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O jardim não jardim

18/04/2018

Nesses 20 anos de escritório, trabalhamos com um bom número de parceiros paisagistas. Entre eles, ótimos profissionais, competentes e prestigiados. Ainda assim, atribuo à minha teimosia a nossa deselegante infidelidade em relação aos nossos colaboradores.

“A natureza é partes sem um todo.” – Alberto Caeiro.

Sempre detestei os jardins franceses. São aristocráticos demais. Definidos demais. Demasiadamente controlados. Imobilizados. O jardim francês a que me refiro é aquele do Renascimento, que atingiu seu auge no século XVII, durante o reinado de Luís XIV e que alcançou inigualável reconhecimento mundial. Influenciou e ainda influencia um sem-fim de jardins e jardinzinhos por todo o globo terrestre.

A simetria dos canteiros, a monumentalidade, as formas geométricas que se faz notar tanto nos caminhos recortados quanto na arte da topiaria. Ah, a topiaria! A nobre arte de podar as (pobres) plantas, impondo-lhes formas ornamentais. Os italianos que me perdoem, mas, ao que me consta, foram os responsáveis por introduzir a infame prática do tesourão ao repertório paisagístico do Renascimento francês.

LEIA MAIS: Saiba como escolher o melhor acabamento para jardim em seu projeto

Devo admitir que meu desapreço pela nobre arte gaulesa não observa o devido afastamento intelectual. Nunca fui muito bom nisso. Meu julgamento estético é prejudicado e contaminado pelos fatos históricos: a ideia de um lugar solene para acolher a pomposa corte francesa em seus momentos de celebração me provoca calafrios.

Por conta da importância que acabei cultivando por esse desafeto estilístico-ideológico, passei boa parte da minha carreira profissional como arquiteto e urbanista buscando o não jardim como ideal para os projetos que desenvolvemos em nosso escritório. Só a mata desgrenhada me interessa. Nada de canteirinhos ou linhas sinuosas bem definidas.

jardim não jardim

Fazenda Três Meninas (Foto: Diego Gurgel/Acervo Pessoal)

Nesses 20 anos de escritório, trabalhamos com um bom número de parceiros paisagistas. Entre eles, ótimos profissionais, competentes e prestigiados. Ainda assim, atribuo à minha teimosia a nossa deselegante infidelidade com relação aos nossos colaboradores.

Por outro lado, deve ser creditado à minha pessoa o fato de termos conhecido tantas mentes criativas diferentes e que, a despeito de minha injustificada inquietude, muito contribuíram para o alargamento e o aperfeiçoamento de nossa cultura paisagística e arquitetônica.

Além de apreciar cada conversa com os paisagistas com quem já trabalhamos, posso afirmar, com satisfação, que fomos agraciados com belíssimos jardins associados aos nossos projetos arquitetônicos. Ainda assim a ideia do jardim não jardim, conforme minhas próprias e iludidas convicções, ainda não havia se realizado a ponto de saciar minha imaginação diletante. Até que, sem nenhum aviso prévio, uma notícia recente me desconcertou.

O triste e brutal desmatamento da região amazônica, ocorrido nas últimas décadas, acidentalmente nos revelou um passado insuspeito. Enormes marcas sulcadas no solo, batizadas geoglifos, afloraram à medida que a cobertura vegetal foi eliminada. Os geoglifos são registros de uma ancestral ocupação do território e nos dão notícia de uma populosa civilização onde, até então, se imaginava natureza, praticamente inabitada.

Uma pesquisa, conduzida pelo Departamento de Antropologia da UFPA  (Universidade Federal do Pará) em parceria com a Universidade de Exeter (Reino Unido) revela que já foram encontrados 500 deles, alguns com mais de três quarteirões de diâmetro. Segundo Denise Schaan, pesquisadora da UFPA, os geoglifos mostram que a Amazônia foi grandemente manipulada por povos do passado.

jardim não jardim

Fazenda Paraná (Foto: Edison Caetano/Acervo Pessoal)

A análise arqueológica indica que na época da construção dos geoglifos, a Amazônia era dominada por uma floresta característica, com grande abundância de espécies de bambu. A partir de então, a composição de espécies das matas muda de forma considerável, com o aumento de cerca de 30% das espécies de palmeiras.

Como muito bem sentenciou o jornalista Reinaldo José Lopes: “Isso indica que já havia por ali grupos indígenas moldando a composição de espécies da floresta a seu favor, já que as palmeiras, como a pupunha, estão entre as principais árvores manejadas ou domesticadas pelos nativos da Amazônia, em geral por causa de seus frutos. É como se a mata fosse parcialmente transformada em pomar, digamos”.

Ou seja: a mata amazônica não é totalmente “natural”. Ela foi, em praticamente toda sua extensão, manipulada pelos nativos. As espécies que hoje dominam as paisagens amazônicas devem sua prevalência ao desejo e à intervenção antropizadora dos povos amazônicos de outrora.

Como reagir ao saber que a mata amazônica não é nada daquilo que nos ensinaram no colégio?! Nada daquilo pelo que reivindicamos integral e incondicional preservação?! O que pensar ao constatar que essa mata maravilhosa que conhecemos não é obra da “mãe natureza”?!!

Que bom. Finalmente encontrei o jardim-não-jardim. E não podia ser mais bonito.

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