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Estátua do profeta Jonas, localizada no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos (MG), é criação de Aleijadinho (Foto: geraldoobici)

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Aleijadinho: o grande mestre do barroco mineiro

06/10/2021

Com suas criações, Aleijadinho ajudou a escrever a história de Minas Gerais — um relato único, que se difere do restante do Brasil. Conheça o mestre!

Nas ruas de Ouro Preto (MG), as igrejas se destacam. Grandes ou pequenas, elas contam com uma exuberância de elementos: sempre em excesso, muitas vezes coloridos, mas com presença de dourado. Tudo isso só foi possível graças à influência de Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como Aleijadinho (c. 1738 – 1814), um dos maiores mestres brasileiros.

Importante nome do barroco e do rococó, Aleijadinho é marca na história da arquitetura de Minas Gerais e, claro, do Brasil. A expressividade e a intensidade de suas criações se contrastam com o mistério na qual sua biografia é envolta. Neste artigo, vamos conhecer um pouco mais sobre a vida e a obra dele. Acompanhe!

A história de Aleijadinho

Relevo de autoria de Aleijadinho na Igreja de São Francisco de Ouro Preto
Relevo de autoria de Aleijadinho na Igreja de São Francisco de Ouro Preto (Foto: Ricardo André Frantz

Escultor, entalhador e, para muitos, o maior arquiteto do período colonial brasileiro, Antônio Francisco Lisboa foi um homem de múltiplos talentos e influências na arte brasileira.  

Nascido em Vila Rica, atual Ouro Preto, a vida e a obra de Aleijadinho marcam a cidade histórica até hoje. Mas sua história é envolta em mistérios. 

Não há muitos materiais sobre ele. O pouco do que se sabe vem da biografia escrita por Rodrigo José Ferreira Bretas 44 anos após sua morte. 

Para escrever, Bretas alegou ter se baseado em documentos históricos e depoimentos de pessoas que conviveram com Aleijadinho. 

Porém, acredita-se que boa parte de sua narrativa é fantasiosa, em uma tentativa de criar heróis nacionais que era bem comum na época. 

Em 1777, pouco antes de chegar aos 40 anos, Aleijadinho começou a desenvolver uma doença nas articulações que reduzia a movimentação de mãos e pés. 

Embora não se saiba exatamente qual patologia atingiu o escultor, acredita-se que foi a hanseníase, um dos maiores males da antiguidade. 

A enfermidade, como se pode imaginar, deu origem ao apelido. Durante sua vida, Aleijadinho teve que trabalhar de joelhos, após perder os dedos dos pés. 

A biografia de Bretas relata que seus ajudantes amarravam as ferramentas às suas mãos quando já não havia dedos para segurá-las. 

A doença também atingiu sua face. E, por ter consciência de que sua aparência estava deformada, era mal-humorado e desconfiado. Assim, acreditava que os elogios que recebia eram, na verdade, escárnios. 

Mesmo doente, Aleijadinho teve uma vida longa. Faleceu em 1814, aos 76 anos, pobre e com pouquíssimo reconhecimento.

Dois séculos após sua morte, é reconhecido como o maior artista barroco brasileiro

Por ser uma história com documentação deficitária, acredita-se que muito da realidade de sua vida tenha sido ignorado ou moldado. 

Em Palavra peregrina: o barroco e o pensamento sobre artes e letras no Brasil, o autor Gomes Júnior aponta que registros de 1796 mostram uma caligrafia de Aleijadinho ainda firme, o que não bate com o agravamento relatado por Bretas. 

O rococó mineiro 

A Igreja São Francisco de Assis, em Ouro Preto, foi construída no estilo barroco e com elementos decorativos do rococó
A Igreja São Francisco de Assis, em Ouro Preto, foi construída no estilo barroco e com elementos decorativos do rococó (Foto: Svenwerk

Quando comparado ao litoral, Minas Gerais teve um povoamento relativamente tardio. 

Isso permitiu que seu estilo arquitetônico acompanhasse a tendência da época — o rococó —, sem ter que adaptar ou reformar construções mais antigas. 

As igrejas, portanto, têm um estilo único, principalmente quando comparadas ao restante da arquitetura do Brasil. E como era um estado “isolado”, não sofreu tantas influências arquitetônicas.

Outro fator interessante foi que o estado também aproveitou o súbito enriquecimento, graças à descoberta de jazidas de ouro na região. 

Assim, surgiu uma elite local interessada em arte, patrocinando artistas — como Aleijadinho e Mestre Ataíde — e apreciando obras profanas. 

Barroco versus rococó 

Barroco e rococó são dois estilos artísticos e arquitetônicos com diferenças mínimas. 

Nascido na França durante o século XVIII, “rococó” vem do termo rocaille (“concha”), em associação aos elementos decorativos desse movimento. 

É uma forma “profana” do barroco, que era voltado às construções religiosas. 

O rococó surgiu quando os aristocratas começaram a financiar os artistas. Estes, então, passaram a retratar os valores daquela sociedade, com cenas eróticas, festas e mitologia. 

Apesar de ser um estilo derivado do barroco, o rococó também tinha suas características exclusivas. Uma delas é a delicadeza de linhas curvas, em contraponto às retorcidas da arte barroca. 

Além disso, utilizava cores claras e tons pastel, priorizava a leveza e retratava uma sociedade em busca da felicidade e dos prazeres mundanos. 

As principais obras de Aleijadinho

Aleijadinho tem grande importância na estética da região histórica de Minas Gerais. Suas obras são intrínsecas ao estado: não dá para pensar no escultor sem lembrar dele, e vice-versa. Conheça algumas delas.

A Última Ceia, 1795  

Aleijadinho
A obra traz Cristo e apóstolos na última ceia antes da Paixão (Foto: Ricardo André Frantz)

Feita em madeira policromada, A Última Ceia é uma escultura em tamanho real que reproduz Jesus e os apóstolos interagindo ao redor de uma mesa redonda, no último momento antes da Paixão. 

A obra conta com toda a vivacidade da arte da época: os personagens têm expressões e movimentos. É possível imaginar o clima de tensão do diálogo entre eles.  

Curiosamente, A Última Ceia foi esculpida quando a doença de Aleijadinho já se encontrava em estado crítico e, assim, demorou 10 anos para ficar pronta. No entanto, é considerada a obra-prima do escultor. 

Está localizada no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG).  

Igreja de São Francisco de Assis, 1771 

Frente da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto
Frente da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto (Foto: Rodrigo Tetsuo Argenton

Localizada na cidade natal de Aleijadinho, a Igreja de São Francisco de Assis tem projeto, risco da portada, decoração em relevos e talha dourada assinados por ele.

A construção, que segue o estilo barroco com decorações em rococó, demorou cinco anos para ficar pronta. 

Apesar de contar com a participação de vários artistas, Aleijadinho foi pessoalmente responsável pela confecção de diversos objetos da igreja. 

Um desses participantes foi Mestre Ataíde, o maior nome da pintura colonial brasileira. Ele pintou o teto da nave e alguns painéis, além de dourar o altar-mor. 

A Igreja de São Francisco de Assis é uma das obras de arte mais conhecidas do período colonial e uma das mais importantes de Aleijadinho. 

Capelas Passos da Paixão de Cristo, 1796 – 1799

O momento da prisão, em que Jesus restitui a orelha de Malco golpeada por Pedro, é uma das cenas retratadas nas capelas dos Passos
O momento da prisão, em que Jesus restitui a orelha de Malco golpeada por Pedro, é uma das cenas retratadas nas capelas dos Passos (Foto: Ricardo André Frantz

As seis capelas localizadas na ladeira íngreme que leva ao Santuário Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG), formam o trajeto da Paixão de Cristo. 

As cenas, que trazem sofisticação de detalhes e acabamento, retratam os principais momentos do calvário de Cristo: ceia, horto, prisão, flagelação, coroação de espinhos, cruz às costas e crucificação. 

Para criar os Passos, Aleijadinho contou com seus ajudantes e outros dois artistas mineiros de alto escalão: os pintores Mestre Ataíde e Francisco Xavier Carneiro. 

Ataíde cuidou das imagens da ceia, flagelação e crucificação, enquanto Xavier Carneiro se responsabilizou pelo restante das peças, trabalho só finalizado em 1819. 

Mestre Ataíde também tem uma vida pouco documentada, mas seus trabalhos estão espalhados Minas Gerais afora. 

Já Xavier Carneiro foi um pintor barroco, dourador, encarnador e louvador que provavelmente foi alforriado quando batizado.

As 66 peças que compõem os Passos da Paixão de Cristo são consideradas o principal conjunto de imagens do barroco brasileiro. 

Desde 1985, o santuário tem o título de Patrimônio da Humanidade, conferido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). 

Igreja de São Francisco em São João del-Rei, 1809 

Fachada da Igreja de São Francisco de Assis, em São João del-Rei, com projeto inicial de Aleijadinho
Fachada da Igreja de São Francisco de Assis, em São João del-Rei, com projeto inicial de Aleijadinho (Foto: Halley Pacheco de Oliveira

Iniciado em 1774, o projeto original da Igreja de São Francisco, na cidade de São João del-Rei (MG), é de autoria de Aleijadinho. 

No entanto, o responsável por colocá-lo em prática foi o arquiteto Francisco de Lima Cerqueira, que modificou os desenhos iniciais de Aleijadinho e criou outros. 

Ele também executou os trabalhos de entalhe e fez com que a igreja se transformasse em uma das mais importantes obras do rococó brasileiro.

Viu como o trabalho de Aleijadinho é importante para a história do Brasil? Conheça agora Joaquim Pinto de Oliveira, o arquiteto Tebas!

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