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(Arquivo: Pedro Andrade)

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Vida de Cão

22/09/2021

Sim, a gente domestica o cão, no entanto, há hábitos caninos capazes de manipular até os donos mais insensíveis.

A vida é cheia de altos e baixos. Essa inconstância não é privilégio de poucos, mas me incluo no grupo de pessoas que prefere focar nas fontes de alegria ao invés de abraçar de vez a depressão. É um mecanismo de defesa que nem sempre funciona.

De tempos em tempos, a gente leva uma rasteira emocional e quando olha em volta, a tristeza já se instalou.

Por 13 anos dividi minha vida com um bulldog francês chamado Miles aqui em Nova York. Em 2017, após uma jornada exemplar, ele descansou. Naquele momento, doei quase tudo que era dele e – para fugir da dor da perda – engavetei dois ou três objetos dos quais não consegui me desfazer. Essa semana, limpando meu apartamento, esbarrei na coleira dele. Esse “tropeço” desencadeou um tsunami de emoções que acabaram fazendo com que eu questionasse um monte de coisas que nunca passaram pela minha cabeça. Como bom jornalista, fui atrás das respostas. 

Miles e Pedro Andrade (Arquivo pessoal)

Para a minha surpresa, cães e seres humanos já interagem há mais de 14 mil anos. Desenhos em cavernas, esqueletos dentro de tumbas egípcias e monumentos em Machu Picchu provam que nosso encanto por esses mamíferos já existe há séculos. Com isso em mente, é inevitável questionar por que essa espécie eventualmente se tornou o melhor amigo do homem. O cachorro não é nosso parente mais próximo no Reino Animal; o macaco é. Cães não são tão inteligentes quanto cabras ou ratos. Cavalos e coelhos são menos agressivos que nossos companheiros diários. Então por que cargas d’água decidimos nos apaixonar pelos Totós?

Reza a lenda que milhares de anos atrás, lobos se deram conta de que o homem da pedra jogava parte de sua caça fora, fornecendo assim uma refeição fácil e deliciosa. Por conveniência mútua, os lobos passaram a nos proteger e vice-versa. De acordo com a teoria – mais que comprovada – de Charles Darwin, a espécie se adaptou, evoluiu e se transformou nesse animal adorável e afetuoso que hoje em dia rege nossas vidas. Pesquisas mostram que o controle é bilateral. Sim, a gente domestica o cão, no entanto, há hábitos caninos capazes de manipular até os donos mais insensíveis. A maneira como um cachorro manipula seu dono com apenas um olhar carinhoso (conhecido aqui como “puppy eyes”), é um fenômeno que só existe nessa relação específica – em outras palavras, esse tipo de sinergia não existe no encontro com, por exemplo, uma vaca ou um gorila. Eles sabem o poder que têm. 

Miles e Pedro Andrade (Arquivo pessoal)

Filhotes capazes de dominar esta estratégia são adotados vinte vezes mais rapidamente que seus primos menos habilidosos. 

Na verdade, a pandemia foi responsável por um evento inusitado. Nunca na história dos Estados Unidos foi tão difícil adotar qualquer raça. Do dia para a noite, huskies siberianos, beagles, rottweilers, labradores, poodles e – é claro – vira-latas tornaram-se um acessório necessário. Abrigos, que durante tanto tempo viviam abarrotados, de repente estavam vazios. Isso aconteceu por alguns motivos: primeiro, nunca sentimos tanta falta de carinho, troca e conexão afetiva. Segundo, hoje a castração é quase obrigatória por essas bandas. Por último, inesperadamente, ter um cachorrinho adotado virou um sinal de status. De Jake Gyllenhaal a Dua Lipa, de Chelsea Handler a Jennifer Aniston: todo mundo faz questão de exibir seus “melhores amigos” nas mais diversas oportunidades. 

Miles (Arquivo pessoal)

Pesquisas mostram que redes sociais e sites de relacionamento passaram por uma transformação onde perfis de pais e mães adotivos fazem mais sucesso que aqueles que preferem um lar sem pelo no tapete. 

Hoje aqui em Nova York, na grande maioria dos abrigos, você precisa provar que tem um salário bom, condições de alimentar seu bichinho com ração de primeira, dinheiro para pagar um treinador caso ele precise, espaço para oferecer noites de sono tranquilas e sessões de análise dia sim, dia não… OK… Esse último item eu inventei, mas, sem dúvidas as demandas mudaram completamente de uns tempos para cá.  

A indústria de produtos dedicados a animais de estimação ultrapassou o marco de 100 bilhões de dólares em 2020. A expectativa é que chegue a 350 bilhões até 2027.

Durante a pandemia, 67% dos donos de animais domésticos alegam que gastaram mais dinheiro com a alimentação da bicharada do que com a própria barriga. Rações veganas, massagens tailandesas, roupas de grife e móveis com design dinamarquês… Não há limites.

O impacto que esses animais têm nas nossas vidas vai muito além do aspecto econômico. Na verdade, estamos falando de implicações hormonais. Cientistas russos provaram recentemente que a interação entre o ser humano e o cachorro estimula a produção de oxitocina no nosso organismo. Esse neurotransmissor natural produzido pelo hipotálamo no cérebro é conhecido como hormônio do amor e é responsável por alguns dos momentos mais felizes das nossas vidas. 

Por enquanto, não cogito ter outro cachorro. Minha rotina não permitiria que eu desse a atenção merecida ao bichinho, mas sou daqueles que deita na calçada e se atraca com o primeiro bulldog que passar na frente. Além disso, por incrível que pareça, confesso que ainda não superei a perda do Miles… Como tudo que vale a pena na vida, ele também deixou saudades.

Veja, abaixo, um painel de imagens enviadas por meus seguidores, que também prestaram uma homenagem aos seus amados cães.

42 Comentários

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  • AUDREY says:

    Obrigada pelo texto e por compartilhar sentimentos tão enraizados que nos fazem buscar por respostas tão sucintas no que diz respeito aos nossos peludos. Também tenho uma buldogue chamada Frida que estão com 12 anos, acompanhei o Miles por um tempo e não sabia de sua partida, fiquei triste mas sei também que enquanto estão aqui, conosco, tudo é muito visceral, principalmente o amor.

    • Jéssica Silva says:

      Adorei o texto! Parabéns! Esse amor aos Totós é incomparável. Eu tenho uma Sharpei de 9 anos que é minha companhia diária. Abraços

    • Luiz Augusto says:

      Beleza de trabalho! Fa total!!

    • Daniela reis says:

      Exatamente isso. Sou tutora de duas matrizes Bulldogues francesas de um canil
      Muito especial; após a 3ª cria, a dona castra a matriz e doa pra tutores beeeemmm selecionados. Ganhei uma velhinha de 9 anos e depois qdo a dona do canil se deu conta da idade dela ( ela não tinha intenção de doar essa) me deu a filha com 5. Seguimos uma vida feliz as 3. Amor incondicional bilateral. As vezes olho pra mais velha já com 11 e me pego pensando sem ela. Dói. Paro . Finjo que não vai acontecer e toco a vida cheia de amor e pelos. Obrigada por partilhar sua história.

  • Pedro Silva says:

    Esse artigo representa todos os tutores e seus dogs. Imensamente agradecido por descrever a digna importância à raça humana desde tempos ancestrais. E como costumo dizer, feliz aquele que ao longo de sua jornada, opte por compartilhar parte dela com Eles. ❤️💎

  • Aninha says:

    Excelente texto!!! Mas repense em adotar um viralata Pedro!!Ou ajudar financeiramente as ONGs que trabalham com animais resgatados!! Pense em ajudar, já que não está pronto( ainda) pra ADOTAR!!! ADOTE, NÃO COMPRE.O comércio de animais é cruel!!

    • Fernando says:

      Excelente texto Pedro! Compartilho completamente. Não gosto nem pensar no dia em que tiver que me separar do Djoko e do Otto. Em relação a comprar ou adotar, vi uma pessoa comentando sobre a crueldade do comércio de cães, penso que cabe a nós conhecermos os canis, os seus donos e como são as práticas adotadas. Enfim, certamente uma troca de afeto dos mais puros …

  • Felipe says:

    Você sempre muito fofo.❤️

  • Isabel Reck says:

    Que texto incrível, cheio de delicadeza!

    • Ana Lucia Demichei says:

      Que texto incrível, juntando informação com emoção! Também tenho um buldoguinho e muito me identifiquei em sentar na calçada e se abraçar com qualquer buldogue q passar 🙂 uma vez li um estudo q dizia que recomendavam aos funcionários que trabalhavam na bolsa de NY ter um cachorrinho, porque faria com que eles esquecessem qualquer stress do dia a dia, não posso concordar mais com isso 🙂

  • Jamille Soubihe says:

    Excelente texto. Dylan, Brandon e eu adoramos as fotos. Que venham mais textos sensíveis e ao mesmo tempo, inteligentes, como este. Parabéns Pedro!

  • Lucia Rocha says:

    Adorei, eu sou aquela pessoa que não querida cachorro em casa, até minha filha começar a ter crises de ansiedades e síndrome do pânico, ela sempre me pediu um, só que o pai não gosta, até que compramos uma shitzu marrom (Margot) que mudou tudo em casa, estamos apaixonados, ele meu marido e o primeiro a fazer tudo por Margot, deixa lamber a cara toda, coloca na cama, enfim é um amor que cresce a cada carinho e a cada lambida ❤

  • Paula says:

    Muito obrigada por esse texto.
    Perdi minha filha de 4 patas tem 3 anos. Ela ainda me faz muita falta.
    Esse texto me fez lembrar muito dela!

  • Rosana Guerra Gonzalez says:

    Parabéns Pedro,
    Sensível e verdadeiro, me emocionou a leitura, me trouxe as lembranças do meu Jesse, que tb perdi um dia…
    Beijo.

  • Lizete Martins says:

    Pedro amo cães! Meu melhor amigo foi um pastor alemão que descansou há muito tempo, mas a saudade é imensa. Eles são nossos confidentes, os únicos que sabem interpretar nossas emoções com acerto e carinho sem pedir nada em troca. Quando ouço falar em mundo cão só consigo imaginar o mundo dos humanos; porque o deles é um mundo de lealdade, apreço e solidariedade. Um exemplo para nós vira-latas .

  • Fabiana S Cassimiro says:

    Nossa, Pedro, me emocionei na parte que você encontrou a colera. Sinto falta de ver você é o Miles juntos. Devolvemos a espiritualidade uma cachorrinha que veio para minha família muito debilitada, ela era especial fisicamente falando, também vítima de maus tratos. Ficou pouco tempo conosco e fizemos tudo o que podiamos para dar uma qualidade de vida digna a ela. Foi o que disse a minha mãe: vamos dar a melhor qualidade de vida a ela, pois salva-la está nas mãos do Criador. E fizemos até que o nosso Criador a pegou de volta, que dia triste, ficou pouco tempo conosco a Nina, mas marcou os nossos corações. Nina partiu em fevereiro de 2021, ela foi cremada e trouxemos as cinzas para casa com a promessa de depositar no jardim, algo que não ocorreu. A Nina está em casa, está difícil de colocá-la no jardim. Está difícil! Lindo texto, lindo texto! Obrigada!

  • Andrea says:

    Adorei o texto! Só quem tem um cão é capaz de entender a revolução que essa criaturinha causa em nossa vida e a falta que ela faz quando nos deixa!!! É um amor puro e incondicional sempre!!! Gratidão por compartilhar a foto com minha peludinha e com meus outros amados peludos!!

  • Pedro Aguiar says:

    Muito representativo e emocionante esse texto. Compartilhar parte da vida com um cão é uma dádiva tremenda. Um amor genuíno. Obrigado Pedro!

  • Alexandre Simas says:

    Esclarecedor e sensível seu texto !! Eu tb não tenho cão pois minha rotina não permite tem a dedicação que ela merecem !!!!

  • Tayama Rodrigues Uchôa says:

    O cahorro de estimação que tive foi o “xuxu” que era filho do Max cachorro de estimação do meu tio num tempo em que nossas familias moramos juntas. Mas o xuxu filhotinho que eu irmão e meus primos tínhamos sumiu uma manhã e foi uma tristeza . Sempre convivi com cachorros de estimação de tios e é muito bom mesmo!

  • Giselci Sanches says:

    Eu te acompanho no GNT, descobri há pouco tempo sua paixão pelos nossos amigos totos…fiquei mais fã ainda. Tenho uma Shitzu de sete anos , Minka e choro quando penso que a vida deles é tão curta. Adorei seu texto. Agradeço por compartilhar, eu não exitaria em ficar em casa com ela doque sair.para uma balada divertida. Ela é muito companheira. Valeu.😚

  • Elenice Furtado says:

    Adorei seu texto. Posso dizer que me identifiquei muito, embora meu amor tenha começado bem antes da pandemia, tenho certeza que durante, esse amor só aumentou. Cães não são para a vida inteira, mas fazem as nossas vidas ficarem inteiras. 😍

  • Vânia Coeli de Siqueira Alves Estevão says:

    Nossa!!!! Que texto bacana e cheio de saudades! Tenho dois pets e foram meus companheiros de isolamento social, e ainda são. Obrigada querido. Sou uma fã sua muito apaixonada. Tenho 57 e adoro acompanhar seu trabalho. Um dia eu encontro você e Rogéria por aí. Vânia Coeli de Recife Pernambuco.

  • Rosangela Yamamoto says:

    Linda história. E qdo puder tenha um filho peludo de novo.🐶💙

  • Maria Teresa says:

    Adorei o texto.Pedro.
    Eu tive uma cachorra pastor alemão, seu nome era Brenda, viveu comigo e com meus filhos por 14 anos. Ela era doce e amorosa. Quando ela se foi, parece que arrancaram um pedaço do meu coração !!!! Sofri muito!!!; Mas, depois de alguns anos, ganhei outro pastor alemão capa preta. Ele chegou tão pequeno, frágil e agora, com 7 anos ele é um lindo e forte protetor e amigo amo demais e sou muito apegada com ele. . Procuro não pensar no futuro com ele e curtir todos os momentos que ele me proporciona com sua energia e vitalidade e a única coisa que ele quer é um pouco do.meu tempo e atenção para com ele. Vou cuidar e curtir muito todos este lindos momentos junto com o meu Apollo.O

  • Monica says:

    a expressão “tive um dia de cão “ já era. Sem duvidamente o melhor amor do mundo! Uma lambida pra vc Pedro❤️

  • Ana jutka says:

    Tenho 2 cães e um gato todos resgatados , lindo texto … amamos os pets como parte da família ❤️

  • Elinete Rodrigues says:

    Que texto perfeito Pedro! Admirando cada vez mais!

  • Claudia Beleli says:

    Ai Pedro, que triste que vc petdeu seu bichinho… Que Deus te conforte muiito. Eu choro só de pensar em perder meu Bilu.
    Um abraco!

  • Adriana Perez says:

    Sim, sou uma humana domesticada pelos meus cães 🤣. and no regrets !

  • Rosemeiry says:

    Maravilhoso seu texto ♥️
    O amor por animais é o primeiro requisito pra chegar no céu
    Quanto a analista canino , não sei … Mas sim já existe psiquiatria veterinária 😘🐾

  • Claudia A Souza says:

    Pedro o meu buldogue francês (Boris) tem o olhar mais doce que já vi em um cãozinho!! Sei bem o que está falando … é muito amor!!! O tempo que Miles passou com você preencheu sua vida , sei que não existirá substituto para ele , mas quando estiver mais tranquilo tenha outro cãozinho.. voce terá novas e inesquecíveis lembranças!♥️

  • Fernando says:

    Excelente texto Pedro! Compartilho completamente. Não gosto nem pensar no dia em que tiver que me separar do Djoko e do Otto. Em relação a comprar ou adotar, vi uma pessoa comentando sobre a crueldade do comércio de cães, penso que cabe a nós conhecermos os canis, os seus donos e como são as práticas adotadas. Enfim, certamente uma troca de afeto dos mais puros …

  • Jane Costa says:

    Ah Pedro sei bem o que é ser apaixonada por um Buldogue. Tenho um que está com quase 12 anos, meu amor,meu filho,meu eterno bebê. Ele é nosso maior tesouro. Toda nossa família é apaixonada por ele. Fazemos tudo o que pudemos para que ele viva feliz. Bjs no seu coração

  • Raquel says:

    Tenho dois cachorros, um casal, hoje com 9 anos. São meus filhos, meus amores. A fêmea está doente e não tem como tratar, ofereço a melhor qualidade de vida que posso e o cuidado que ela precisa, e principalmente amor. É indescritível o bem que eles me fazem.

  • Rosana says:

    Lindo texto! Perdi recentemente minha Yorkshire de 5 anos…e a minha impressão é que nunca irei superar essa perda, mesmo compreendendo que tudo tem um tempo início e fim! Cães são anjos nas nossas vidas!

  • Maristela says:

    Amei a matéria Pedro!

  • Silvana says:

    Adorei o artigo! Tenho 2 goldens que são a minha vida e a convivência com eles é maravilhosa. Sempre tive cães desde a infância, e fico triste por pessoas que não querem viver essa experiência tão maravilhosa de ter a companhia de um cão. Sei que a sua vida é corrida, mas cães de pequeno porte são mais fáceis de serem aceitos em aviões e hotéis. Embora, você não tenha superado a perda do Miles, se permita viver esse amor de novo! É bom demais para não ser repetido e só se vive uma vez!!! 😉

  • Edilene Silva says:

    Não imaginava que eu poderia amar tanto assim um dog, o meu pug Jake virou um filho pra mim, não consigo imaginar minha vida sem ele.
    Pedro, sinto muito pelo seu Miles, mesmo!
    Adorei o texto.
    Um grande e afetuoso abraço.

  • Lucia Flaquer says:

    Entendo perfeitamente o que você escreve. Minha husky morreu em 2012 e ainda não consegui substituí-la. Ela era única. Mas continuo com meus gatos resgatados nas ruas, principalmente as duas pretinhas, alvos de maldades maiores.