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Vaivém: exposição sobre a rede, um ícone do mobiliário brasileiro

05/07/2019

O CCBB propõe um olhar aprofundado sobre essa peça artesanal, que revela tanto da nossa cultura.

Uma exposição dedicada à rede. Rede de computadores? Rede de dados? Rede social? Rede de pesca? Nada disso! Estamos falando da boa e velha rede, aquela de sentar, deitar, balançar e dormir, um dos símbolos da cultura brasileira. Ainda que uma busca no Google pela ambígua palavra rede não apresente resultados sobre o item de mobiliário, é conhecimento comum a importância dele em nossas casas. Assim, o CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil, decidiu dedicar toda uma exposição às nossas queridas redes.

“Conhecemos bem a sensação de deitar em uma rede de dormir: enquanto nos ajeitamos em sua estrutura mole, ela nos acolhe. E, à medida que o corpo se instala, a rede se movimenta, embalando-nos com seu vaivém característico”, diz Raphael Fonseca, curador. Vaivém é, inclusive, o nome da exposição.

Redes tecidas por diversos artesãos e artistas foram penduradas no vão central do prédio histórico do CCBB São Paulo. Elas exibem diferentes formatos, materiais, cores e estampas, num retrato da riqueza artesanal do Brasil. A Rede de Bilro, adornada por rendas, é feita pela Associação das Rendeiras de Bilro da Santana do Cariri, Ceará. Outro exemplo é a Rede Bordada de Algodão, da Associação de Produtores e Artesãs de Roça Grande, de Berilo, Minas Gerais. Há ainda interpretações artísticas, como a Rede Pai, da artista contemporânea Maria Nepomuceno.

Ana Miguel, Sonho escrito na tinta de Brasil, 2012. Foto: Wilton Montenegro

Ainda que não seja um item de design valorizado, como cadeiras, poltronas e luminárias, a rede é um mobiliário de valor afetivo na casa brasileira. Todo profissional de arquitetura já deve ter recebido do cliente o pedido por uma rede no quintal, na varanda, ou mesmo na sala. Alguns grandes designs brasileiros modernos se apropriam das noções de equilíbrio, peso e tensão do objeto, como a cadeira Tripé de Lina Bo Bardi, a poltrona Moleca de Sergio Rodrigues e a cadeira Paulistano de Paulo Mendes da Rocha. O por que desse item ser tão querido é o que a exposição se propõe desvendar.

Carlos Julião, transporte em rede realizado por dois nativos aculturados. Foto: divulgação

Carlos Julião, transporte em rede realizado por dois nativos aculturados. Foto: divulgação

Vaivém começa falando da importância da rede no Nordeste, investigando como o objeto se tornou ícone da região, desnaturalizando a relação entre objeto, regionalismo e identidade. É nessa parte da exposição que conhecemos a origem da rede, nas Antilhas, disseminada na América do Sul pelos tupi-guarani. Na carta de Pero Vaz de Caminha, de 1500, primeiro documento da história do Brasil, já há menção às redes em que dormiam os tupiniquins de Porto Seguro. Ilustram a familiaridade da rede aos nordestinos a fotografia Jangadas e Jangadeiros, tirada na Bahia na década de 1950 por Marcel Gautherot, e a Rede de Descanso de couro, do designer alagoano Rodrigo Ambrósio.

Frans Post, Paisagem da Varzea com Engenho. Foto: Acervo do Instituto Ricardo Brennand

Frans Post, Paisagem da Varzea com Engenho. Foto: Acervo do Instituto Ricardo Brennand

O segundo ponto de que trata Vaivém é a simbologia da rede como preguiça. No fim do século 19, perante o processo civilizatório e o desejado progresso industrial do jovem Brasil, a rede é ridicularizada. Neste momento, o curador propõe reavaliar a história do país e a história da arte brasileira a partir de uma perspectiva crítica. São exibidos a primeira edição do livro Macunaíma e trechos do filme inspirado nele. O personagem de Mário de Andrade passa grande parte da narrativa deitado em uma rede. A potente obra Sonho escrito na tinta de Brasil, da artista Ana Miguel, traz exemplares dos livros Macunaíma, de Mário de Andrade, e Histoire d’un voyage faict en la terre du Brésil, de Jean de Léry, ligadas por uma rede com as palavras ‘selvagem’ e ‘herói’ bordadas. A rede pode ser interpretada como símbolo internacional da preguiça do brasileiro, como mostra a coleção de revistas em quadrinhos Zé Carioca, dos Estúdios Walt Disney.

Dhiani Pa’saro, Rede Preguiça. Foto: Luiz Ribeiro

Dhiani Pa’saro, Rede Preguiça. Foto: Luiz Ribeiro

Este preconceito leva à terceira parte da exposição, que mostra como a rede foi retratada pelos europeus no período colonial. Sendo uma tecnologia desconhecida por eles, foi amplamente reproduzida em mapas, pinturas, livros de viajantes e, posteriormente, fotografias e filmes. Na visão eurocêntrica, o desenho de rede era usado para pontuar em mapas regiões habitadas por indígenas. Ainda, aquarelas do século 19 mostram um uso da rede alternativo ao descanso: o transporte de pessoas brancas carregadas por escravos negros.

Duhigo Tukano, Rede do Nascimento Tukano. Foto: Luiz Ribeiro

Duhigo Tukano, Rede do Nascimento Tukano. Foto: Luiz Ribeiro

Em contraponto às violências do passado, Vaivém convidou artistas contemporâneos indígenas a representar a rede, propondo novas narrativas à revisão da história brasileira. Wunu Phuno, ou Rede Preguiça, é um lindo trabalho de marchetaria de Dhiani Pa’saro, da etnia Wanano, do Amazonas. Já o Movimento dos Artistas Huni Kuin, do Acre, fez uma pintura site specific sobre a parede do prédio do CCBB. Ainda a tela Rede do Nascimento Tukano, de Duhigo Tukano, mostra o papel da rede na maternidade na etnia Tukano, no Amazonas. São lindas manifestações artísticas, que revelam como esses povos olham para si e para as redes.

Opavivará, Rede Social. Foto: Opavivará

Opavivará, Rede Social. Foto: Opavivará

Após tanto conhecimento histórico e análises críticas sobre as redes, nada melhor do que relaxar em uma. A exposição termina com Rede Social, instalação do coletivo carioca Opavivará, com oito redes unidas, nas quais os visitantes podem deitar e interagir.

 

Serviço

CCBB São Paulo

Rua Álvares Penteado, 112, Centro

Até 29 de julho de 2019

Quarta a segunda, das 9h às 21h

 

CCBB Brasília – setembro de 2019

CCBB Rio de Janeiro – dezembro de 2019

CCBB Belo Horizonte – março de 2020

http://culturabancodobrasil.com.br/receptivo/

Foto de capa: 0 Pierre Verger, Peregrino, Mulundus, Brasil, 1948. Foto: Acervo Fundação Pierre Verger

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