberar o crescimento da economia global. O que pode parecer, à primeira vista, contraditório aconteceu porque a construção civil é responsável por cerca de 40% da energia consumida no planeta. Nessa conta está computada toda a cadeia econômica do setor, começando pela produção de componentes (concreto, aço, revestimentos etc.), passando pelo canteiro de obras e terminando no uso e na manutenção dos edifícios.

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Eduardo Souto Moura (Foto: Oscar del Rio)

Diante desse quadro, o polvo da economia pressionou seu tentáculo da construção civil a se adaptar, a ser mais eficiente e a gastar menos energia. Trocando em miúdos, mesmo que existam – e elas existem! – preocupações ambientais legítimas em muitos dos agentes envolvidos, o cerne da sustentabilidade é a sobrevivência do crescimento econômico e a consequente manutenção de sua matriz liberal.

Portanto, a adaptação da cadeia da construção civil, historicamente mais atrasada que outras, é fator fundamental para manter o avanço da economia e acomodar as curvas demográficas, que sugam recursos naturais.

Uma das consequências diretas desse processo foi a criação de parâmetros de eficiência, que podem começar a ser medidos num projeto de arquitetura. Muitos já devem ter ouvido falar nos “edifícios certificados” ou nos “selo verde”, criados para atender ao mercado corporativo norte-americano. E o assunto só avançou pela pauta econômica: grandes corporações não alugam escritórios em prédios sem certificação. Daí a lembrança da frase do assessor, que poderia ser adaptada para “é a eficiência, estúpido!”.

Adentrando a matéria, outra citação de que me lembro foi dita por um célebre arquiteto do nosso tempo: o português Eduardo Souto Moura, vencedor do prêmio Pritzker, em 2011. Em uma entrevista ao jornal espanhol El País, ele declarou que “a arquitetura, para ser boa, já o é, implicitamente, sustentável”. Se invertêssemos a frase perceberíamos que o que está em jogo é que os selos de qualidade podem imprimir valor à arquitetura sem qualidade, certificando prédios insensíveis em relação à história da comunidade onde está implantado.

Por exemplo: um prédio neoclássico recém-construído em São Paulo, que ofende a história da arquitetura brasileira, pode ser sustentável? Se adotar os parâmetros atuais, ganha o selo, como de fato já aconteceu. Por outro lado, há o perigo do marketing verde, que gasta mais dinheiro em promoção dos produtos do que em processos realmente sustentáveis.

fazenda canuanã

Moradias Estudantis, na Fazenda Canuanã, projetadas por Aleph Zero e Marcelo Rosembaum (Foto: Leonardo Finotti)

Muito longe dessa polêmica, duas iniciativas de qualidade foram realizadas recentemente no meio de nossa floresta tropical. A primeira delas é a moradia estudantil da Fundação Bradesco, próxima à Ilha do Bananal, no Tocantins. São dois pavilhões, com estrutura de madeira laminada, criados por um time liderado pelos paulistas Marcelo Rosenbaum e Adriana Benguela (da Rosenbaum) e pelos paranaenses Gustavo Utrabo e Pedro Duschenes (da Aleph). Gêmeos, os pavilhões dividem as crianças por gênero e totalizam 25 mil metros quadrados de área construída. As circulações são abertas à paisagem e o complexo foi criado após ampla imersão dos profissionais na comunidade local.

O segundo projeto que me vem à mente é o Centro Experimental Floresta Ativa (Cefa), no Pará. Trata-se de um espaço destinado a treinar a comunidade para viver em harmonia com a floresta, tratando de tecnologia e ações socioambientais. O próprio desenho arquitetônico foi um treinamento, em que a tecnologia construtiva foi o ponto de interação entre técnicos e a comunidade, com ambos os lados aprendendo. Criado pela paulista Cris Xavier, o desenho conta com pilares de madeira e cobertura de palha.

Os dois projetos não contam com certificação. É claro que não precisavam, pois, como lembraria Souto Moura, se é boa arquitetura, é sustentável. Os pavilhões de madeira na nossa floresta são muito mais coerentes com a realidade local do que qualquer selo norte-americano poderia supor. Afinal de contas, o que está em jogo é a sustentabilidade, estúpido!

Centro Experimental Floresta Ativa (Foto: Acervo Cris Xavier)

Centro Experimental Floresta Ativa projetado por Cris Xavier (Foto: Acervo Cris Xavier)

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