Menu
Projetos e Obras
Busca

Conteúdo Correspondentes Internacionais

Marcos Bertoldi ressalta a importância da valorização da arquitetura local e revela o futuro da profissão

27/07/2020

Considerado um dos cem arquitetos mais influentes e promissores do mundo, Marcos Bertoldi conta um pouco sobre possíveis mudanças de cenário e valorização da arquitetura local.

Um nos maiores nomes da arquitetura contemporânea no Paraná e em todo o Brasil, Marcos Bertoldi conta um pouco sobre sua importante campanha pela valorização da arquitetura local, além das possíveis mudanças do setor nos tempos atuais.

Formado em Arquitetura e Urbanismo pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em 1982, e especializado em arquitetura paisagística, Marcos Bertoldi foi considerado como um dos cem arquitetos mais influentes e promissores do mundo pela revista norte-americana Architectural Digest, em 2014. O arquiteto já lecionou em duas universidades do Paraná, nos cursos de graduação de Arquitetura e Urbanismo e pós-graduação em Design de Interiores e atualmente possui escritórios em Curitiba e São Paulo.

Marcos vem liderando uma importante campanha pelo reconhecimento da arquitetura paranaense, resgatando a história arquitetônica local com foco no mercado de incorporação de edifícios, para estimular a valorização dos profissionais da região.

Casa OB por Marcos Bertoldi, 1999 (Foto: Ricardo Almeida)

Casa OB por Marcos Bertoldi, 1999 (Foto: Ricardo Almeida)

BARBARA CASSOU: Qual a principal mensagem na sua campanha pela valorização da arquitetura local?

MARCOS BERTOLDI:  Nossa missão, através desta campanha de Valorização da Arquitetura Paranaense visa a reversão de uma tendência, que consideramos provinciana e colonizada, de maior valorização e um excesso de contratações de escritórios provenientes de outras cidades brasileras. Temos um excelente acervo de obras na Arquitetura Paranaense, muitas vezes premiado e referenciado no Brasil e no mundo, como os prédios da Petrobrás e do BNDES no centro do Rio de Janeiro, pelos arquitetos já batizados como Grupo do Paraná. A Arquitetura não pode ser simplesmente transplantada de uma realidade para outra e como importante marcador cultural deve ser majoritariamente desenvolvida por profissionais que conheçam intimamente seu local de inserção. Para entender isto, vamos imaginar que Brasília tivesse sido realizada por um arquiteto estrangeiro, nos sentiríamos verdadeiramente representados? A nossa cultura não pode e não deve ser terceirizada, sua construção e desenvolvimento é uma atribuição de todos, construtores, incorporadores e sociedade em geral devem levar isto em conta no momento de tomar suas decisões. Cidades são construções coletivas e a responsabilidade é compartilhada. Contratantes, sejam do poder público ou da iniciciativa privada, sensíveis a estes aspectos, se tornarão produtores e coautores da nossa cultura e da nossa história. Temos presente e passado, merecemos um futuro.

BARBARA CASSOU: E qual o papel do arquiteto no contexto deste movimento de reconhecimento da arquitetura local?

MARCOS BERTOLDI:  Nós, arquitetos, temos a obrigacão de reconhecer, valorizar e preservar as ricas tradições modernistas de nosso estado, um patrimônio que não deve ser esquecido ou negligenciado. Devemos também que fazer uma autocrítica e admitir que mesmo entre nós, alguns nunca ouviram falar de obras referenciais, de um passado ainda recente. O esforço de conservação destas obras, ainda não totalmente entendidas como obras fundamentais, é lento e muitas já foram perdidas. Proteger o nosso patrimônio, inclusive o mais recente, nos levará a ter uma História. Por outro lado, arquitetos dependem de clientes e quando estes se direcionam, por razões mercadológicas ou falta de informação para outros mercados, todos saímos perdendo. Os arquitetos e seus contratantes são os promotores fundamentais destes registros e para isto devem, obrigatoriamente, responder a uma determinada época. Construir de maneira comprometida com o seu tempo, respeitando o ambiente natural e edificado e entendendo a importância coletiva de suas decisões, nos deixarão um importante legado. Insistiremos para que estas contratações não nos releguem a um segundo plano e que possamos manter o protagonismo e o desenvolvimento da nossa arquitetura.

Casa RB por Marcos Bertoldi, 2004. Também foi usada de cenário da série O Mecanismo, da Netflix (Foto: Alan Weintraub)

Casa RB por Marcos Bertoldi, 2004. Também foi usada de cenário da série O Mecanismo, da Netflix (Foto: Alan Weintraub)

BARBARA CASSOU: Qual aspecto da arquitetura você acredita ser mais importante? E como ela impacta na vida das pessoas?

MARCOS BERTOLDI: A arquitetura é o mais importante dos registros históricos deixados pelas civilizações. É o que mais me fascina nesta profissão. A História da humanidade pode ser contatada e comentada pela sua arquitetura. Através dela temos acesso aos hábitos, costumes, rituais, cidades e construções, estamos projetando a nossa história para as futuras gerações. Falar de arquitetura é falar do homem em todas as suas implicações. A incansável busca e redescoberta da beleza, ideia sempre mutante e em contínuo movimento, sublima a vida.

BARBARA CASSOU: Para você, como grande nome e referência da arquitetura contemporânea no Brasil, o que mudou do início da sua carreira, há 35 anos, para hoje?

MARCOS BERTOLDI: Inauguramos a Marcos Bertoldi Arquitetos, nome atual, há 35 anos, hoje estamos na terceira geração de jovens arquitetos no escritório. Nunca trabalhamos com tantos arquitetos como agora e sentimos que ainda teríamos um grande espaço de crescimento, caso seja esta nossa intenção. Durante esse tempo todo fomos um escritório de projetos muito customizados para uma seleta categoria de clientes. Expandimos a nossa área de atuação gradualmente, hoje temos escritório em Curitiba e São Paulo e atuamos fortemente em Santa Catarina. Nos últimos anos o mercado imobiliário sofisticou-se e temos sido continuamente solicitados a projetar edifícios para uma nova geração de empreendedores, tendo a arquitetura como protagonista e preocupados em oferecer edifícios mais comprometidos com a cidade e adequados aos nossos tempos. Também no ambiente dos projetos residenciais encontramos atualmente um cenário muito mais receptivo à arquitetura contemporânea. Nunca nos sujeitamos a fazer projetos ditos neoclássicos ou concessivos, ao contrário, reintroduzimos (após um gap de 20 anos) o concreto armado aparente às residências de alto padrão no cenário local. Somos hoje reconhecidos como um escritório que manteve suas crenças iniciais, comprometido com sua clientela e fiel a uma linha de trabalho.

BARBARA CASSOU: Na sua opinião, qual o futuro da arquitetura e dos profissionais da área diante do cenário pós-pandemia? O que você acredita que mudará em termos de projetos arquitetônicos? Se pensará mais nesta nova realidade ou será passageiro?

MARCOS BERTOLDI:  Temos pensado com muito preocupação nos impactos da pandemia nos projetos arquitetônicos, medidas restritivas e controladoras certamente não contribuiriam para um espaço que vem historicamente derrubando barreiras e se democratizando, depois de um século de conquistas, abolição de fronterias físicas, políticas e sociais, regredir para qualquer estágio segregacionista seria um tanto obscuro. Por outro lado, me animo acreditando que uma vacina possa minimizar ou eliminar estas preocupações e que não precisaremos mudar o nosso modo de vida, nem aquelas conquistas tão caras a nossa civilização. Podemos vislumbrar ainda, como pano de fundo, um efeito benéfico em tudo isso, que nos abriu os olhos para uma série de distorções e maus-tratos ambientais que confortavelmente não gostávamos de enxergar e da importância das nossas habitações nas nossas vidas. Com ou sem vacina, acredito que as futuras casas serão ser mais ventiladas, ensolaradas e mais verdes. Algo que como arquitetos sempre buscamos e que, num âmbito maior, aprofundaremos o nosso entendimento e cuidados com o nosso planeta, a nossa casa no universo.

Casa LM por Marcos Bertoldi, 2008 (Foto: Alessandra Okazaki)

Casa LM por Marcos Bertoldi, 2008 (Foto: Alessandra Okazaki)

 

Nenhum comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *