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A vida é uma onda

13/05/2020

Olhando para trás fica fácil enxergar esse nosso eterno vai e vem. Assim como o tsunami de 2004 e a pandemia de 2020, a vida é uma onda.

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Quem me conhece sabe que sou a definição de um workaholic (pessoa viciada em trabalho), por isso, uma das facetas mais interessantes da minha quarentena foi o fato de eu, de repente, ter tempo para pensar em coisas que antes ficavam no fim da lista de prioridades. Mês passado me peguei lembrando de alguns momentos decisivos na minha formação. Meu primeiro dia de escola, meu primeiro beijo, o primeiro emprego e, é claro, minha primeira viagem realmente inesquecível.

Mais de duas décadas atrás me apaixonei completamente pela Tailândia. Lembro como se fosse ontem a chegada às ilhas de Koh Phi Phi, uma região paradisíaca, remota e deslumbrante que algum tempo depois se tornaria o cenário do filme A Praia – estrelado por Leonardo DiCaprio com direção de Danny Boyle. Naquela época, o destino nada mais era que uma vila de pescadores sem carros, sem lojas, sem techno, sem Instagram e sem turistas.

Pedro Andrade nas ilhas de Koh Phi Phi, Tailândia (Foto: arquivo pessoal)

Falo isso sem qualquer deboche. De uma maneira geral, tomo muito cuidado na hora de criticar o turismo massificado. Ele frequentemente tem um papel fundamental na sobrevivência e na recuperação de alguns lugares. O Camboja, o Vietnã, Cuba e o Nepal, são exemplos de locais destruídos por genocídios, guerras, ditaduras e terremotos e que, em parte, graças aos visitantes que por lá passaram após suas respectivas catástrofes, conseguiram se reerguer, melhorando assim a qualidade de vida de seus moradores.

Com isso dito, Koh Phi Phi, foi sem dúvida uma das minhas viagens mais transformadoras. Meus dias na praia de Maya Bay, deitado na areia, comendo siri, bebendo água de côco e mergulhando nas águas mais limpas que já tinha visto, me ensinaram que a combinação do lugar certo, no momento adequado, tem o poder de abrir nossos olhos para a frivolidade da nossa existência num mundo tão graúdo.

Koh Phi Phi, uma das viagens mais transformadoras de Pedro Andrade (Foto: arquivo pessoal)

A popularização das ilhas transfigurou o que na minha cabeça era o verdadeiro paraíso, mas, a destruição do lugar não foi causada pelos cruzeiros que mais tarde chegaram, nem pelas excursões comandadas por guias com megafone, nem pelos superpoderes de Hollywood, mas sim, pelas forças da própria natureza. Em 2004 a Tailândia foi devastada por um tsunami no Oceano Índico que custou a vida de mais de 230.000 pessoas em uma dúzia de países.

Assim como nessa tragédia, a atual pandemia chega como uma onda. Primeiro atingindo a China, depois o Irã, a Itália, a Espanha, a França, o Reino Unido, os EUA e, mais recentemente, o Brasil.

Em menos de três meses o COVID-19 matou mais de 290.000 pessoas mundo afora, 80.000 só na América, 25.000 em Nova York e, segundo o governo americano, a expectativa é que após o dia 1 de Junho a pandemia custe em média 3.000 vidas diariamente. Isso representa o equivalente a um 11 de Setembro a cada 24 horas. Rezo para que estejam errados.

Apesar dos números apocalípticos, eu – Deus sabe como – continuo otimista. Desde pequeno sempre acreditei na nossa capacidade visceral de adaptação. Percorrer dezenas de países me mostrou que o ser humano consegue se reinventar mesmo quando as circunstâncias parecem não garantir mais qualquer esperança.

Apesar dos números apocalípticos, Pedro Andrade continua otimista (Foto: arquivo pessoal)

Conheço muita gente que evita assistir a noticiários, não aguenta ler o jornal e corre da atual realidade como o diabo foge da cruz. Eu sou diferente. A cada solução que aparece, tenho mais certeza que vamos solucionar um problema de cada vez, até que, a bendita vacina apareça.

Geralmente vacinas levam entre dez e quinze anos para serem descobertas, no entanto, nunca houve tanta troca de informação por parte da comunidade médica global. Nesse exato momento, duzentos dos melhores laboratórios do mundo estão focados exclusivamente em possíveis tratamentos para o COVID-19. Além dessas instituições médicas, setenta outras – dentre elas Pfizer, Johnson & Johnson, BioNTech, CureVac e Moderna Inc. –  se dedicam a tão aguardada imunização. Alguns dos maiores cientistas da atualidade, como por exemplo Dr. Fauci, a voz mais sensata dentro da Casa Branca, dizem que a expectativa é que tenhamos uma boa notícia em mais ou menos dez meses.

É claro que isso tem um impacto gigantesco em todos os segmentos da sociedade.

No universo da arte, temos boas e más notícias. O Metropolitan Museum acaba de demitir oitenta profissionais e anunciar que o prejuízo da entidade até o fim do ano provavelmente será de mais de 150 milhões de dólares, por outro lado, o site do Louvre, que até dois meses atrás tinha apenas três mil acessos a cada 24 horas, passou a contar com mais de meio milhão de visitantes diários. Grandes leilões vêm batendo recorde de vendas semana após semana. Nos últimos dias de Abril a Sotheby’s arrecadou mais de sete milhões de dólares em uma só tacada. Instituições como o Jazz at Lincoln, Met Opera House e Lincoln Center vêm disponibilizando grandes concertos gratuitos com participantes em vários países diferentes. Em um só instante, simultaneamente, uma soprano canta em Tbilisi, um bailarino dança em Moscou e um violinista toca no Brooklyn.

Aviso “Fique seguro” em vitrine de galeria (Foto: arquivo pessoal)

A indústria do varejo também sentiu o impacto no lombo. Lojas em Taiwan, Hong-Kong, Tóquio, Singapura e Hanoi abriram suas portas com novas medidas de segurança: Álcool gel na porta, vendedores de máscara, medição de temperatura na entrada e distanciamento social. Segundo o respeitado instituto de pesquisas GrowByData, as compras on-line viram um crescimento de 56% no último mês, o que imediatamente fez com que grandes marcas saíssem das suas zonas de conforto para atender a demanda dos mais variados tipos de consumidores. Do dia para a noite o investimento nas nossas casas passou a ser ainda mais precioso… Cada detalhe, do chão no qual a gente pisa até as plantas escolhidas para a sala de estar, fazem toda a diferença e estão a nosso alcance com apenas um clique.

Os espaços de trabalho terão um novo look quando retornarmos aos nossos escritórios. Muitos profissionais permanecerão em casa fechando negócio via ZOOM, outros, vão se deparar com escrivaninhas mais espaçadas, salas de reunião maiores, workshops ao ar livre, aplicativos que nos avisam quando alguém se aproxima da gente, revezamento na hora de entrar no elevador, na cozinha ou no banheiro e o reconhecimento da íris substituirá a antiga impressão digital na catraca localizada no lobby.

A indústria do cinema também está se moldando. A Universal Studios lançou o filme Trolls World Tour em plataformas de streaming pela primeira vez, revolucionando assim Hollywood e enfurecendo muita gente. Até a chegada da pandemia, o lucro de um grande blockbuster era dividido meio a meio entre os estúdios e os proprietários das salas de cinema, agora, a plataforma digital fica com 20% enquanto a Warner Bros, a 20th Century Fox, a Disney e outros titãs ficam com 80%. O estúdios já anunciaram que as regras do jogo mudaram de vez; com ou sem coronavírus.

Algumas dessas mudanças serão meramente temporárias, outras não. Em certos casos, a pandemia apenas acelerou uma transformação inevitável. Mutações que levariam dez anos, tiveram que ser aplicadas em três meses.

Pessoas circulam pelas ruas de Nova Yorque protegidos com máscaras (Foto: arquivo pessoal)

 

Talvez, um dos universos mais afetados seja o da gastronomia. Supermercados e aplicativos de delivery estão bombando enquanto restaurantes, bares e lanchonetes fecharam as portas. Quando a gente voltar a jantar fora, pelo menos pelos próximos meses, a experiência será bem diferente. Pedidos provavelmente serão feitos via tablet e mesas serão posicionadas estrategicamente permitindo que a gente interaja de forma segura e afastada. Nosso paladar também vai se adaptar aos novos hábitos. Pratos deliciosos porém mais simples vão ser popularizados pois todos conseguiremos prepará-los em nossas próprias cozinhas. Poucos vão se aventurar na arte que é fazer um “barco de sushi”. Como estamos pedindo mais comida em casa que nunca, restaurantes chineses, pizzarias e cadeias de fast-food estão em alta, já o antigo – e caro – fine dining com direito a menu degustación, está em baixa. Templos gastronômicos como Jean-George, Daniel, 11 Madison Park e Alinea abriram mão dos soufflés de Grand Marnier e dos Coqs-au-Vin e passaram a entregar fillet com fritas a domicílio. Estão certos. Não há qualquer vergonha em se encaixar ao momento no qual estamos vivendo.

A indústria do turismo deve ter uma perda de dois trilhões de dólares este ano. Destinos como Nova York, Veneza, Paris e Londres – onde o distanciamento social é improvável – darão lugar a cidades mais rurais, viagens menos corridas e itinerários focados na natureza. Companhias aéreas já começaram a mudar uniformes, higienização, a forma como a comida é preparada e assim por diante.

De todas essas estatísticas, talvez a mais positiva esteja atrelada à benevolência humana. Nos últimos meses, mais de seis bilhões foram doados nos EUA a causas relacionadas à pandemia. Ricos e famosos abriram suas carteiras de maneira surpreendente; alguns por pura generosidade, outros por motivos fiscais. Jack Dorsey (criador do Twitter) doou um bilhão, ou seja, um terço de sua fortuna; Bill Gates, cem milhões; Oprah, vinte e cinco milhões; Ralph Lauren, dez milhões; e isso é só o começo. Sem tirar o crédito das estrelas, o mais admirável na minha opinião, é ver que setenta porcento dessa quantia foi doada por “gente como a gente”. A classe média se desdobrou para que ninguém se sinta sozinho, desamparado ou desiludido. Na hora do sufoco, uma mão quase sempre lava a outra.

Práticas como a meditação, a jardinagem, a mixologia caseira e a pintura tiveram uma renascença inesperada e saúde mental deixou de ser apenas “papo de terapeuta”. Uma nova pesquisa publicada no WallStreet Journal mostra que a melhor maneira de manter a sanidade em grandes crises é cultivando a gratidão, ainda que em tempos cruéis e devastadores como este. Há anos antes de dormir faço uma lista, escrita à mão, dos meus compromissos marcados para o dia seguinte. Desde que o coronavírus surgiu em nossas vidas, passei a enumerar também aquilo pelo qual sou agradecido. Pode parecer piegas, infantil e primário, mas, me ajudou a lidar com a ansiedade, apreensão e angústia que vinham assombrando minhas semanas. Por incrível que pareça, este dever de casa é capaz de fazer com que nossa atitude mude, dando assim, uma visão panorâmica do lado bom até das facetas mais difíceis da vida.

Pedro Andrade com máscara de proteção ao Covid-19 (Foto: arquivo pessoal)

O ser humano sempre foi viciado na arte de reclamar. Do dia para a noite o isolamento social fez com que eu me desse conta da falta que sinto das calçadas abarrotadas, do metrô na hora do rush, dos bares lotados, dos apertos de mão, dos beijos no rosto, dos jantares despreocupados, das risadas na mesa ao lado, da muvuca na pista de dança, dos pratos compartilhados, das obras na minha rua, dos aviões espremidos, do trânsito das seis da tarde, da saga em busca de um taxi, das livrarias empoeiradas, da espera em aeroportos, das filas de banco, das multidões nos museus, dos vendedores ambulantes, do barulho da cidade grande, da grosseria de certos garçons e de tantos outros elementos inconvenientes da vida que deixou de existir com a chegada do coronavírus.

Torço para que a gente consiga trocar nossas queixas atuais pela certeza de que quando isso tudo passar, talvez a gente também sinta saudades de alguns aspectos da rotina com a qual estamos lidando agora. Que em vez de contar os dias para o fim da quarentena, a gente aprenda a valorizar os jantares em família, as manhãs bem dormidas, os momentos de contemplação, os finais de semana na frente da TV, os livros lidos, a rotina previsível, os ambientes redecorados, as playlists criadas, o idioma aprendido, os telefonemas intermináveis, os vinhos degustados, o silêncio na rua, os happy-hours virtuais, as amizades resgatadas e tantas outras bençãos facilmente ignoráveis no nosso presente.

Olhando para trás fica fácil enxergar esse nosso eterno vai e vem. Assim como o tsunami de 2004 e a pandemia de 2020, a vida é uma onda.

 

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