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Arquiteta Lina Bo Bardi (Foto: Joveci C. de Freitas/Agência Estado. Fonte: Estadão Conteúdo)

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Qual mensagem o Leão de Ouro para Lina Bo Bardi traz às arquitetas?

14/04/2021

“Como viveremos juntos?” é o tema da próxima Bienal de Arquitetura de Veneza, que traz uma reflexão extremamente importante: o nosso modo de vida abrange as outras pessoas, seres vivos e meio ambiente? Em tempos de pandemia, nada mais significativo que premiar uma arquiteta que, durante toda a sua trajetória profissional, exerceu suas atividades com otimismo, empatia e generosidade. Viva Lina Bo Bardi!

A 17ª Bienal de Arquitetura de Veneza, prevista para ocorrer entre agosto e novembro de 2020, precisou ser adiada em razão da pandemia e será realizada entre 22 de maio e 21 de novembro de 2021. O tema do evento “Como viveremos juntos?” foi definido, inicialmente, tendo como fundamentos a crise climática, os deslocamentos de população, a polarização política e as crescentes desigualdades raciais, sociais e econômicas. Porém, com o atual cenário pandêmico, o tema ganhou nova dimensão, visto que esses motivos estão diretamente ligados à origem e ao agravamento da pandemia global.

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Mais do que nunca, fica claro que estamos sob uma visão de mundo individualista e destrutiva. Quando as normas sociais e as respostas políticas não atendem às demandas atuais, é hora dos arquitetos responderem: “como viveremos juntos?”. Uma reflexão que precisa ser ampla, abrangendo a relação entre as pessoas, com outros seres vivos e com o ambiente.

Durante a mostra, a arquiteta Lina Bo Bardi receberá, em memória, o Leão de Ouro pela trajetória e conjunto de sua obra. A recomendação foi feita por Hashim Sarkis, educador e arquiteto libanês, curador da Bienal de Arquitetura 2021, aprovada pelo Conselho de Administração da Bienal de Veneza.

Lina Bo Bardi em sua residência, a famosa Casa de Vidro (SP), no ano de 1988 (Foto: Joveci C. de Freitas/Agência Estado. Fonte: Estadão Conteúdo) 

Hashim Sarkis comentou: “Se há uma arquiteta que melhor encarna o tema da Bienal de Arquitetura 2021 é Lina Bo Bardi. Sua carreira como designer, editora, curadora e ativista nos lembra o papel do arquiteto como construtor de visões coletivas. Lina Bo Bardi também exemplifica a perseverança da arquiteta em tempos difíceis, sejam guerras, conflitos políticos ou imigração, e sua capacidade de permanecer criativa, generosa e otimista o tempo todo.”

Lina é a primeira mulher brasileira a conquistar o prêmio. Nascida na Itália, estudou arquitetura na Universidade de Roma e teve seu escritório destruído durante a Segunda Guerra Mundial. Mudou-se definitivamente para o Brasil em 1946, naturalizou-se brasileira, em 1951, e declarou: “Eu não nasci aqui, escolhi este lugar para viver. Por isso, o Brasil é meu país duas vezes, e eu me sinto cidadã de todas as cidades, desde o Cariri ao Triângulo Mineiro, às cidades do interior e da fronteira”.

Leão de Ouro
Entrada da Casa de Vidro (SP), a primeira obra de Lina Bo Bardi no Brasil – construída entre 1950 e 1951 (Foto: Deivisson Rafael)

Infelizmente, o país não a acolheu do mesmo modo e, desde que chegou ao Brasil até a sua morte, em 1992, enfrentou as dificuldades de ser mulher em uma sociedade machista, de atuar em uma profissão predominantemente masculina e de se posicionar politicamente. Sofreu boicotes, apagamento e não conseguiu executar muitas obras ao longo de sua carreira.

A arquiteta deixou como legado uma produção muito rica, que não se prendeu a formalismos mas explorou diferentes materiais, foi ousada e experimental. Tais produções são fruto de uma maneira de projetar muito atenta aos contextos do local, à manifestação popular e preocupada, sobretudo, com as pessoas. Nas palavras de Lina: “A beleza em si, por si mesma, é uma coisa que não existe. Existe enquanto é, por um período histórico, depois muda o gosto. Quando é uma coisa imprescindivelmente ligada à coletividade é bonita porque serve e continua a viver.”

Leão de Ouro
Escadaria do MASP – Museu de Arte Contemporânea de São Paulo – construído entre 1958 e 1968 (Foto: Deivisson Rafael)

De maneira inspiradora, Lina deixou como mensagem a importância de uma arquitetura enquanto ferramenta de transformação social, preocupada com o usuário, voltada para o povo e sem elitismos. “No fundo, vejo a arquitetura como serviço coletivo e como poesia. Alguma coisa que nada tem a ver com arte, uma espécie de aliança entre dever e prática científica”, reforçou a arquiteta no documentário “Lina Bo Bardi”, de Aurélio Michiles. 

Apesar da demora no reconhecimento da importância de Lina Bo Bardi, que só veio nos anos após sua morte, nos dias atuais o trabalho da arquiteta é cada vez mais lembrado e difundido pelo mundo. Por isso, conceder o Leão de Ouro para Lina, ainda que postumamente, é muito significativo para a valorização da arquitetura feita por mulheres e da arquitetura brasileira como um todo.

Leão de Ouro
Igreja Espírito Santo do Cerrado, maquete e corte longitudinal – Uberlândia, 1976 (Fonte: Divulgação/Instituto Bardi)

É importante lembrarmos que a premiação de arquitetas é exceção. A realidade enfrentada pelas mulheres no campo da arquitetura é, ainda hoje, de desvalorização profissional e falta de reconhecimento, e simplesmente não há como avançarmos e darmos respostas aos problemas atuais sem mudanças nessa dinâmica de apagamento feminino. De certa maneira, revisitar o passado para reconhecer o trabalho de Lina é apontar caminhos para o futuro.

Nas palavras de Hashim Sarkis: “O Leão de Ouro especial em memória de Lina Bo Bardi representa o reconhecimento, há muito tempo, de uma carreira de prestígio desenvolvida entre a Itália e o Brasil e uma contribuição que visa repensar o papel do arquiteto como facilitador da socialidade. Por fim, é uma homenagem a uma mulher que simplesmente representa o arquiteto em seu melhor sentido.”

Seja em pequena ou grande escala: para quem fazemos arquitetura? Estamos pensando no usuário e na apropriação do espaço? Valorizamos as pessoas ou estamos projetando para nós mesmos?  Qual legado queremos deixar? 

Estar em contato com a produção de arquitetura de Lina é sempre um estímulo, fazendo refletir sobre a arquitetura na qual acreditamos, no papel do arquiteto na sociedade e se estamos explorando todo o potencial do fazer arquitetura. Mesmo que decorridas algumas décadas desde a concepção dos seus projetos, eles ainda são referências muito atuais.

É sempre tempo de celebrarmos Lina Bo Bardi!


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2 Comentários

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  • Priscilla Ramos says:

    Amei conhecer um pouco mais sobre a obra da Lina Bo Bardi. A casa de vidro é linda!! Senti vontade de conhecer. O modo como vamos viver daqui para frente envolve uma intensa valorização da humanidade e a criação de espaços flexíveis, que podem ser utilizados de forma individual ou em pequenos grupos (núcleo familiar) e de forma coletiva eventualmente. Arquitetas serão peças fundamentais para trazer o aconchego que buscamos como indivíduos em espaços que utilizaremos de forma coletiva.

  • Anelise says:

    Muito bom esse artigo! Parabéns!