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Foto: 2Photo Pots em Unsplash

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Novas casas para um viver num novo mundo

05/11/2021

Um simples projeto de iluminação foi o ponto de partida para uma reflexão sobre a potência da arquitetura para desenhar mais que novas casas, novas formas de viver no mundo.

Tive poucas experiências com arquitetos fazendo projetos pra mim. Mas lembro de uma que foi um tanto traumática, mas que me acendeu uma luz (literalmente) para questões sistêmicas não só dessa área, mas da nossa desconexão com o coletivo. Na ocasião, meu ex-namorado estava reformando um apartamento em que iria morar e me pediu ajuda pra conduzir o processo e revisar o projeto. Comecei então pela iluminação do apê, e qual não foi minha surpresa ao ver que quase todas as lâmpadas escolhidas na ocasião não eram econômicas, não eram de LED, apesar da tecnologia já existir. Só de pensar na conta de luz, quase enfartei, e de cara já pedi para a arquiteta que estava projetando a casa para revisar o projeto todo, e sua justificativa era que opções de LED não poderiam ser dimerizadas, então a luz não ficaria tão bonita.

Mas peraí, quem paga uma conta de um apartamento grande, quase inteiramente iluminado por lâmpadas dicroica e afins (na época eu vivia uma fase mais apertada de grana, apesar do ex não, então seria plausível que meu primeiro pensamento fosse esse)? E ela que não seria… Só que passada essa questão pessoal, o que me veio em seguida foi: e se todo mundo que pode, resolver usar lâmpadas pouco eficientes nas suas casas por questões estéticas? De quantas Itaipus precisaremos para abastecer escolhas individuais de consumo baseadas no “eu tenho dinheiro, então eu posso”.  

Se passaram mais de 10 anos desde esse episódio, e seguimos com muitos dos mesmos desafios, alguns até aumentados. Não é mais sobre poder comprar energia, é sobre o que a gente está fazendo com os recursos. Não é mais sobre o que eu “mereço”, é sobre entendermos de vez que vivemos de forma interdependente nesse planeta, e que sim, ele tem como atender às necessidades de todos os seres que habitam essa casa com a gente, mas não como atender ao estilo de vida que importamos e definimos como “desejo” em países e classes abastadas.

Fazer um simples projeto de iluminação se torna uma responsabilidade muito maior do que apenas fazer um projeto de iluminação, porque essa energia, essa casa, essa pessoa vivem em um coletivo. 

O Brasil já está passando por sérias questões de crise hídrica e crise energética e elas estão todas relacionadas ao desmatamento e à crise climática. Será que não é a hora da gente repensar os projetos tendo como pilar fundamental a regeneração e a interdependência? Vejo a arquitetura como um servir poético que transforma lugares trazendo inúmeros benefícios para quem usa esses lugares. Mas vejo ainda na maior parte dos projetos, um ponto de vista muito individualista. Penso que este servir pode ser um ponto de partida para mudar não só a casa e a vida de quem nela vai habitar, mas alargar sua visão de mundo. 

Foi justamente esse o pano de fundo de um papo inspirador que bati com o consultor e escritor André Carvalhal e a engenheira ambiental e consultora Aline Matulja, para o Festival Path Amazônia, onde discutimos conceitos importantes como sustentabilidade versus regeneração. E lembrando desse episódio, fica claro que eles não podem mais estar restritos a um segmento da academia ou da indústria. Temos que coletivamente jogar luz (eficiente) para todos os segmentos e desafios. Temos apenas mais uma década para mudar TUDO. E você, como pode contribuir para criar mais que novas casas, novas histórias?

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