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2020 BlackLivesMatter

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UM ANO NECESSÁRIO

29/06/2020

A pandemia acelerou mudanças inevitáveis, mas talvez a maior de todas elas tenha sido a troca de um mundo desigual por uma realidade mais justa, harmoniosa e democrática.

Há quem diga que o COVID-19 seja um democratizador social por não escolher partido político, religião, idade ou classe social. Esta ideia é equivocada. Apesar da pandemia ser nociva a todos, o coronavírus nos Estados Unidos mata três vezes mais negros que brancos. Frequentemente a comunidade afro-americana tem menos acesso a bons hospitais, muitos não possuem seguro saúde e boa parte desse grupo não pode se dar ao luxo de ficar em casa durante a quarentena. Para que a gente possa praticar o isolamento com conforto e segurança, motoristas de ônibus, delivery boys, caixas de banco, staff de supermercado, funcionários de hospital e donos de farmácias têm que trabalhar.

2020 BlackLivesMatter

(Crédito: Robin Siteneski)

As perdas começam na saúde – mais de 125.000 mortos no país – mas se alastram por todos o segmentos da sociedade. Até hoje, pelo menos 40 milhões de americanos dependem do seguro-desemprego. Um deles era um segurança de boate em Minneapolis conhecido como “Big Floyd”.

Nascido na Carolina do Norte e radicado no Texas, o rapaz de dois metros e dez tentou a vida como jogador de futebol americano, jogador de basquete e cantor de rap. Nada vingou. Mais tarde se envolveu com drogas e acabou preso por cinco anos graças a um assalto a mão armada no apartamento de uma moça grávida. Ao sair da cadeia, “Big Floyd” se mudou para o estado de Minnesota em busca de um recomeço. Encontrou um apartamento modesto com uma área descoberta onde fazia churrasco para a vizinhança aos domingos após voltar da igreja. Conseguiu um emprego estável como segurança em uma boate popular de Minneapolis. Era querido por todos e ficou famoso na região pela forma delicada com a qual tratava a clientela. Frequentemente se oferecia para levar alguém que tivesse bebido demais para casa para que a pessoa não se arriscasse no volante.

Nessa boate, conheceu um policial que fazia bico como segurança. Eram personalidades opostas e talvez por isso, nunca tenham cultivado uma amizade fora do trabalho.

Por ironia do destino, dois anos depois, esse policial, chamado Derek Chauvin, assassinou George Floyd  pressionando seu joelho no pescoço da vítima por oito minutos e quarenta e seis segundos.

2020 BlackLivesMatter

(Crédito: Rogeria Vianna @VemPraNY)

É uma história trágica, porém, muito mais comum do que a gente imagina.

O racismo sempre existiu mas agora, está sendo filmado. É inevitável pensar no número de eventos parecidos que não são registrados por nossos smartphones.

2020 BlackLivesMatter

(Crédito: Rogeria Vianna @VemPraNY)

Após centenas de casos de brutalidade policial semelhantes nos Estados Unidos – Travon Martin, Breanna Taylor, Eric Garner, Walter Scott, Ahmaud Arbery, Philando Castile, Sandra Bland, dentre tantos outros – esta imagem, nesse momento já cheio de ansiedade, apreensão, medo e incerteza graças à pandemia, tornou-se o símbolo da luta antirracismo no mundo inteiro.

Recentemente um vídeo da filha de Floyd dizendo que seu pai mudou o mundo viralizou na internet. Ela tinha razão.

O universo da arte, por exemplo, nunca mais será o mesmo. Instituições como o MoMA, o Whitney e o Brooklyn Museum se comprometeram a comprar mais obras de artistas afro-americanos e a educar as massas elaborando mais exposições sobre o impacto da experiência negra na história da humanidade.

O Met Opera lançará seu primeiro espetáculo dedicado ao trabalho de um compositor afro-americano em mais de 136 anos.

Hollywood se desdobra para se tornar uma máquina mais inclusiva.

A TV reconhece que por anos abasteceu estereótipos equivocados onde o mocinho era sempre branco e o bandido, inevitavelmente negro ou latino. Séries como Cops e Live PD – dois marcos da programação gringa desde os anos oitenta – foram canceladas.

Os americanos nunca leram tantos livros sobre racismo, nunca assistiram a tantos documentários sobre o tema e nunca se interessaram tanto em reavaliar questões raciais em ambientes de trabalho. Ter amigos de raças diferentes das nossas não é sinônimo de igualdade e a ilusão de que vivemos em um momento pós-racismo é de uma ignorância singular.

2020 BlackLivesMatter

(Crédito: Rogeria Vianna @VemPraNY)

Estátuas de figuras escravocratas, assassinos e genocidas estão sendo reconsideradas e frequentemente destruídas. Há um longo debate sobre estas medidas enxergadas por muitos como uma espécie de revisionismo histórico, no entanto, o buraco é mais embaixo. Ninguém quer apagar a história, muito pelo contrário, a intenção é que a gente aprenda sobre esses erros para que eles não sejam cometidos novamente. Com isso dito, há uma diferença enorme entre exibir esses monumentos em museus, acompanhados de uma explicação factual sobre quem aquela pessoa foi, e, expor essas obras de forma honrosa em praça pública.

2020 BlackLivesMatter

(Crédito: Rogeria Vianna @VemPraNY)

Cristóvão Colombo, Jefferson Davis e Edward Colston não merecem ser celebrados. Fazem parte do nosso passado, no entanto, foram responsáveis por genocídios, massacres e limpezas étnicas. Se o propósito das estátuas é educar futuras gerações, que elas venham com uma placa contextualizando o legado asqueroso por trás daquela figura.

Um bom exemplo é Berlim, onde por toda parte encontramos museus, instalações e monumentos lembrando as vítimas do holocausto, mas, nem perca seu tempo procurando uma escultura de Hitler. Com certeza a retirada dessas estátuas não vai resolver conflitos raciais, mas, estamos falando de muitas transformações que juntas talvez possam ter um impacto relevante na nossa sociedade.

Infelizmente, isso é só o começo. Precisamos de mais vozes negras em posições de liderança. Mais curadores, diretores, juízes, médicos e presidentes. Para que isso aconteça, a disparidade de oportunidades tem que ser reavaliada. Minorias não podem continuar competindo pelos mesmos cargos enquanto nadam contra a corrente do sistema no qual a gente vive desde o primeiro dia de vida.

2020 BlackLivesMatter

(Crédito: Rogeria Vianna @VemPraNY)

O segmento do esporte nos EUA torna esse argumento ainda mais claro. 75% dos jogadores de futebol americano nos EUA são negros. 93% dos donos dos times de futebol americano são brancos. Enquanto a gente não encontrar uma forma de equilibrar essa equação, a bola de neve continuará a crescer.

Reconhecer que há um problema é um belo começo.

O urbanismo também tem um papel fundamental nessa busca pela igualdade. Cidades que conseguiram diluir a segregação de maneira inteligente são a prova de que acesso a transportes públicos, educação de qualidade, saneamento básico, arquitetura consciente, saúde e – sim – arte, são ferramentas poderosas nessa metamorfose necessária. Em uma década Medellín trocou o título de “cidade mais violenta do mundo” pela reputação de um modelo de zoneamento urbano revolucionário.

Transformações como essas não surgem do dia para a noite. Da mesma forma que a internet é capaz de nos dividir, ela também funciona como uma ferramenta dominante na hora de organizar movimentos como o #BlackLivesMatter. Protestos em mais de 4.000 cidades espalhadas pelo mundo mostraram que este, assim como o coronavírus, é um problema global.

2020 BlackLivesMatter

(Crédito: Rogeria Vianna @VemPraNY)

Há quem se oponha aos protestos. Uma atitude que diz mais sobre a pessoa em questão, que sobre o movimento em si. “Vidas negras importam” não é sinônimo de “Somente vidas negras importam”. O conceito é simples, objetivo, básico e não requer formação acadêmica, mas sim, benevolência, empatia, humanidade e… bom senso! Como ele faz falta.

Historicamente, mudanças revolucionárias nunca foram concretizadas com meros pedidos diplomáticos ou solicitações comportadas. Mulheres queimaram sutiãs décadas atrás, milhares foram às ruas pedir o fim da Guerra do Vietnã e em 1969 a comunidade LGBT de Nova York passou cinco dias em uma verdadeira pancadaria com policiais na frente da boate StoneWall (que por sinal existe até hoje) para conseguir um mínimo de dignidade… Diga-se de passagem, assim nasceu o famoso Gay Pride (Passeata do Orgulho Gay).

2020 BlackLivesMatter

(Crédito: Robin Siteneski)

Com isso dito, faço questão de ressaltar que sou contra vandalismo, violência e o quebra-quebra que testemunhamos nos primeiros dias de protestos. Os responsáveis por essa distração são uma minoria equivocada e nociva ao movimento de maneira geral. Seja lá quais forem as intenções por trás dessa depredação urbana, é fácil ver que esta atitude é um desfavor à causa. O cansaço da comunidade negra é compreensível, justificável, merece a nossa atenção e precisa da nossa ajuda.

Anos atrás Colin Kaepernick, um dos maiores jogadores de futebol americano do país, decidiu se ajoelhar durante o hino nacional como uma forma de protesto contra a brutalidade policial americana; foi demitido, ameaçado de morte e atacado severamente pela extrema direita. Campanhas on-line já foram criadas, hashtags já foram usadas, filmes já foram produzidos, canções já foram compostas, livros já foram escritos e, infelizmente, nada funcionou. A verdade, é que o mundo teve que virar de cabeça para baixo graças a uma pandemia para que víssemos algum tipo de mudança.

2020 BlackLivesMatter

(Crédito: Rogeria Vianna @VemPraNY)

Por essas e por outras, quando ouço que 2020 é um ano nulo, faço questão de discordar. Por mais difícil que esses últimos meses tenham sido, as placas tectônicas da sociedade foram efetivamente abaladas. Repensamos uma série de valores, nos acostumamos com novos hábitos, passamos mais tempo com nossas famílias, reorganizamos nossas casas, recuperamos o prazer da leitura, da jardinagem, da meditação, resgatamos antigas amizades, aprendemos a lidar com uma série de obstáculos e, talvez acima de tudo, fomos forçados a focar na dignidade alheia. De certa forma, estávamos acomodados.

Esse momento, esse diálogo, essas alterações são importantes.

A pandemia acelerou mudanças inevitáveis, mas talvez a maior de todas não seja o e-commerce, reuniões on-line, a higienização incessante de superfícies, o declínio das salas de cinema, nem a reorganização geopolítica atual, mas sim, a troca de um mundo desigual por uma realidade mais justa, harmoniosa e democrática.

Se olharmos para esse momento confuso, sofrido e multifacetado dessa maneira, talvez a gente consiga enxergar que 2020 não é um ano desperdiçado, mas sim, um ano necessário.

Crédito da foto de destaque: André Cunha

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