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Natureza e design

20/03/2020

As intersecções históricas entre o mundo natural e as criações humanas e como essa convergência se potencializa em um momento de colapso ambiental.

Natureza é “o conjunto de leis que regem a existência das coisas e a sucessão dos seres”. Design é “o conceito de qualquer produto de acordo com seu ponto de vista estético e sua funcionalidade”. Ambas as definições são do dicionário Michaelis. A conexão entre esses dois campos de estudo tem intrigado designers e pesquisadores ao redor do mundo. O perfeito equilíbrio da natureza é inspiração para o desenho humano. Não apenas em sua aparência, mas em seu funcionamento. É o que chamamos de design by nature, em inglês, ou biomimética, em português. 

Tamanha é a importância desse tema, que o Cooper Hewitt, museu de design de Nova York, o escolheu para sua trienal. Nature by Design é o fio condutor que guiará a maior parte das exposições por três anos, até abril de 2022. Eu tive a oportunidade de visitar o museu em janeiro de 2020. Naveguei por têxteis, joias, mobiliário, utensílios e outras obras da coleção do Cooper Hewitt, que conta com mais 210.000 objetos de design. O museu mostra como designers, através dos séculos, observaram a natureza, investigaram seus materiais e imitaram seus padrões e formas.

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Casa Arca, de Marko Brajovic, em Paraty, RJ. O arquiteto se inspirou nas habitações indígenas do Xingu. (Foto: divulgação Atelier Marko Brajovic)

Essa não foi a primeira vez que refleti sobre biomimética. Conheci o conceito em 2015, graças ao arquiteto Marko Brajovic. Em Paraty, RJ, ele ministrava o curso Design by Nature. Na época, Brajovic me ensinou o que era biomimética e como ela poderia ser uma ótima ferramenta para designers e arquitetos. A conversa me levou a pensar que, realmente, todos os conhecimentos do mundo já estão disponíveis na natureza. Só precisamos observá-la agir para aprender como agir também. 

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Marko Brajovic assinou, com Arthur Casas, o Pavilhão do Brasil na Expo Milão de 2015. O tema da participação brasileira era Brasil, alimentando o mundo com soluções. (Foto: divulgação Atelier Marko Brajovic)

Até hoje, Brajovic é um dos maiores especialistas no assunto no Brasil. Seu Atelier Marko Brajovic, leva em conta em todos os projetos: estudo comportamental (como as pessoas agem), fenomenologia (como a física age) e biomimética (como a natureza age). Seu livro, In Nature We Trust, é referência para arquitetos e designers que buscam a biomimética como estratégia de inovação. “Acreditamos que uma sociedade sinérgica e descentralizada está emergindo e que a nova arquitetura irá manifestar essa evolução”, escreve Brajovic.

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Caixa do século 19. Feita de casco de tartarugo, faz parte da exposição que mostra materiais alternativos ao plástico. Doação de Sarah Cooper Hewitt  (Imagem: cortesia Cooper Hewitt)

Os conceitos aprendidos em 2015 me foram fundamentais para aproveitar melhor a trienal do Cooper Hewitt. Nature by Design é bastante ampla. Traz desde objetos feitos com plásticos naturais (na verdade, substitutos do plástico), como cascos de tartaruga, borracha vulcanizada e fios semi-sintéticos, até modelos e ilustrações botânicos do século 19, quando cresceu o interesse por ciência e educação no mundo. São várias salas de exposições, com diferentes focos, que me fizeram pensar que, afinal, no nosso mundo tudo é natureza e tudo é design.

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François-Pierre Chaumeton, Bananier, 1814. A ilustração é do livro Flore Médicale, de um médico e farmacêutico françês, que apresenta o iso medicional de espécies botânicas, incluindo flores e frutas (Imagem: cortesia Cooper Hewitt)

Há casos em que a natureza é matéria-prima para o design. Por exemplo, cochonilha, um corante natural que vem de um inseto, usado pelos povos americanos desde o período pré-hispânico. Uma instalação da trienal mostra o legado da cochonilha, usada até hoje no design contemporâneo, tingindo de rosa móveis laqueados, tecidos e papéis.

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5 Exposição Cochineal, com vários objetos, antigos e novos, tingidos com cochonilha. Em cartaz até 25/5/2020. (Foto: cortesia Cooper Hewitt)

Em outros momentos, a natureza inspira o design com sua beleza. No grande salão Botanical Expressions são exibidas peças de artes decorativas datadas do final do século 18 até o início do século 20, com interpretações de formas botânicas. São criações de designers que se interessavam pelas ciências naturais e praticavam jardinagem, como Louis Comfort Tiffany, filho do fundador da joalheria Tiffany & Co e grande designer da Art Nouveau. Nesses casos, a natureza serviu de impulso criativo para o design.

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Exposição Botanical Expressions, com artesa decorativas inspiradas na natureza. Em cartaz até 10_1_2021. (Foto: cortesia Cooper Hewitt)

Se engana quem pensa que a natureza se opõe à tecnologia. Elas podem caminhar juntas. O Cooper Hewitt apresenta um tecido que brilha no escuro, feito de seda transgênica, que inclui o DNA de corais. Batizado de Fantasma, o projeto é do estúdio de design AnotherFarm. Outro exemplo de tecnologia desenvolvida com natureza é a capa de chuva feita com um plástico produzido a partir de algas, livre de petróleo e com pegada de carbono negativa. O projeto é da designer Charlotte McCurdy.

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Chaleira da Tiffany & Co, em prata e marfim. (Foto: cortesia Cooper Hewitt)

É interessante ver esses exemplos de biomimética no design através dos séculos. Mas, para mim, a abordagem mais importante de Nature by Design é como o design pode ajudar a salvar a natureza da destruição humana. Uma das características mais impressionantes da natureza é a total ausência de lixo. Decomposição e biodegradação são alguns dos processos naturais que garantem que toda a matéria seja reutilizada. Nós, humanos, ao contrário, somos especialistas em gerar lixo. 

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AnotherFarm, Fantasma, 2019. O estúdio de design colaborou com cientistas para criar seda brilhante transgência. O processo envolveu injetar DNA de corais brilhantes no bicho da seda. (Foto: cortesia AnotherFarm _ Cortesia Cooper Hewitt)

Assim, designers têm muito o que aprender com a natureza. É possível captar e dar novo propósito, de maneira criativa, à poluição do ar ou ao plástico nos oceanos. Por exemplo, a tinta feita com o carbono expelido pelo escapamento de carros, do Graviky Labs. Ou, simplesmente, explorar materiais naturais de maneiras não convencionais, para que não se transformem em lixo. Por exemplo, a urna funerária biodegradável em que as toxinas das cinzas se desfazem gradualmente, proporcionando a completa absorção no solo e na água. O projeto se chama Mourn, ou luto, e é do designer Nienke Hoogvliet.

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Charlotte McCurdy, After Ancient Sunlight, 2018. A capa de chuva utiliza plástico feito de algas, livre de petróleo e com pegada de carbono negativa. (Foto: cortesia Charlotter McCurdy _ cortesia Cooper Hewitt)

“Plástico é uma falha de design”, afirma Parley AIR, projeto que propõe uma estratégia para acabar com o acelerado crescimento de poluição marinha por plástico. A equipe multidisciplinar, que inclui ativistas, surfistas e designers, acredita que o problema só pode ser resolvido reinventando o material. Para eles, é preciso parar de produzir plástico imediatamente, que seria substituído por plástico reciclado retirado dos oceanos. Parece radical demais? Não quando lembramos que mais de oito milhões de toneladas de plástico são descartados nos oceanos todos os anos. 

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Graviky Labs, AIR-INK, 2013. Como resposta à poluição urbana causada por emissões de carbono de veículos, uma peça captura partículas no escapamento de carros. Essa matéria vira tinta. (Foto :cortesia Graviky Labs _ cortesia Cooper Hewitt)

É um problema urgente, em que a iniciativa individual pode fazer a diferença. O Parley AIR recomenda que nós, consumidores, evitemos plástico sempre que possível. Devemos recusar plásticos que só serão utilizados uma vez, como copos ou embalagens. E incentivar soluções e materiais inovadores e ecológicos, comprando de empresas engajadas com sustentabilidade.

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Nienke Hoogvliet, Mourn, 2017. A urna é feita com PHA, um plástico biodegradável, que ajuda a regular a desintegração das cinzas. (Foto: cortesia Energy and Raw Materials Factory _ cortesia Cooper Hewitt)

Se nos últimos séculos a industrialização nos afastou da natureza, na era pós-industrial os designers começam a colaborar com ela. Assistindo à destruição que causamos e continuamos a causar, fica claro que a conexão entre a humanidade e o planeta necessita ser profundamente resgatada. Impulsionados pelo senso de urgência, muitos designers têm olhado para a natureza como guia e parceira. A trienal do Cooper Hewitt traz provocações e soluções de design que encorajam uma relação mais duradoura e respeitosa com a natureza.

 

Foto de destaque: Ensamble Studio, Petrified River, 2018-2018. A instalação site-specific no jardim do museu Cooper Hewitt representa a transformacão de Manhattan de natural para urbana. (Foto: cortesia Ensamble Studio / cortesia Cooper Hewitt)

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