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Montagem sobre imagens de Bianca Antunes, Divulgação Ruy Ohtake, e Ilana Bessler

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Estrelas que continuam a brilhar

21/01/2022

As lamentáveis perdas de três grandes brasileiros – mestres da arquitetura mundial – mostram que os fins também são recomeços. No ano em que perdemos Paulo Mendes da Rocha, Ruy Ohtake e Jaime Lerner, a arquitetura brasileira teve o que lamentar. Ambos foram mentores de seus tempos, e assim deixaram imensos legados para aqueles que pretendem ser enormes como eles. Além das análises práticas sobre suas obras, quais ensinamentos nos deixam os seres humanos, por trás dos gênios?

Podem dizer os mais catastróficos que 2021 foi um ano para se esquecer. As perdas de três dos maiores mestres brasileiros da arquitetura, em uma primeira visão, tendem a nos trazer o lamento óbvio sobre a falta de seres humanos ímpares, o fato de jamais podermos tê-los novamente conosco, os buracos que ficam e a tristeza dos amigos e familiares. Porém, quando falamos de pessoas dessa estatura, não devemos apenas nos prender à impermanência do ser. Como ensina o budismo, a imortalidade se dá através dos ensinamentos, das falas, pensamentos e ações e, dessa forma, fica a certeza de que teremos a presença perene desses iluminados conosco, nos mostrando caminhos para o futuro, na arquitetura ou na vida em si.

mestres brasileiros da arquitetura
Uma das últimas obras deixadas por Paulo Mendes da Rocha, o Sesc 24 de Maio, em São Paulo, projetado em conjunto com MMBB Arquitetos, ocupou edifício existente totalmente reformatado, o que inclui uma piscina na cobertura (a parte mais importante da obra, segundo o arquiteto), e um teatro no subsolo (foto: Nelson Kon)

Paulo Mendes da Rocha se foi, em carne, mas deixou além de suas obras físicas, a sua nada sutil forma de pensar, agir, ser e viver. Das imagens boas que tenho da vida, guardo as inúmeras vezes que cruzei com ele na Rua General Jardim, no centro de São Paulo, dentro ou fora dos prédios que abrigam diversos escritórios importantes de arquitetura. Sempre com uma imagem de bon vivant, cigarro na mão, sorriso no rosto. Sua conhecida acidez no trato pessoal – da qual fui vítima algumas vezes –, era parte de sua genialidade: provocar é criar, e fazer o outro agir. A surpresa que veio com sua morte foi embasbacante: afinal, imortais podem morrer? 

“Não se pode pensar na arquitetura como coisa isolada, num desfile de objetos estáticos. Isso não tem a menor importância, assim como não faz sentido falar da técnica, como um elogio em si (…) A arquitetura será sempre um discurso de caráter experimental. A ideia do projeto é dizer algo sobre a nossa condição humana, no agora, mas já com indícios da nossa ideia de futuro. Bobagem tratar a técnica friamente, como se ela fosse algo em si mesma.” – Paulo Mendes da Rocha, em entrevista à revista PROJETO, em 2016 (Leia completa em revistaprojeto.com.br)

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A abordagem escultural, de cores e formas sinuosas e intensas, define a linguagem arquitetônica de Ruy Ohtake, que fez da extravagância a estratégia para marcar presença no território. Na foto, o Centro Cultural de Jacareí (foto: Daniel Ducci)

Ruy Ohtake se foi, em carne, mas deixou além de suas obras físicas, a sua coragem de impactar, ousar e ser genuinamente feliz. Quando meu telefone tocava e na tela percebia ser ligação de seu escritório, me alegrava duplamente: primeiro por poder ter uma breve conversa com a gentil Carla, sua fiel escudeira durante décadas, com um quase bordão: “Seu Ruy quer falar com você”. Em segundo lugar, obviamente, por ter o prazer de bater papo com um amigo que estava sempre com altíssimo astral. Pensando à frente, buscando novidades, pleiteando mais uma capa sua na revista PROJETO, mas acima de tudo com ar de um eterno jovem, empolgado e inventivo, como se estivesse sempre começando.

“Toda arte de vanguarda é polêmica, porque rompe com o que está estabelecido. Creio que o desafio do arquiteto é dar continuidade à arquitetura brasileira. Cada profissional tem seu projeto, e isso tem de ser respeitado. Se eu me preocupar com a crítica, vou ficar tolhido, fazendo arquitetura de 30 anos atrás. O desafio da inovação é caminhar para o desconhecido.” – Ruy Ohtake, em entrevista à revista PROJETO, em 2002 (Leia completa em revistaprojeto.com.br)

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  Passarelas arredondadas e suspensas, com deques cujas curvaturas são replicadas na forma dos bares e arquibancadas que servem de acesso ao local, são a marca do projeto da primeira fase do Parque Urbano Orla do Guaíba, uma das últimas obras de Jaime Lerner (foto: Leonardo Finotti)

Jaime Lerner se foi, em carne, mas deixou além de suas obras físicas, a importância de pensarmos as cidades com emoção, com o coração. Suas falas sobre fazer o simples, mesmo que imperfeito, o conceito de acupuntura urbana que trazia intrínseco o “fazer logo”, com menos ego e mais preocupação com a oportunidade da mudança, menos burocracia e falsa segurança, mais resultados práticos pelo bem da sociedade, demonstram a grandeza que é ser gigante com humildade. Não à toa eleito pela revista Time como um dos pensadores mais influentes do mundo, Lerner tinha pressa de ver a mudança, que para ele tinha a ver com clima, bem estar e sustentabilidade. 

“Temos que ter a coragem de fazer coisas simples e imperfeitas. Arquitetura é o compromisso com a simplicidade e a imperfeição. Temos orgulho da nossa constelação de arquitetos-estrelas, mas precisamos mais de arquitetos preocupados com as cidades. Menos egoarquitetos, mais equoarquitetos.” – Jaime Lerner, durante a segunda Conferência Nacional de Arquitetura e Urbanismo do CAU/BR, realizada no Rio de Janeiro, em outubro de 2007 (leia matéria completa em revistaprojeto.com.br)

Se na vida pudermos ser um pouco mais Paulos, mais Ruys e mais Jaimes, certamente seremos mais gênios, gigantes, e concomitantemente mais humildes. Com as receitas sobre provocar pelo bem, ser genuinamente feliz e simplesmente sonhar, que os três nos deixaram, o caminho está aberto para quem se permitir essa ousadia. Viva o brilho das estrelas que continuam a brilhar!

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