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Depois da quarentena

Conteúdo Correspondentes Internacionais

Depois da quarentena

03/04/2020

Como vamos nos lembrar do Coronavírus? Como estará o cenário mundial depois que tudo isso passar? Escrevi um relato para vocês comparando fatos históricos com a situação atual do mundo. Convido vocês para refletirem e pensarem o que essa situação pode nos trazer de bom.

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Hoje estou aqui não para falar de números ou notícias negativas, pelo contrário, após quase 25 dias de quarentena restrita, sem poder sair de casa, precisamos nos agarrar em esperanças e fatos históricos que nos trazem a famosa luz no fim do túnel e como arquiteta e empresária, divido com vocês o meu ponto de vista sobre a atual situação.

A força e união dos italianos durante esse momento difícil (Foto: Pietro Luca Cassarino)

A força e união dos italianos durante esse momento difícil (Foto: Pietro Luca Cassarino)

A Itália é um país forte e unido, e não seria diferente em uma situação assim. Ver os italianos juntos por uma mesma causa, a vida, a saúde, é emocionante. Sentir as ruas vazias, não escutar música vindo das praças, estudantes rindo, turistas felizes e o tim tim das taças de vinho, é com certeza assustador. Florença é uma cidade cheia de vida, alegre, que nunca para. Mas tivemos que parar. E o que vamos lembrar desse período?

A mente não tem capacidade de lembrar, pela simples razão de que é impossível esquecer. Retemos todos os estímulos emocionais que temos acesso e as atividades psicológicas não podem ser transmitidas de um indivíduo ao outro. Por esse motivo, a história é estudada, aprofundada e compreendida, mas esse entendimento é minimamente capaz de enriquecer a bagagem da experiência social. A história nunca ensina o que deveria, mas consegue transmitir os fatos.

Depois de tempos difíceis, grandes mentes sempre buscam um caminho diferente, e inspirações nas dificuldades, assim surgem as grandes criações. Foi dessa forma no período do Renascimento pós-Idade Média, os períodos pós-guerras, a crise de 29… As revoluções nessas fases impõem outra mentalidade, os efeitos sobre a cultura e a ciência são imediatos e profundos.

A Idade Média por exemplo, é conhecida como uma época insignificante em relação ao desenvolvimento. Essa transformação veio durante o século XVI, quando a “idade das trevas” trouxe novas formas de viver e de pensar ao mundo, o que resultou um amplo movimento artístico e científico e técnico, o famoso Renascimento. Nomes como Leonardo da Vinci, Michelangelo, Donatello, Brunelleschi, entre outros, tomam frente desse momento da história e os reflexos das suas criações e ensinamentos permanecerem até os dias atuais. 

Florença, cidade berço do renascimento fechada para o mundo por tempo indeterminado (Foto: MustangJoe por Pixabay)

Florença, cidade berço do renascimento fechada para o mundo por tempo indeterminado (Foto: MustangJoe por Pixabay)

Apesar da crise política e econômica do pós-guerra, a geração de arquitetos que estava ativa neste período não parou de criar. Muito pelo contrário, Erich Mendelsohn, Peter Behrens, Hans Poelzig, Mies van der Rohe, Walter Gropius, Bruno e Max Taut, entre outros, deixaram de lado as amarras do funcionalismo e do racionalismo e passaram a trabalhar em projetos arquitetônicos independentemente de serem construídos futuramente ou não. Erich Mendelsohn definiu a arquitetura como a expressão do sentimento de uma época e do espírito de uma época. Ele fala a favor das necessidades e esperanças da nação. Ele fala da origem, do crescimento e do declínio. Arquitetura é a prova da herança, é um documento da sua história política, da sua missão espiritual, da sua cultura.’’

Tempos de crise são também oportunidades para revisão de paradigmas, e experimentações. Na segunda década do século XX, as pressões econômicas e sociais, diante de uma grande crise, requeriam um novo modelo de consumo e uma nova forma de habitar, dedicada especificamente ao atendimento das urgências sociais: habitação, renovação urbana e racionalidade.

Grandes arquitetos e urbanistas ao redor do mundo, aproveitaram-se daquele momento para lançar uma revolução de ideias. Essa é a história do racionalismo, movimento moderno, e dos demais movimentos posteriores que conhecemos muito bem. Foi uma ruptura de paradigmas, para a construção de novos modelos de implantação que presenciamos até a atualidade.

Imagem histórica e rara para Florença. A praça de Santa Croce completamente vazia durante o período de quarentena dos italianos (Foto: Luiza Vegini)

Imagem histórica e rara para Florença. A praça de Santa Croce completamente vazia durante o período de quarentena dos italianos (Foto: Luiza Vegini)

Hoje vivemos um momento muito similar, onde temos uma demanda pela gestão sustentável das cidades, ao invés daquela demanda racional de alguns anos atrás. Quem está disposto a se reinventar?

Uma coisa é certa, cada um desses dias, desses momentos, testemunhará o que afetou e afeta a todos, conectando pensamentos à realidade. Os aspectos de sofrimento e risco prevalecerão, assim como os de preocupação e ansiedade. Mas, acima de tudo, os fluxos de pensamentos relacionados ao que tememos que aconteça no círculo daqueles que fazem parte da existência pessoal permanecerão esculpidos em nós. Que possamos sair dessa situação pessoas melhores, seres humanos evoluídos e prontos para se reinventar.

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