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Bosco Verticale, projeto do Boeri Studio, em Milão, Itália (Crédito: Boeri Studio)

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Sustentabilidade volta à pauta com a pandemia

02/06/2021

Depois de um período fora da pauta nacional, com a crise sanitária provocada pela Covid-19, engenheiro Olavo Kucker Arantes, presidente do CBCS, diz que o tema ganha novamente relevância no campo da construção civil. Leia entrevista exclusiva ao Archtrends.

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Sustentabilidade é … Palavra desgastada difícil de ser substituída e definida, pouco compreendida nas suas dimensões social, econômica e social, o assunto volta à pauta e ganha relevância com a pandemia depois do primeiro boom, há mais de 10 anos. “Aquilo que nós falávamos o tempo todo parece que ganhou sentido na cabeça das pessoas. Hoje a gente tem avançado principalmente nas políticas públicas”, diz o presidente do Conselho Brasileiro de Construções Sustentáveis (CBCS), engenheiro Olavo Kucker Arantes, em entrevista exclusiva para o Archtrends. 

Engenheiro Olavo Kucker Arantes, presidente do CBCS (Foto Maria Luísa Coura Sampaio)

Crítico, diz que as pessoas conhecem mais sobre a performance de seus carros do que da própria casa. Arantes é graduado e mestre em Engenharia de Produção Civil pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Diretor da DUX Arquitetura e Engenharia Bioclimática Ltda, e foi Vice-Presidente de meio-ambiente e sustentabilidade do SindusCon-Florianópolis, onde era conhecido como o “engenheiro verde”. Seu olhar para a ecologia vem desde a infância, quando acompanhava o pai nas obras da construtora da família e escutava sobre a preocupação dele com o avanço da destruição do planeta. Ali foi plantada uma ideia que ganhou eco na participação no Movimento Ecológico Livre de Florianópolis, na universidade, no intercâmbio na Alemanha e a passagem pela Inglaterra, na década de 1980. “Fui para conhecer grandes projetos, fazer contatos, reuniões, pesquisar possibilidades para a despoluição da baía Norte e Sul, em Florianópolis, e foi quando escutei pela primeira vez sobre o movimento Green Building. Quando voltei ficou bem claro para mim a necessidade de unir o pensamento hippie com a prática no campo da engenharia”, conta.

Lembro sempre de uma frase que escutei diversas vezes de Arantes em nossas diversas conversas: “Não é bem assim” resume, de certa maneira, a complexidade e responsabilidade do tema. Nessa entrevista, falamos sobre avanços e retrocessos na pauta da sustentabilidade a partir de 2007, quando surgiu o CBSC e os debates estavam intensos no país; o mito de que sustentabilidade é caro; a discussão contemporânea sobre o pensamento decolonial no contexto da arquitetura; o selo de eficiência energética e a autonomia do consumidor para escolher sua moradia a partir dessa informação; e nossa competência em pesquisas acadêmicas. Sustentabilidade precisa ir além de uma palavra obrigatória no discurso.

Archtrends – O Conselho Brasileiro de Construções Sustentáveis, do qual você é presidente, é uma instituição que surgiu para orientar o mercado e colaborar para uma política nacional de promoção da construção civil sustentável. Quantos anos a entidade já está debatendo o tema e quais avanços temos de fato? 

Olavo Kucker Arantes – Nós tivemos dois momentos importantes: quando surgiu o CBCS, em 2007, essa ideia de sustentabilidade estava fervendo nos projetos, nos debates para novas diretrizes da construção. Lá fora, estavam pesquisando bastante nessa área, estava surgindo o processo de certificação, as empresas estavam ávidas para fazer algo interessante, todo mundo estava ligado nisso, foi um boom de start, o pensamento estava aflorando. Evidentemente quando digo muita gente é relativo, porque era um pequeno grupo envolvido, digamos que era o state of art da época. 

O CBCS teve muita representatividade com o governo federal daquela época, e por um bom tempo desenvolvemos projetos com o Ministério da Cidade, Ministério da Energia, surgiu o selo de eficiência energética, o GBC Brasil, que é o Green Building Council que certifica o LEED, todo mundo estava atrás de algo legal para fazer. Passado um tempo, por volta de 2014/15, esse boom esfriou, a sustentabilidade caiu no lugar comum, virou propaganda na mídia, mas efetivamente nada estava sendo feito além do que já tinha sido estudado lá atrás. O assunto não estava mais na pauta das pessoas, quanto mais das empresas. A sustentabilidade era como uma palavra obrigatória no discurso. 

Bom, eis que chega a pandemia e o assunto volta à pauta, reascendeu o interesse. Nós do CBCS estávamos há algum tempo tentando fazer com que o tema voltasse à pauta. Nesse período, o Brasil já estava esquecendo suas metas internacionais de emissão de cases de efeito estufa, apesar de que tínhamos muita coisa promissora, mas no quadro mundial fomos ficando para trás nas questões ambientais. Obviamente a sustentabilidade na edificação também foi ficando para trás. 

Na pandemia, todos tiveram que ficar em casa e viram que suas casas eram ruins, aí houve uma nova ativação. Aquilo que nós falávamos o tempo todo parece que ganhou sentido na cabeça das pessoas. Hoje a gente tem avançado principalmente nas políticas públicas. Um exemplo é o Projeto Cidades Eficientes que estamos desenvolvendo em Florianópolis, tem execução do CBCS e financiamento do Instituto Clima e Sociedade (iCS). São sugestões para a prefeitura colocar no Código de Obras e diretrizes para o próprio órgão governamental ter como ferramenta de exigência. O objetivo é estimular a adoção de políticas públicas que viabilizem reduções efetivas de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) nas edificações. Estamos realizando uma tentativa inédita no Brasil, conversando com todos os players do mercado. Claro que os empresários têm que ter a consciência que precisam fazer a parte deles nesse processo de evolução do país, não é só a minha empresa, mas o que eu posso fazer de melhor. As vezes os empresários querem saber quais são os benefícios que eles têm, mas não querem saber quais são os seus deveres. Isso faz parte de um amadurecimento. Desde que aportou a primeira caravela no Brasil ainda estamos brigando com isso. Nós no CBCS tentamos fazer algo que é criar ferramentas simples.

Modelo de diagnóstico Energético (Fonte: CBCS)

Archtrends – O que seria uma ferramenta simples para ser aplicada.

O.K.A. – Nós temos a ferramenta dos quatro passos como, por exemplo, por meio do CNPJ de uma empresa você consegue fazer uma leitura, uma análise dessa empresa. Tem uma ferramenta para os arquitetos que incentiva a utilização da etiqueta de energia do Procel para edificações. Essa etiqueta nacional faz parte do Programa Nacional de Etiquetagem, igual à da geladeira, mas só é obrigatória no Brasil para o edifício público federal. Eu acho lamentável porque para o usuário que vai comprar uma moradia, ter a etiqueta de eficiência já é uma informação importante para ele saber o que está comprando. Seria interessante que o usuário passasse a exigir da construtora na hora da compra. 

Archtrends – Além da implantação de programas, tem também a fiscalização, é todo um processo para dar conta da implementação de uma diretriz.

O.K.A. – Sim, na Europa, por exemplo, eles têm dois selos obrigatórios, o de energia e o de emissão de CO². Não precisa nem entrar em uma imobiliária caso você queira alugar ou comprar um imóvel, na frente já dá para ver a fotografia da casa ou apartamento e, ao lado, os dois selos. Então, a pessoa sai de lá já sabendo o que está adquirindo, qual o consumo daquele imóvel e o cliente é que vai decidir. Essa prática está incorporada há pelo menos uns 15 anos. Nós aqui estamos muito longe, a começar que nem é obrigatório e nós nem estamos perto de implementar o selo CO². A Europa tem uma meta nacional, um planejamento, na verdade se trata do planejamento de um país, é uma questão de política pública.

Claro que eles lutaram para avançar e nós estamos nessa luta também. Faz uns anos participei de um encontro com um grupo inglês que veio ao Brasil e nós conversamos sobre como eles conseguiam trocar informações entre os órgãos do governo, aqui uma secretaria não passa a informação para outra.

Archtrends – Onde se coloca o Brasil diante desse cenário?

O.K.A. – O que a gente tem de ponta é o conhecimento de linha de frente, é a universidade. Isso é muito legal, estamos lá na frente. Muitas coisas que eles estão fazendo, nós já fizemos, nossos estudos são melhores, só que entre a teoria e a aplicabilidade temos um abismo muito grande. Já escutei de muitos estrangeiros que nós aqui falamos, falamos, falamos e não aplicamos nada, que a maioria das nossas edificações não contém todo o conhecimento que falamos e mostramos.

Archtrends – Qual é o maior gargalo que enfrentamos nessa cadeia que inclui governo, mercado, consumidor, é tudo junto misturado…

O.K.A. – É tudo junto misturado porque na verdade é feito por pessoas. No governo a gente não tem continuidade, temos que refazer tudo de novo a cada novo mandato, não há conversa entre os setores, os Ministérios parecem feudos, não passam informação e isso acontece em todas as esferas, federal, estadual e municipal. 

As empresas sempre veem qualquer alteração no seu modus operandi como um problema, sempre acham que vai ficar caro e ninguém vai pagar. Na verdade, a gente tem que fazer pelo país, o empresário tem que fazer uma equalização econômica mais justa, porque nós temos uma disparidade bastante grande, quem tem mais tem responsabilidade sobre o setor, sobre o país, tem que fazer sua parte.

O outro gargalo é o público, o consumidor, que não exige muito por falta de conhecimento, muitas vezes só enxerga quando tem problema na sua casa, ele cobra se o acabamento está lisinho, se está parecido com a CASACOR (mostra de arquitetura e decoração), é muito superficial, falta conhecimento sobre o que ele está adquirindo. As pessoas conhecem mais sobre carros do que a sua própria casa, sabem sobre lançamentos de carros, sua performance, mas pouco se preocupam com a performance da sua casa.

Archtrends – No campo da arquitetura, as soluções e práticas mais eficientes já estão assimiladas, incorporadas ao projeto, há de fato uma preocupação sobre o tema ou ainda tem muito a ser conquistado?

O.K.A. – Tem muito chão pela frente ainda. O que tem de positivo é que as universidades têm colocado bastante profissional no mercado e esses jovens estão acelerando o processo, mas ainda é muito lento. Os que estão no mercado mais tempo, não têm essa visão, carregam a ideia de uma arquitetura modernista, estão presos a estilos, e essa condição não te coloca na contemporaneidade, te coloca naquela época do movimento, se eu gosto do clássico vou usar os elementos do período classicista, por exemplo. O modernismo do Brasil foi legal, mas está longe das exigências que temos que ter hoje, era uma arquitetura muita mais estética do que de desempenho e muito mais universal.

Imagem do Site Cidades Eficientes (Fonte: CBCS)

Archtrends – Ser sustentável é também ser decolonial? 

O.K.A. – A arquitetura moderna é bonita, é interessante, mas não reflete a nossa realidade, aliás eu não posso pegar uma casa e transportar para lugar nenhum, no Brasil não dá para tirar uma casa do Rio Grande do Sul e levar para o Pará, não faz sentido. Até aqueles conjuntos habitacionais que são iguais de Norte a Sul do país não dá para fazer, o que dirá reproduzir um modelo de edificação do Canadá, da Suécia e aclimatá-la, isso é o mesmo que fazer uma nossa. Isso serve para qualquer processo, tanto arquitetura quanto materiais, sistemas construtivos. Então, acho que esse pensamento e modo de fazer reflete o nosso total colonialismo. Ao invés de fazer uma readequação, acho que era mais fácil a gente criar uma arquitetura nossa, o que gera no meu entender uma gama muito maior de oportunidades profissionais. Olhar para fora como referência, mas compor algo nosso com base ainda nas questões geográficas que muitas vezes são ignoradas.   

Archtrends – É mito ou verdade que sustentabilidade é caro?

O.K.A. – Bom, tem dois aspectos. Se for uma construção que é a fórmula 1, com todas as tecnologias, sistemas de automação etc, um projeto dessa natureza é algo caro, mas isso não tem a ver com sustentabilidade. Numa construção, podemos usar recursos como ventilação natural, iluminação natural, paredes com sistema com conforto maior, e isso não custa mais caro necessariamente, mas evidentemente tem que pensar mais no projeto. 

Então dizer que sustentabilidade é cara é um mito. O tipo de projeto que será desenvolvido é que vai definir o custo. Cada projeto tem que ter um orçamento e a partir dele uma construção eficiente. Tem coisas que precisamos tomar cuidado. Aquele projeto de Milão (Itália-Bosco Veticale) todo mundo adora, é bonito de se ver, mas para morar nele o custo é impensável, a manutenção do jardim é feita de rapel. A sustentabilidade não é só o meio-ambiente, é o econômico e o social. Quantas pessoas podem morar naquele edifício? Pouquíssimas. Quantas conseguem manter? Li relatos de quem mora no prédio e que estão loucas para se mudar porque o custo é muito alto. 

Bosco Verticale, projeto do Boeri Studio, em Milão, Itália, tem conceito de uma floresta vertical, inaugurada em 2014 como parte de um projeto de reforma urbana de Hines Italia. São duas torres que abrigam 480 árvores de porte médio e grande e outras 300 de pequeno porte, 11.000 plantas perenes e rasteiras e ainda 5.000 arbustos (Foto: site do Boeri Studio)

Archtrends – Para encerrar, a palavra sustentabilidade está desgastada e é mal aplicada, existiria outra para substituí-la?

O.K.A. – Não existe outra, nós no CBCS pensamos em trocar o nome, mas não encontramos uma palavra que substituísse ‘sustentabilidade’. A palavra ‘eficiente’ é uma boa aplicação, mas falta a parte social que essa palavra não abrange, embora a maioria das pessoas não pensa na questão social quando fala em sustentabilidade. 


O CBCS, Conselho Brasileiro de Construção Sustentável, é uma OSCIP, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, de âmbito nacional, criada em agosto de 2007 como resultado da articulação entre lideranças empresariais, pesquisadores, consultores, profissionais atuantes e formadores de opinião. A entidade é composta por pessoas físicas e jurídicas e agrega membros da academia, fabricantes, construtoras, projetistas, representantes de governo, associações e entidades de diferentes segmentos da construção civil de todo o Brasil. Seu objetivo é contribuir para a geração e difusão de conhecimento e de boas práticas de sustentabilidade na construção civil.

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