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Megalomania Artística

16/09/2019

O desenvolvimento e a competição entre galerias e museus nos Estados Unidos.

O mundo da arte, assim como o universo da arquitetura, não é um lugar previsível. Muito pelo contrário: aqueles que conseguem adivinhar o que está por vir acabam lucrando, apostando de forma certeira e, caso eles tenham sorte, se divertindo ao longo da jornada.

Prova disso são as transformações pelas quais as galerias de NY passaram no último século. Antes da grande depressão de 1930 (uma das maiores crises econômicas da história do país), somente famílias aristocráticas como os Vanderbuilts e os Rockefellers ditavam o que acontecia nesse segmento. O museu Whitney nasceu graças à determinação – ou pirraça – da colecionadora multimilionária Gertrudes Vanderbuilt Whitney que, após oferecer suas obras de arte americana para o Metropolitan, teve que engolir um “não, muito obrigado” e, por isso, decidiu abrir a própria instituição.

Apesar dessas extravagâncias entre os ricos e famosos, a vida dos próprios artistas não era fácil ou lucrativa, por isso, eles geralmente moravam onde o mercado imobiliário estava em baixa.

Museu Whitney, New York (Foto: Musik animal)

Museu Whitney, Nova Iorque (Foto: Musik animal)

Exposição do artista pop Andy Warhol, no Museu Whitney, Nova Iorque

Exposição do artista pop Andy Warhol, no Museu Whitney (Foto: arquivo Pedro Andrade)

Passeando por Downtown hoje em dia – entre marcas como Hermès, Valentino e Balenciaga – é difícil acreditar que o SoHo um dia foi uma pechincha. Pois bem, nos anos 1940 e 1950, esta área era um bairro jovem, humilde e barato que acabou tornando-se solo fértil para quem precisasse de espaço e inspiração sem esvaziar o bolso. Com o passar do tempo, a região ficou tão bacana que grandes lojas e restaurantes passaram a almejar aquele metro quadrado, elevando assim o custo de vida local e, consequentemente, expulsando os próprios artistas que tornaram aquele lugar interessante algumas décadas atrás.

O mesmo fenômeno aconteceu mais tarde em Williamsburg, no Brooklyn. Para vocês terem uma ideia, um prédio de três andares nesse distrito custava mais ou menos duzentos mil dólares nos anos 1980. Hoje em dia, a mesma propriedade não é vendida por menos de 3.5 milhões.

Durante esse renascimento do Brooklyn, uma região historicamente mal aproveitada de Manhattan atraiu os galeristas e seu discípulos: West Chelsea. Durante muito tempo, essa área foi um reduto gay que, após as merecidas conquistas da comunidade LGBT na Big Apple, ficou abandonada. A saída dos gays rumo a outros bairros não associados a uma orientação sexual específica foi uma supervitória, afinal de contas, guetos só fazem sentindo enquanto o grupo de vítimas ainda é marginalizado. A partir do momento em que não há preconceito, todos podem se misturar e viver felizes para sempre.

Com a evasão de muitos moradores antigos, esse bairro aos poucos tornou-se a nova meca da arte nova-iorquina no início do século XXI. Contei essa história toda para contextualizar o processo de transformação que estamos presenciando nesse exato momento: a morte das pequenas galerias e o superfaturamento das já respeitadas, premiadas e poderosas.

Quadro "Hirondelle Amour", de Joan Miró, no museu MoMA (Foto: arquivo Pedro Andrade)

Quadro “Hirondelle Amour”, de Joan Miró, no museu MoMA (Foto: arquivo Pedro Andrade)

Como diz um famoso ditado americano: “Money makes the world go round” (O dinheiro move o mundo). Nesse caso, os peixes menores mal conseguem sobreviver enquanto os tubarões monopolizam o mercado. Agora, galerias não competem entre si, mas sim, com enormes museus como o Metropolitan, o Whitney, o MoMA etc.

A galeria PACE, dona da maior coleção de obras de Mark Rothko, Chuck Close e Claes Oldenburg, acabou de investir mais de cem milhões de dólares em uma “pequena”  reforma projetada pelo disputado escritório de arquitetura Bonetti Kozerski. Para que a gente tenha uma ideia do tamanho desse investimento, vale lembrar que o New Museum (uma das maiores instituições de arte contemporânea dos EUA), gastou entre 70 e 80 milhões de dólares em sua construção (obra da japonesa Kazuyo Sejima) em 2007.

Renderização da fachada Pace Gallery, projetada por Bonetti / Kozerski

Renderização da fachada Pace Gallery, projetada por Bonetti / Kozerski (Fonte: nytimes.com)

Outro exemplo é a Gagosian Gallery, do polêmico Larry Gagosian. Apesar da quantidade de inimigos que ele conquistou ao longo dos anos, há de se admitir que, para quem começou vendendo posters nas calçadas do Village no final dos anos 1970, um império avaliado em quase um bilhão de dólares não é nada mau. Hoje em dia, ele é dono de dezessete espaços artísticos pelo mundo – três deles em NY – e está prestes a abrir mais quatro supergalerias na capital do mundo.

Dentre os profissionais representados por ele estão muitos talentos que, assim como Madonna e Cher, dispensam o sobrenome: Koons, Murakami, Pollock, Giacometti, Lichtenstein, Warhol, Kusama, Twombly, Calder, entre outros.

Galeria Gasosian, em Chelsea, Nova Iorque (Fonte: timeout / Foto: Fotografia: Robert McKeever)

Galeria Gasosian, em Chelsea, Nova Iorque (Fonte: timeout / Foto: Robert McKeever)

Essas não são as únicas megagalerias passando por grandes reformas. Basta um passeio por Chelsea para notar que boa parte delas está em obras. Cheim & Reid, Gavin Brown e David Zwirner, só para citar algumas.

Esse fenômeno também está conectado à democratização da arte no mundo. Aquela postura metida a besta que durante muito tempo foi associada à arte global não existe mais. Hoje em dia, para sobreviver, instituições precisam ser acessíveis às massas. Se observarmos as exposições mais visitadas da última década em Nova York, vamos ver que o estilista Alexander McQueen, o diretor de cinema Tim Burton e uma mostra sobre a influência da cultura pop estão no topo da lista. Museus usam temas populares como isca para atraírem números de visitantes nunca antes vistos.

Além disso, atualmente essas instituições oferecem também cursos, salas de cinema, espaços para shows, restaurantes comandados por chefs premiadíssimos e uma série de outras formas de entretenimento.

Há quem critique essas mudanças, no entanto, assim como a globalização e a Internet, o jeito é abraçar o processo evolutivo e se adaptar a este admirável mundo novo. Afinal de contas, como diriam nossas avós: “ O que não tem remédio, remediado está”.

Museus usam temas populares para atraírem números de visitantes (Foto: arquivo Pedro Andrade)

Museus usam temas populares para atraírem números de visitantes (Foto: arquivo Pedro Andrade)

2 Comentários

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  • Maria Teresa Ciciliati Spada says:

    Pedro, gostei muito do seu artigo, apesar de não conhecer NY gosto muito de ler e aprender através de artigos como o seu.Muito bem escrito e ilustrado . Amei simplismente.
    Adoro a Portobello e você também.

  • Angela Colognesi Serpa says:

    Tema super interessante, principalmente porque fui artesã (pintura em porcelana e Madeira) e sempre visitei esse nicho. Fiquei com peninha das galerias antigas e menores e do clima intimista que traziam. Mas… o que não tem remédio… por outro lado, gosto da multiplicidade de atividades que essas grandes galerias vem oferecendo. Texto rico, claro, gostoso!! Vou compartilhar!! Bjsssssssssssss