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Documentário Tudo é Projeto, de 2017, co-dirigido pela cineasta Joana Mendes da Rocha

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Legado imortal

06/06/2022

A Triennale di Milano apresenta o filme Tudo é projeto, documentário sobre a vida e obra de Paulo Mendes da Rocha – uma linda homenagem a seu legado arquitetônico, político e, acima de tudo, humano

Todos nós sabemos que vamos morrer. 

Mas também sabemos que não nascemos para morrer. 

Nascemos para continuar.

– Paulo Mendes da Rocha

Paulo Mendes da Rocha (1928-2021) não foi apenas um grande arquiteto. Com notável habilidade muito além da prancheta, foi um ilustre pensador, um poeta.

Quantas vezes, em seu escritório, eu lhe fiz uma pergunta, e ele, para responder, contava alguma história curiosa e seu pensamento ia longe… Muitas vezes eu achava que ele acabaria por não responder o que eu lhe havia perguntado. Mas não. Com raciocínio afiadíssimo, ele retornava ao tema com seu rico repertório e concluía brilhantemente sua resposta.

A cidade, o entorno, os habitantes sempre foram as premissas fundamentais de seus projetos: arquitetura como satisfação do desejo humano, explorando ao máximo a engenharia e a resistência dos materiais. “O objetivo da arquitetura é exibir o êxito da técnica. O desejo entra como ideia, digamos, de beleza suprema na realização daquilo entretanto que se queria por necessidade”, assim Paulo definia o mote de sua profissão.

No documentário Tudo é Projeto, de 2017, co-dirigido pela cineasta Joana Mendes da Rocha, filha caçula do primeiro casamento, Paulo, super à vontade em frente à câmera,  mostra sua face de homem comum, relatando diversas de suas vivências, incrementadas com inúmeros detalhes, graças a sua invejável memória.

O filme se inicia com Joana e Paulo no escritório em que o arquiteto capixaba ocupou por mais de quatro décadas, até sua morte em 23 de maio de 2021. Com suas amplas janelas, localizado na rua Bento de Freitas, em São Paulo — no mesmo edifício da sede do IAB – Instituto dos Arquitetos do Brasil — o endereço é o santuário dos desenhos, projetos, maquetes, livros, fotos, souvenirs e prêmios recebidos pelo mestre, organizados de forma casual em longas estantes e grandes gaveteiros.

Paulo Mendes da Rocha e sua filha Joana
Paulo Mendes da Rocha e sua filha Joana, cineasta, no escritório do arquiteto, em cena do documentário Tudo é projeto (frame do filme co-dirigido por Joana e Patricia Rubano e produzido pela Olé Produções)

Joana abre a conversa chamando-o de pai. Com grande senso de humor, ele imediatamente corta a intimidade e pede que ela o chame de você.

Aí iniciam um delicioso bate-papo. A cada pergunta de Joana, uma viagem no tempo. Ela dava a corda e ele ia longe, livre e empolgado, floreando cada resposta com sua peculiar erudição.

“Já imaginou a solidão do homem do neolítico? (…) Nós fizemos a cidade, sabe pra quê? Para (podermos) conversar”, poetisa.

E conta sobre sua obra na Praça do Patriarca, pórtico de estrutura metálica com 40 metros de extensão e 20 metros de largura, concluído em 2002 para dar abrigo aos pedestres e contrastar com a arquitetura do entorno, do início do século 20.

“O que o povão achou?”, pergunta Joana. “Eu não tenho coragem de perguntar, de repente o cara fala, ‘eu acho uma porcaria’. Vou ficar decepcionado”, confessou o mestre.

Praça do Patriarca
Praça do Patriarca com pórtico que Mendes da Rocha projetou em 1992 e levou dez anos para ser concluído, obra que incluiu, ainda, a recuperação do desenho original do piso (foto de Nelson Kon)

Participa do filme Lito, o filho mais velho de Paulo, também cineasta.

Depois de casado, Lito voltou a morar na Casa Butantã, obra que Paulo projetou em 1964 para sua família. A casa, onde Lito, Joana e os irmãos do meio passaram toda a infância e juventude, marca a grande revolução do conceito de morar defendida pelo pai: um ambiente todo de concreto armado aparente, cercado por amplas janelas, ditado pela continuidade espacial, integrando as zonas sociais e íntimas.

“O melhor lugar para morar é aqui. É difícil ter privacidade, mas ao mesmo tempo isso acaba propiciando a vida em grupo. É uma coisa meio oca indígena. (…) O pai e a mãe fazendo jantar com os amigos, você escuta o burburinho, barulho da cozinha, do banheiro. É essa a lembrança que eu tenho. E é isso que me trouxe de volta para cá. Porque isso foi muito bom”, declara Lito no filme.

Casa Butantã, onde Paulo morou com sua família durante seu primeiro casamento. Este projeto de 1964 materializou sua forma inovadora de pensar a casa, promovendo o compartilhamento dos espaços, um conceito ultra arrojado para a época (Foto de Nelson Kon)

Joana e Paulo também falam sobre sua intervenção arquitetônica na Pinacoteca de São Paulo, executada em 1998, sobre o projeto do Museu dos Coches em Lisboa, Portugal, inaugurado em 2015, e sobre o Cais das Artes, em Vitória, sua cidade natal, cuja projeto de 2010 ainda está inacabado.

Frame do filme com vista da Enseada do Suá a partir da estrutura em construção do Cais das Artes, única obra do arquiteto em Vitória, ES, sua cidade natal, que resta inacabada

Sobre a atuação de Paulo no design de mobiliário, no filme ele lembra como foi a criação da premiada cadeira Paulistano, em 1956.

“Nada mais a mesma coisa que o diabo da cadeira, não é? Eu fiz a Paulistano na maior indigência.” Paulo inicia assim seu raconto, dizendo que a ideia nasceu de uma conversa de bar com um amigo engenheiro que então trabalhava na Villares. Pois Paulo foi até a fábrica na garupa da moto de outro amigo pegar algumas barras de aço mola para trabalhar no protótipo que, no seu imaginário, deveria unir a tecnologia de ponta do aço dobrável a frio e a rede ancestral dos indígenas como assento. Enquanto a estrutura imaginada deu certo, a rede foi substituída por lona e couro.

O documentário relembra, ainda, emocionantes momentos, como o Prêmio Pritzker recebido em 2006, e o Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza, outorgado a Paulo pelo conjunto da obra em 2016.

Quem está em Milão acompanhando o Salão Internacional do Móvel e seus eventos paralelos, de 6 a 12 de junho, poderá assistir a íntegra do filme, que será exibido na Triennale di Milano, no dia 7, às 18h30, com a presença do presidente da instituição, Stefano Boeri, da filha mais nova de Paulo, a arquiteta Nadezhda Mendes da Rocha, e do professor Paolo Galdolfi, que farão ainda um talk, com a minha mediação. Esta iniciativa em Milão tem o apoio da Portobello.

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