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Paulo Werneck em frente ao painel na sua residência em Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Imagem: Acervo Projeto Paulo Werneck.

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Paulo Werneck, meu avô

04/12/2017

O designer carioca Gaspar Saldanha fala sobre seu avô, o artista plástico Paulo Werneck, um dos grandes nomes da arte do mosaico no Brasil.

Durante 33 anos, eu convivi cotidianamente com meu avô, acompanhando de perto sua produção incansável e sua genialidade.

Com uma personalidade sui generis, ele era um homem da Renascença, aquele sujeito que se destacava em várias esferas da vida. Tudo o que ele fez – desenho, pintura, gravura, mosaico, vitral, cerâmica,  escultura e mobiliário, entre outros meios de expressão – foi comprometido com a excelência.

Sua alegria de viver, otimismo e perseverança tiveram uma influência enorme na minha vida. Paulo Werneck era um artista obcecado pela inovação, sempre pesquisando novas técnicas e disciplinas para inovar. Se vivesse hoje em dia, certamente já estaria dominando o mundo da realidade virtual para trabalhar e se comunicar.

Tenho lembranças da infância, como as horas a fio em que eu passava no seu atelier apontando os lápis ou fazendo cola de farinha de trigo para selar as pastilhas de mosaico.

Em 1959, meus pais decidiram construir a nossa residência na ilha de Paquetá, Rio de Janeiro. Após uma longa busca no balneário, compramos o terreno e o arquiteto carioca Marcelo Roberto, padrinho da minha mãe, projetou a casa. Werneck, seu melhor amigo, se encarregou dos acabamentos e interiores.

A casa, com estrutura revolucionária para a época – e para a ilha –, possui detalhes muito especiais criados por Werneck, que passava todos os fins de semana com a gente.

Paulo Werneck e os netos, Cláudia e Gaspar Saldanha. Imagem: Acervo Projeto Paulo Werneck.

Paulo Werneck e os netos, Cláudia e Gaspar Saldanha. Imagem: Acervo Projeto Paulo Werneck.

Toda sexta-feira eu aguardava a sua chegada, com enorme curiosidade. Queria saber quais seriam minhas novas tarefas no estúdio: lixar, pintar, plantar ou simplesmente o observar trabalhando.

Acompanhar de perto o programa da casa foi, sem dúvida, a melhor formação que eu poderia ter tido em matéria de design. E eu tinha apenas seis anos de idade.

Entre os highlights da casa está um grande mural de mosaico vítrico em estilo abstrato que remete à paisagem marinha e se prolonga sobre os degraus da escada suspensa com pilastras de metal, da mesma cor do mosaico.

Paulo Werneck e Gaspar Saldanha. Imagem: Acervo Projeto Paulo Werneck.

Paulo Werneck e Gaspar Saldanha. Imagem: Acervo Projeto Paulo Werneck.

A porta de entrada da casa, em modelo de alçapão – que se destaca pela simplicidade e por fornecer uma entrada compacta e prática –, foi criada para proteger o espaço das correntes de vento frequentes à beira mar. Essa foi uma entre as muitas soluções encontradas por Werneck para corrigir o que o arquiteto não havia previsto.

Todo o revestimento do andar térreo e das áreas de serviço do andar superior foi feito com pastilhas cerâmicas e vítricas, respectivamente, especificadas por ele. Os azulejos dos banheiros e do bar são realizados em silkscreen, com desenhos náuticos, como âncoras e timões.

Mural na Casa de Paquetá. Imagem: Acervo Projeto Paulo Werneck.

Mural na Casa de Paquetá. Imagem: Acervo Projeto Paulo Werneck.

Para a sala de jantar, Werneck criou um vitral com cores fortes sobre estrutura preta. Esse mesmo vitral é o único exemplo existente de diversos outros que temos registrados.

Vitral para a Casa em Paqueta. Imagem: Acervo Projeto Paulo Werneck.

Vitral para a Casa em Paqueta. Imagem: Acervo Projeto Paulo Werneck.

Todo o mobiliário, assim como portas e marcenaria, foi executado em peroba do campo. E o muro, bem como o portão de entrada, é feito de pau de curral, madeira nativa da região.

Paulo Werneck com seu assistente no atelier. Imagem: Acervo Projeto Paulo Werneck.

Paulo Werneck com seu assistente no atelier. Imagem: Acervo Projeto Paulo Werneck.

O projeto paisagístico e o plantio do jardim eram o seu xodó. Lembro, ainda menino, quando um amigo trouxe da Índia uma muda de mangueira de presente, que vingou e até hoje  dá frutos.

Terraço do Instituto de Resseguros do Brasil.

Terraço do Instituto de Resseguros do Brasil. Foto: Marcel Gautherot/ Acervo Projeto Paulo Werneck.

O tempo passou, e eu me formei em desenho industrial na Escola Superior de Desenho Industrial da Uerj. Em 1982, fui para Nova York fazer um curso de especialização em design têxtil e estilo, e lá estou até hoje.

Em 1987, após o falecimento do meu avô, minha mãe, filha única de Werneck, herdou seu atelier contendo toda a sua obra, com mais de 300 originais e os estudos preparativos de apresentação dos seus famosos murais. Um estoque de pastilhas originais e suas ferramentas de trabalho também estavam intactos.

Durante anos, minha mãe, Regina Yolanda Werneck, minha irmã Cláudia Saldanha e eu nos dedicamos aos trabalhos de catalogação dos arquivos.

 Estudo original para mural no terraço do IRB.

Estudo original para mural no terraço do IRB. Imagem: Acervo Projeto Paulo Werneck.

Em 2005, criamos o Projeto Paulo Werneck e, graças ao patrocínio da Petrobras, iniciamos o restauro dos originais e produção da primeira retrospectiva de sua obra, inaugurada no Paço Imperial do Rio de Janeiro, em 2008. A exposição seguiu para a Pinacoteca de São Paulo, para a Caixa Cultural em Brasilia, para o Museu de Arte Moderna de Recife, em 2013, e para o Museu da Pampulha, em Belo Horizonte.

Durante todo o processo de conhecimento e reconhecimento profundo da obra, decidi levar adiante um sonho antigo: reeditar, restaurar e reinterpretar os desenhos de Paulo Werneck, evitando, dessa forma, seu esquecimento.

Estudo original para mural no terraço do IRB.

Estudo original para mural no terraço do IRB. Imagem: Acervo Projeto Paulo Werneck.

Meu primeiro passo foi contratar um ex-assistente de Werneck para reativar o atelier. Fizemos os protótipos e as primeiras reedições das mesas com tampo de mosaico, e colaboramos com o restauro de diversos murais. Entre eles, os mosaicos da igreja da Pampulha e o estádio do Maracanã, no Rio.

Hoje, a continuidade da obra desse artista está sob os cuidados da Cláudia, responsável pelo acervo, e sob os meus c – sou encarregado de sua comercialização.

O nosso maior projeto, que levou três anos para ser concluído, foi a reconstrução dos sete murais em mosaico para o terraço do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB). Desenhado pelos irmãos MMM Roberto, em 1941, o edifício foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional este ano e agora, com os belos jardins de Burle Marx, o terraço, que havia sido demolido retorna a sua configuração original.

Atualmente em Miami, tenho colaborado com arquitetos levando a obra de Paulo Werneck pela primeira vez para o exterior.

Em junho de 2017, fiz uma releitura de dois murais para a arquiteta cubana Claudia Herrera e os instalamos em um resort na ilha de Antígua, no Caribe. Além disso, um projeto que ainda esta na prancheta é a releitura do mural da casa de Paquetá, para um novo hotel em Miami, encomendado pela arquiteta francesa Laure Tirouflet.

E assim seguimos, mantendo vivos o trabalho e a memória desse grande artista.

7 Comentários

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  • Rosangela de Castro e Abreu says:

    Que gostoso ler vc contando a história de Paulico! Saudades daqueles tempos e grande prazer saber que vcs conseguiram se organizar pra manter essa memória! Saudades de vc tb! Um grande beijo! (Talvez vc não lembre, mas fugimos várias vezes pra fumar escondido em Paquetá! Minha mãe era amiga da sua e anos dp meus filhos estudaram no Nazaré)

    • Portobello says:

      Olá Rosangela, tudo bem? 😊

      Que aventuras, ein? 😂

      Continue acessando o nosso portal e acompanhando nossas matérias! 💙

      – Equipe Archtrends Portobello

  • Teresa Montero - O Rio de Clarice says:

    A trajetória de Paulo Werneck merece ser conhecida. No bairro do Leme, temos suas obras nos edifícios Marcati e Anvers. O passeio O Rio de Clarice – dedicado à escritora Clarice Lispector (morou 18 anos no Leme) fez questão de registrar a presença de Werneck no bairro. O Maracati virou verbete no livro “O Rio de Clarice – passeio afetivo pela cidade”, e o trabalho de Paulo Werneck está registrado nesse guia dos caminhos clariceanos. Clarice frequentava o edifício Maracati.

  • Wilson Adolpho says:

    Tenho um exemplar do livro A Lenda da Carnaubeira, de 1939, lindamente ilustrado por este grande artista. Parabéns pela matéria. Artistas desse nível devem ser mais conhecidos.

  • Antonio Moutinho says:

    Sou Arquiteto e tabalhei para o Senai tendo sido responsável por uma reforma de uma escola projetada pelos irmãos Roberto, o Centro de educação Euvaldo Lodi em Benfica no Rio de Janeiro. Me deparei com vários painéis de Paulo Werneck inclusive um no refeitório com um enorme painel de um goleiro se jogando para agarrar uma bola de futebol. Entrei em contato com o Projeto Paulo Werneck e sua filha foi visitar o local . Foi um momento muito gratificante