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Projetada e construída em 1928, a casa do banqueiro Victor Rossetti foi um projeto de Paul Revere Williams e Norman Foot Marsh (Foto: MichaelJLocke)

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Paul Revere Williams: o arquiteto das estrelas de Hollywood

03/11/2021

Com talento incomum para desenho e rapidez inigualável para entrega de projetos, Paul Revere Williams se tornou o arquiteto das estrelas. Conheça!

Paul Revere Williams foi um dos grandes nomes da arquitetura. Conhecido como arquiteto das estrelas, projetou casas para várias figuras da indústria do entretenimento — incluindo Frank Sinatra, ícone que transformou a interação entre público e famosos. Mas apesar do sucesso, teve que lutar a vida toda contra os percalços causados pelo racismo.  

Em meio a uma trajetória de discriminações e vitórias, ele não conseguiu ganhar a medalha do instituto de arquitetura do qual era um dos principais membros em vida. Ao mesmo tempo, parou de tentar provar aos seus clientes as suas habilidades e resolveu afirmar a si o quanto era capaz. No fim, já não precisava mostrar nada a ninguém.  

Conheça a biografia de Paul Revere Williams!  

A trajetória de Paul Revere Williams     

Ilustração de Charles Alston, de 1943. Além de ilustrar Paul Revere Williams, conta um pouco de sua carreira e seus feitos
Ilustração de Charles Alston, de 1943. Além de ilustrar Paul Revere Williams, conta um pouco de sua carreira e seus feitos (Arte: Charles Alston)     

Um dos grandes argumentos contra a meritocracia é o fato de que as pessoas não começam a corrida para o sucesso em condições iguais. Isso faz com que pobres, negros, mulheres, índios e demais minorias discriminadas tenham que demonstrar pelo menos o dobro de competência de qualquer outro profissional.  

Paul Revere Williams foi prova disso: entre um talento nato para desenho e uma rapidez ímpar para entregar projetos, ele ainda tinha que se manter distante dos seus clientes brancos para não deixá-los desconfortáveis.     

Nascido em Los Angeles, na Califórnia, Paul Revere Williams (1894–1980) teve uma vida tão incrível que, por muitas vezes, sua história pode eclipsar os feitos de sua carreira — que, por si só, já são muito surpreendentes.     

Em uma época em que o racismo era declarado, Williams foi responsável por projetar cerca de 3 mil edificações em cinco décadas de carreira.     

O arquiteto nasceu em uma família de classe média. Infelizmente, seu pai morreu em 1896 e sua mãe em 1898, ambos da mesma doença.     

Então, ele e seu irmão mais velho tiveram que ir para o orfanato, mas Williams foi adotado por C.I. Clarkson e sua esposa.     

Ele foi o único estudante negro em sua escola primária. Anos mais tarde, ingressou na Escola de Arte e Design de Los Angeles e na filial do Instituto de Belas Artes de Nova York. De 1916 a 1919, estudou Engenharia Arquitetônica na Universidade da Carolina do Sul.     

O arquiteto trabalhou como paisagista com Wilbur Cook Jr.       

Sucesso em meio ao racismo     

Aberto entre 1961 e 2004, o La Concha foi um motel projetado por Williams. Atualmente, abriga o Neon Museum
Aberto entre 1961 e 2004, o La Concha foi um motel projetado por Williams. Atualmente, abriga o Neon Museum (Foto: Anthony)     

Desenhista notável, na década de 1920 Paul Revere Williams aprendeu a desenhar de cabeça para baixo para manter uma certa distância de outras pessoas.     

É que muitos de seus clientes, que eram brancos, se sentiam desconfortáveis ​​sentados ao lado de um homem negro.     

Ao mesmo tempo, acredita-se que ele prometia entregar um projeto residencial em 24 horas e, assim, conseguir uma boa comissão em cima dele.     

No ensaio I Am a Negro, um artigo autobiográfico publicado pela primeira vez na American Magazine (1937), Williams disse:     

Percebi que estava sendo condenado não por falta de habilidade, mas pela minha cor. Passei por estágios sucessivos de perplexidade, protesto inarticulado, ressentimento e, finalmente, reconciliação com o status da minha raça. Por fim, porém, à medida que envelhecia e pensava com mais clareza, descobri em minha condição um incentivo à realização pessoal e um desafio inspirador. Sem ter o desejo de “mostrar a eles”, desenvolvi um desejo feroz de “me mostrar”. Eu queria reivindicar cada habilidade que eu tinha. Queria adquirir novas habilidades. Queria provar que eu, como indivíduo, merecia um lugar no mundo.     

Williams se aposentou em 1973 e faleceu de diabetes em 1980, aos 85 anos.     

As obras de Paul Revere Williams    

Paul Revere Williams construiu milhares de edificações. No entanto, se destacou pelas residências — tanto que, com o tempo, começou a ser conhecido como o “arquiteto das estrelas”. Veja aqui as mansões projetadas pelo arquiteto

Fez casas para Frank Sinatra, Bill “Bojangles” Robinson (ator negro mais bem pago da época), Lucille Ball e Desi Arnaz, Lon Chaney, Barbara Stanwyck, Charles Correll e Tyrone Power.     

Conheça algumas das suas obras mais famosas.     

Paul R. Williams Residence (Los Angeles, Califórnia)     

Williams construiu sua casa em um bairro livre de restrições raciais
Williams construiu sua casa em um bairro livre de restrições raciais (Foto: MichaelJLocke)    

Uma das maiores obras de Paul Revere Williams é a casa que ele fez para si e sua família. Projetada e construída em 1952, a mansão é considerada Monumento Histórico-Cultural de Los Angeles.     

Concebida em international style, estilo arquitetônico desenvolvido durante as décadas de 1920 e 1930, a residência tem quatro quartos e 412 m².     

Linhas limpas e curvas suaves, revestimento externo delicado e espaço para uma vida agitada tanto dentro de casa quanto no jardim ilustram o apreço do arquiteto pelo lifestyle californiano.     

A parede externa em forma de serpentina com luzes de destaque esconde uma grande área de jardim na parte de trás da residência, onde a família se divertia ao ar livre.     

Esse espaço se tornou o local para muitos eventos pessoais e sociais, incluindo uma festa muito comentada realizada para William H. Hastie, governador das Ilhas Virgens na época.     

Embora tivesse acesso a diversos locais badalados de Los Angeles por ser o arquiteto das estrelas, Williams escolheu construir sua casa em Lafayette Square.     

Ter uma residência em um bairro planejado de Los Angeles não era fácil. Além de custar caro, comumente as incorporadoras criavam um “pacto de escritura restritiva”, em que impediam negros, asiáticos, judeus e até mesmo atores de morar na região.     

Em 1948, no entanto, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, no caso Shelley vs. Kraemer, que restrições baseadas em raça ou etnia eram inconstitucionais.     

Logo depois, Lafayette Square se tornou o lar de muitos profissionais afro-americanos de sucesso, incluindo Williams.     

Frank Sinatra Residence (Trousdale Estates, Califórnia) 

Matéria em que Frank Sinatra faz um “tour” pela própria casa. A entrevista mudou a forma como o público se relacionava com os artistas     

Considerada um “apartamento de solteiro descolado”, a residência de Frank Sinatra projetada por Paul Revere Williams virou um patrimônio popular.     

Em 1956, em um programa de TV chamado Person to Person (1953–1961), o cantor e um dos maiores ícones do entretenimento deu uma entrevista ao apresentador Edward R. Murrow enquanto fazia um “tour” pela própria moradia.     

Na década de 1950, Sinatra queria expandir sua carreira como ator. Ele, então, comprou um terreno no topo de uma colina em Bowmont Drive, com uma vista espetacular de Hollywood, e deu carta branca a Williams.     

A única exigência de Sinatra era básica: ele não queria uma casa grande, mas sim algo simples e habitável. Williams utilizou essa carta branca para refletir, por meio do design, sua visão do futuro com elementos japoneses.     

Nos anos 50, Williams contava com uma equipe interna de confiança chefiada por sua filha, Norma Williams Harvey. Uma experiente consultora de cores, ela conhecia a filosofia de design de seu pai.     

Seu papel no projeto foi selecionar móveis em estilo oriental, com maciez e qualidade, além de itens decorativos para complementar o ousado conceito moderno e nipônico idealizado por seu pai.     

Theme Building (Los Angeles, Califórnia)     

The Theme Building iluminado à noite. Williams fez parte da comitiva que criou o projeto
The Theme Building iluminado à noite. Williams fez parte da comitiva que criou o projeto (Foto: Markbaertschi)

Em 1957, os Estados Unidos entraram em uma corrida espacial contra a União Soviética que duraria até 1975.     

Um dos períodos mais marcantes da Guerra Fria (1947–1991), a Era Espacial influenciou a cultura (Os Jetsons), a moda (o futurismo da década de 1960) e, claro, a arquitetura.     

Expoente desse período, o Theme Building é uma icônica construção localizada no Aeroporto Internacional de Los Angeles.     

Segue o Googie, nome dado ao estilo arquitetônico futurista da época. Seu design remete a um disco voador pousando com quatro pernas.     

O projeto inicial foi criado por James Langenheim, da Pereira & Luckman, posteriormente levado à prática por uma equipe de arquitetos e engenheiros chefiada por William Pereira e Charles Luckman, que também incluiu Paul Revere Williams e Welton Becket.     

O reconhecimento tardio a Paul Revere Williams     

Construída no século XIX, The Octagon House é de propriedade do American Institute of Architects
Construída no século XIX, The Octagon House é de propriedade do American Institute of Architects (Foto: Aude)

Apesar do luxo que Paul Revere Williams levou às mansões das estrelas hollywoodianas, seu trabalho não teve o reconhecimento merecido no meio profissional. Porém, a academia pretende reverter essa injustiça, mesmo que tardiamente.     

Criado em 1857, na cidade de Nova York, o American Institute of Architects (AIA) é uma organização que representa os interesses dos profissionais norte-americanos de arquitetura. No entanto, hoje conta com mais de 88 mil membros em todo o planeta.     

Cinquenta anos após sua fundação, a organização criou a Medalha de Ouro do AIA — que, ao lado do Prêmio Pritzker, é um dos principais reconhecimentos do segmento.     

Williams foi o primeiro membro afrodescendente da entidade, mas não chegou a receber a medalha em vida. Em 1939, ele ganhou o Prêmio de Mérito AIA por seu projeto do Edifício MCA, em Beverly Hills (agora sede da Paradigm Talent Agency).     

Apenas em 2017 ele recebeu a 73ª Medalha de Ouro, tornando-se o primeiro afro-americano a conquistar o prêmio.     

“Nossa profissão precisa desesperadamente de mais arquitetos como Paul Williams. Sua carreira pioneira encorajou outros a cruzar um abismo de preconceitos históricos. Não consigo pensar em outro arquiteto cuja carreira encarne melhor o espírito da Medalha de Ouro. Seu reconhecimento demonstra uma significativa mudança para a equidade na profissão e no instituto”, escreveu William J. Bates, presidente e membro do conselho comunitário do AIA na época.     

O AIA já havia demonstrado a intenção de tornar sua premiação mais inclusiva. Em 2016, o prêmio foi entregue a Denise Scott Brown e Robert Venturi, a primeira dupla de arquitetos a receber a medalha. Isso só foi possível graças a uma mudança de regulamento três anos antes.     

Gostou de saber mais sobre Paul Revere Williams? Aproveite para conhecer Martha Cassell Thompson, uma das primeiras arquitetas afro-americanas da história!     

Foto de capa: Projetada e construída em 1928, a casa do banqueiro Victor Rossetti foi um projeto de Paul Revere Williams e Norman Foot Marsh (Foto: MichaelJLocke)

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