Menu
Projetos e Obras
Busca

Conteúdo Colunistas

Apertem os cintos: todo mundo sumiu!

22/07/2020

Mélange de mostra de design, jardim botânico, zoológico, gaiola das loucas e casa-redação de dois jornalistas (e zeladores) que não param de trabalhar um minuto sequer, a Decornautas Design House continua limpinha.

Quando a norte-americana Joy Mangano inventou o esfregão auto-limpante, na virada das décadas de 1980 para 1990, talvez ela não tenha imaginado duas coisas: que Hollywood retrataria sua história (no excelente filme Joy, de 2015, dirigido por David O. Russell e estrelado pela diva Jennifer Lawrence), e que seu produto continuaria na crista da onda trinta anos depois. Desde que o mundo passou a viver em liberdade condicional (pouco mais de 100 dias atrás), os códigos sociais viraram de cabeça para baixo e o modo de vida tradicional, guardadas as proporções e individualidades de cada um, foi para as cucuias. Junto, também entraram pelo cano uma série de facilidades praticamente invisíveis, daquelas que só valorizamos quando arrancam da gente – o local de trabalho, o direito de ir e vir ao supermercado, à academia, ao shopping, ao cinema, à farmácia e à praça; o happy hour e a balada, as viagens, o restaurante que amamos, a lavanderia que nos acode, as visitas às pessoas que nos são caras e os zilhões de projetos da vida lá fora. Quando se é empresário, acrescente aí os colaboradores que conhecem nossas necessidades até mais que nós mesmos. Sem aviso prévio, além de lidar com o pânico da pandemia, encarar demandas cotidianas que para muitos eram inimagináveis – tipo pegar um esfregão na mão –, foi um desafio e tanto.

No caso dos Decornautas, especificamente iludidos por uma pseudo-vantagem competitiva, essa parte da odisseia parecia ser mamão com açúcar. Primeiro, porque o trabalho remoto já era uma realidade para nós (em nossa grande e bela Glass House, um lance de escadas separa a vida privada da labuta diária, com a redação ambientada no piso inferior da casa, onde uma equipe de oito colaboradores, entre jornalistas e designers, operavam in loco, no pré-isolamento). Segundo, porque, neuróticos por limpeza que somos, organizados e metidos a cozinheiros de mão cheia, tiraríamos de letra aquilo que para dondocas e dondocos parecia uma tortura medieval. Terceiro porque reconhecemos nossa situação de absoluto privilégio neste País que não tem sequer saneamento básico para todo mundo e onde muitas famílias numerosas precisam se amontoar em metragens indignas, já que a questão habitacional é uma das principais mazelas estruturais da sociedade – e isso fica muito mais acentuado durante a emergência sanitária que exige distanciamento social. 

Antes de continuar navegando, contextualizar é preciso: embora jornalistas reconhecidos no mercado da arquitetura, com produtos bem-sucedidos no portfólio, estamos longe, mas muito longe mesmo (talvez a uns quatro oceanos de distância), da riqueza. A casa-pedigree em questão é a materialização de um business, idealizado para ser uma expo autoral de design, com a experiência real de uso, sem cenografias, autossustentável tanto no sentido ecológico quanto no econômico. São 12 ambientes assinados por alguns dos maiores arquitetos do País (alguns deles, com reverberação internacional), que interpretaram um lifestyle-artsy, conceitual, em parceria com marcas incensadas, referências em seus respectivos setores.

Pelo menos uma vez por semana (geralmente, são mais), recebemos grupos de profissionais/especificadores de todo o País interessados em conferir de perto a plástica/ergonomia desses espaços, observando soluções e inspirações de estrelas da arquitetura, assim como a performance dos produtos por elas selecionados, dos acabamentos aos mobiliários. Algumas dessas visitas também se desdobram em festas e jantares privê, proporcionando uma imersão no tema design – dos talheres ao cardápio, tudo explora a forma, a função e a emoção. Desde a inauguração, em agosto do ano passado, até o comecinho de 2020, mais de 2.500 arquitetos passaram pela mostra. Uma espécie de Casacor mais pocket, exclusiva no sentido de ser fechada, e com a diferença de ter a gente morando dentro dela (acompanhados por toda uma fauna & flora). 

Tal estrutura demanda, além da nossa Maria (secretária do lar que trabalha conosco diariamente há 15 anos), um vigia, um caseiro, uma faxineira e outra dúzia sazonal de mão-de-obra (jardineiro, piscineiro, empresa especializada em manutenção de vidros, outra faxineira de apoio e, considerando os pequenos reparos que se fazem necessários o tempo todo, um “marido de aluguel” tipo o Pereirão da novela das nove que a Globo tá reprisando). Do dia para a noite, contratados ou freelas, proibimos todos eles de pisarem aqui, seguindo as orientações da OMS. A redação se adaptou ao trabalho à distância, em três dias, e a gente, assim como todo mundo, precisou fazer malabarismos para dar conta de manter os salários em dia sem demitir ninguém. Maria, o guardinha, o caseiro e a faxineira, ganharam longasssss férias remuneradas. Sobramos nós dois e uma mansão para chamar de nossa, certo? Errado. 

Uma semana antes do decreto do Lockdown, havia aterrissado por aqui o Zion (filhote de Samoieda que ganhamos de uma amiga querida e que tratamos logo de humanizar mais do que o Snoopy, o Rin Tin Tin, o Pluto, o Pateta, a Lassie e o Bidu juntos – dizem que só falta falar, mas eu acho já ouvi). Esse cara, tratado por nós como um filho, se juntaria a uma família numerosa e plural: dois coelhos, um porco-espinho, uma iguana, dez carpas, doze kinguios, oito cascudos, uma enguia, três tartarugas, um jabuti, um tamagotchi e zilhões de sabiás, pardais, bem-te-vis, periquitos, jandaias, pica-paus da cabeça amarela e outras aves não-catalogadas (uma vizinha garante que viu uma cegonha rosa de topete lilás posando no nosso cajueiro outro dia – detalhe: não temos um cajueiro).

Engaiolados, só a gente mesmo: os bandos vêm e vão quando bem entendem, sem jamais deixar, entretanto, de carimbar a área externa fartamente logo depois de devorar todo alpiste, banana e manga que lhes servimos cordialmente. Cerca de 30 árvores frondosas – metade delas frutíferas – de todos os tamanhos sombreiam a construção modernista datada de 1954, margeada por arbustos furta-cor. Além de oferecer uma boa filtrada no oxigênio e refúgio dos passarinhos com diarreia em suas copas, elas também nos brindam com toneladas de folhas que entopem as calhas do telhado e promovem pequenas inundações internas quando a chuva aperta – no começo da pandemia, quando as águas de março fecharam o verão, praticamente amontoamos a bicharada no living amarelo projetado pelo Guilherme Torres, que virou a versão arc-design da Arca de Noé, ao som de Tom e Elis. 

Em tempos de tantas polarizações (climáticas, inclusive), veio também a estiagem. Agora que a chuva nos falta, as mais de 300 espécies botânicas (incluindo nossa coleção de 700 bromélias orquestradas pelo paisagista Luiz Carlos Orsini), demandam rega cuidadosa – e demorada. Na métrica sustentável do projeto, a água vem da piscina e o lago que, para não ficarem com cara de Pântano do Alabama, exigem muitos mimos. De vez em quando avistamos um crocodilo gigante do Nilo debaixo das vitórias-régias, talvez influenciados pela imaginação fértil da vizinha (lagartixas parecem maiores quando mergulham). 

Banheiro – Suite Master por BC Arquitetos (Bruno Carvalho + Camila Avelar); foto: Marco Antonio

Banheiro da Suíte por Nildo José; foto: Marco Antonio

Banheiro da Suíte por Nildo José ; foto: Marco Antonio

São oito banheiros (com oito vasos sanitários, oito cubas e oito torneiras). Eu sei o que você está pensando: “Ué, mas eles podem usar só dois e fechar o resto”. Experimente deixar um banheiro fechado. A poluição da rua somada à neurose com a praga, mais a poeira-cósmica que aterrissa sobre as superfícies pedem espanador, aspirador, um pano com lustra-móveis e muitas camadas de álcool gel entre os processos. Quando você tem uma biblioteca generosa e mais um estoque de revistas em casa, esta fazenda de ácaros compete de igual para igual com o “covidário” lá fora. Com tudo isso, a casa é bela. Só nos resta limpar. E sozinhos. Entre um textão aqui e uma Live acolá, a vida na Design House é esfregar, lavar, passar, cozinhar. Esfregar, desobstruir calhas, desentupir o ralo, limpar vidro, varrer o deque. Esfregar, queimar as folhas, alimentar e higienizar o mini zoo, passar álcool gel na estante. Esfregar, besuntar os pavimentos com Lysoform, esterilizar as compras e correspondências. Esfregar, sovar um pão, fazer uma revista e escrever um livro, revisar as áreas a serem limpas, passar o vaporeto, a vap e borrifar álcool 70% spray. Esfregar, postar no Instagram, fazer 12 call conferences por dia, levar o Zion para passear. Esfregar. Esfregar. Esfregar. Ai que invejinha boa de que quem conseguiu, durante o isolamento, colocar as séries em dia, arrumar as gavetas, ler um livro, aprender artesanato, atualizar os cursos on-line, descansar. 

AB Design e Interiores (Aldi Flosi + Bruno Rangel); foto: Marco Antonio; modelo: Diego malheiros

AB Design e Interiores (Aldi Flosi + Bruno Rangel); foto: Marco Antonio; dog: Zion

Com tanta esfregação, as partes mais limpas da casa são, é claro, as áreas frias. Ah, revestimento cerâmico! Se todos no mundo fossem iguais a você, que maravilha seria viver! Parceira da Decornautas Design House, a Portobello responde pelos únicos momentos em que uma passada de pano – sim, uma simples passada de pano – garantem o sossego. Com o altíssimo tráfego em nossa cozinha (já intenso por conta das gulodices nossas de cada dia), ela precisa estar sempre tinindo. Daí entram em cena apenas o esfregão (igual àquele da Joy), umas borrifadinhas de multiuso e pronto! Fizemos uma Live com o Aldi Flosi (autor do projeto da nossa Hell’s Kitchen junto com seu sócio, Bruno Rangel), que elegeu o porcelanato, e ele aprovou o asseio das placas (não antes de se gabar pela escolha, é claro). Nos banheiros assinados pelo Nildo José e pelo BC Arquitetos, que compartilhamos aqui, idem. E tem o lavabo mais exposto e também o mais submetido à toda sorte de usos: assinado pelas meninas do RCB Arquitetura, ele fica anexo ao home office, na área externa da casa, com piso + paredes envelopados pelas cerâmicas da Portobello, operando como apoio ao escritório e também à piscina e ao lounge outdoor – um ambiente prático, higiênico, de baixa manutenção e elevado efeito estético, azul da cor do mar. De resto, é essa pedra portuga com muitos vãos, ranhuras, reentrâncias – e tocas para microorganismos. 

Nosso próximo castelo de areia, vai ser, na verdade, todinho de porcelanato.

Lavabo por RCB_Arquitetura – Camila Buciani + Renata Castilho; foto: Marco Antonio

Decornautas

Jornalistas e diretores criativos que estão entre os mais respeitados do País, Allex Colontonio e André Rodrigues compõem, juntos, uma usina de conteúdo exclusivo em design, arquitetura, décor, arte e lifestyle. Entre 2016 e 2018, seu apartamento estampou a capa de importantes revistas mundiais, como a alemã AW Architektur & Wohnen e a americana Design View, além de ter sido publicado em veículos de enorme reverberação como Elle, Architectural Digest, jornais como O Globo e em programas de televisão. Acabam de lançar sua nova revista-artsy, a POP-SE, e o Art Book Decornautas.

Além das palestras sobre estilo e tendências, que prefere chamar de narrativas, o duo entrega projetos visuais que vão de peças gráficas (livros, revistas, fanzines, ensaios fotográficos, campanhas publicitárias) a ambientes (mostras, consultorias para marcas e profissionais de arquitetura), passando por espetáculos de enorme impacto midiático – Allex está produzindo no momento o novo DVD de uma grande estrela da MPB, por exemplo.

Aliás, ele, que em 2017 dirigiu a área cultural do Memorial da América Latina e desenhou o espetáculo de reabertura de seu legendário auditório considerado obra-prima de Oscar Niemeyer (o concerto Jazz & Divas), criou a revista Wish Casa após 10 anos como um dos cabeças da Casa Vogue. Reinseriu a revista Kaza no mapa com projeto editorial inovador e voltou a sacudir o circuito com a premiada revista GIZ. Também responde pelos livros de nomes incensados da arquitetura, que vão de Guilherme Torres a
Sig Bergamin, e cuida do branding da Artefacto.

Após colaborar com veículos como Vogue e Jornal do Brasil, André Rodrigues criou um dos mais expressivos sites de moda do País, o ffw. Também é co-idealizador da revista mag! e comandou as revistas Joyce Pascowitch, Modo de Vida e L'Officiel. No design, dirigiu KAZA e GIZ, e assina as revistas da Artefacto e o jornal-artsy da Micasa, o Manipresto, além de colaborar com publicações customizadas de marcas como Melissa. Junto com Allex, também responde por uma das contas de Instagram mais prestigiadas do segmento no País, com drops diários de estilo: @Decornautas

Nenhum comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *