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Conheça a dupla que mistura música e design: os irmãos Fahrer

04/04/2018

Os irmãos Fahrer são uma referência no design de móveis no Brasil e no mundo. As obras da dupla paulista já passaram por espaços consagrados, como o MoMA e o Pavillon Le Corbusier, e foram adquiridas por nomes como Eric Clapton e Djavan. Em uma entrevista exclusiva para o Archtrends Portobello, eles contam tudo sobre suas maiores inspirações na carreira e projetos futuros!

O que inspira você em seus projetos? Para os paulistas irmãos Fahrer, designers de móveis com fama internacional, o cotidiano é inspiração indispensável. “Tudo o que está no entorno é material de criação”, adianta Sérgio Fahrer, o mais velho da dupla. Segundo o irmão mais novo, Jack, a parceria é formada “por uma criança de 52 e outra de 50 anos”.

A música também é uma fonte inesgotável de referências para os dois, como Jack ressalta: “Muitas vezes, a música e a melodia guiam o traço da minha lapiseira”. Para Sérgio, é a mesma coisa: “Eu não consigo desenhar em silêncio. A gente só desenha ouvindo música”.

Neste post, você vai entender como o cotidiano, a música e o gosto por materiais sustentáveis e inovadores influenciam esses designers. Também vai conhecer melhor o trabalho dos dois e ficar por dentro do novo projeto que eles estão desenvolvendo!

Por que os irmãos Fahrer são uma referência?

Era 1992 e Sérgio Fahrer, então com 27 anos, passava por uma mudança na vida. Depois de vender uma empresa de engenharia eletrônica que mantivera por uma década, ele se mudou para Los Angeles, nos Estados Unidos, para estudar música.

Influenciado pelo irmão mais novo, que também é músico, ele se matriculou no Musicians Institute of Technology. Lá, aprendeu a luthieria, arte de produzir instrumentos musicais personalizados.

“Quando você vai a uma luthieria encomendar um instrumento, o luthier vai traduzir as dimensões do seu corpo, aquilo que você tem como referência corporal na hora de tocar, e adequar essas medidas a um instrumento que vai praticamente fazer parte do seu corpo, ser uma extensão dele”, explica Sérgio.

Se na luthieria é tudo uma questão de ergonomia, era justamente conforto o que faltava a Sérgio enquanto ele estudava a prática. Uma dor nas costas o incomodava, e ele decidiu criar a própria cadeira para trabalhar. Da junção entre a base de um cajón (instrumento de percussão peruano) e parte de um contrabaixo, surgiu a cadeira Blues.

A cadeira Blues e a multilaminação

“A Blues é o início”, diz ele complementando: “Se eu não tivesse feito a cadeira Blues, eu não estaria no design hoje”. O móvel, decorado por palhetas de guitarra derretidas, acabou se tornando bem mais do que uma cadeira confortável para o próprio Sérgio. Ela se consolidou como um marco do trabalho com madeira curvada por multilaminação e projetou o paulista nacional e internacionalmente.

“Eu descobri que essa técnica que eu desenvolvi para fazer a cadeira Blues nunca havia sido usada nem pelos países escandinavos, que são os papas da madeira curvada — você tem Alvar Aalto, Arne Jacobsen e alguns outros nomes importantes que usam madeira assim”, lista Sérgio. “E eu não sabia que, por intercalar um tecido e cola bicomponente entre as lâminas de madeira, para criar uma resistência maior nas áreas de curvas delas, eu tinha desenvolvido uma nova técnica de construção”, orgulha-se.

E de onde Sérgio tirou a ideia para construir o móvel dessa forma? “A minha primeira formação foi em eletrônica. Então, eu tenho toda uma bagagem de estruturação de materiais por conta dessa empresa que eu tinha, que construía caixas acústicas de madeira com os cantos arredondados”, relembra.

A cadeira Blues se tornou um ícone do design de móveis no Brasil e no mundo com 72 peças produzidas, sendo que uma delas foi adquirida por ninguém menos que o roqueiro Eric Clapton, um dos diversos artistas e personalidades que têm móveis Fahrer.

“Eu não vou dizer que aí não teve uma dose de sorte, porque foi justamente em um período em que os irmãos Capanema começaram a fazer um sucesso muito grande na Europa, e tivemos outros nomes importantes do design nacional, como Carlos Motta, Cláudia Moreira Salles… Eu faço parte dessa segunda geração de designers brasileiros que começaram a abrir o caminho do Brasil para fora do país”, pondera o artista.

Ele completa: “Nesse momento, eu estava sendo muito admirado por uma técnica que não se usava aqui. Era quase como trazer uma nova linguagem para o desenho brasileiro”.

Inspiração que vem da infância

Embora aponte a passagem pelo Musicians Institute of Technology e a criação da Blues como marcos iniciais da carreira, Sérgio acredita que certa vocação para o design o acompanha desde a infância.

Ele relembra uma fotografia que está no cartão de visitas dos Irmãos Fahrer. Na foto preto e branco da década de 70, ele aparece no meio da sala de aula, aos seis anos de idade, ao lado de uma imensa torre de Lego. Quando a agência responsável pelo cartão de visitas escolheu essa fotografia para estampá-lo, ele ficou confuso, a princípio.

“Eu falei: ‘Vocês estão loucos? Por que a gente vai me colocar criança?’”, ele lembra. “E eles disseram: ‘Sérgio, na década de 70, nós não tínhamos celular, não tínhamos computador… Para uma professora parar uma aula naquela época e tirar essa foto, era algo marcante. Pra gente, o seu caminho começou aí”.

A chegada de Jack

Jack Fahrer se juntou ao irmão em 2007. “O Sérgio me chamou e falou: ‘Jack, eu quero desafios, eu quero fazer coisas diferentes’”. O caçula aceitou o convite e se juntou ao irmão gradualmente, até que em 2009 eles começaram a assinar as criações em conjunto, como Irmãos Fahrer.

Da mesma forma como Sérgio traz uma bagagem de outras áreas para o design de móveis, Jack contribuiu com referências diversas. Ele é formado em Moda, já trabalhou com HQs e, além disso, é músico.

“Eu venho para trazer um desafio de novos materiais, e fomos buscar tecidos diferentes, por exemplo. O traço do Sérgio é um pouco diferente do meu, então eu comecei a entrar no mundo dele e ele começou a ver um pouco do meu mundo”, afirma o designer.

A madeira deixou de ser o único material utilizado por eles, que passaram a experimentar novas formas de produzir. “A gente trabalhou com fibra de carbono, acrílico, a gente fez peças só de alumínio”, comenta Jack, listando algumas matérias-primas que ele e o irmão já usaram.

Um exemplo marcante para ele é a cadeira Nena, que tem apenas 4mm de espessura e é uma combinação de alumínio de fuselagem de avião e madeira.

O conhecimento de Jack sobre moda também é parte essencial do trabalho dos Fahrer. Para o designer, escolher o tecido para um móvel é muito mais do que simplesmente adotar uma estampa ou textura. “O caimento do tecido em uma peça tem relação com a alfaiataria. Quando eu olho para uma peça, eu penso em vesti-la, eu a vejo muito como um corpo”, compara.

A colaboração com o irmão é orgânica. “A gente gosta de desenhar no papel vegetal. Assim, a gente põe o desenho de um sobre o do outro, porque o papel vegetal tem essa transparência. Muitas vezes, a gente acaba chegando a uma terceira ideia”, revela Sérgio.

Como a música influencia o trabalho da dupla

“A música foi o guia para a gente fazer o que faz hoje”, afirma Jack. Não fosse a luthieria, afinal, Sérgio talvez nunca tivesse criado a cadeira Blues.

Sérgio relembra que a influência musical na vida dos dois vem de berço: “Eu sou contrabaixista, e na minha família todo mundo toca — minha mãe toca piano, meu pai toca violão e gaita, o meu irmão toca teclado, tem banda…”.

Os irmãos nunca projetam sem ouvir música. Entre os favoritos de Sérgio, há grandes nomes brasileiros, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Elis Regina; ícones do rock, como Sting; gigantes do jazz, como Nina Simone, John Coltrane e B. B. King, além de artistas mais pop, como Joni Mitchell, e mais recentes, como Esperanza Spalding.

“Nossa primeira referência foi o rock dos anos 70, mas a gente tem uma referência muito mais forte, que é a do jazz”, ressalta o irmão mais velho. “O nosso pai ouvia jazz todos os dias, sete dias por semana. Ele tinha, inclusive, um clube com cinco amigos, que se reuniam todo sábado à tarde para escutar vinis de jazz”, recorda.

“Como na época você não tinha oportunidade de comprar aqui no Brasil, quando os amigos viajavam, traziam, cada um, algum dos discos que eles gostariam de ouvir juntos. No sábado à tarde, eu e o Jack brincávamos no chão e o que vinha era essa música, que a gente cresceu ouvindo. E a Bossa Nova também era uma coisa que nosso pai adorava”.

Música traduzida em design de móveis

A música não serve apenas como trilha sonora para as criações dos irmãos Fahrer: ela inspira diretamente o design de alguns móveis.

É o caso da estante Moog. “Ela é uma peça que tem referência muito forte com a música”, diz Sérgio. “Ela se chama Moog em referência a um sintetizador muito usado no rock progressivo da década de 70. Ele era um sintetizador enorme, quase uma parede, como se fosse uma estante em que você conectava cabos de som. O Yes e o Genesis utilizavam muito o Moog”.

A estante, feita com uma técnica de escavar compensado naval, vem com uma surpresa para o cliente: “A peça tem nichos. Quando você retira as peças dos nichos da estante, a menorzinha serve para você subir e chegar até o último ‘andar’ da estante, e a outra vira um banquinho. O que seria um descarte natural, a gente transforma em uma peça”.

A música também é influência da base para mesa de jantar Sui Generis, batizada em homenagem a uma banda de rock argentina. A música do país vizinho também influenciou a cadeira Fito Páez, que recebeu o nome de um dos compositores mais populares da Argentina. De inspiração, Páez se tornou cliente e tem peças dos irmãos Fahrer no estúdio e em casa.

Para a dupla de designers, a música também serve como gatilho para lembranças inspiradoras. Jack estava ouvindo Glamour Boy, da banda canadense de rock The Guess Who, quando começou a se lembrar da época em que o pai o levava com Sérgio para brincar próximo ao Estádio do Pacaembu, em São Paulo. A memória o estimulou a iniciar um desenho com o irmão, o que originou a cadeira Charles Miller.

O cotidiano por trás do design

“Todas as nossas peças têm uma referência do cotidiano”, diz Sérgio. “Muito do nosso trabalho acontece no dia a dia. Às vezes, tem um pedaço de papelão caído na rua e, dependendo da projeção da sombra que ele faz no chão, cria para mim uma linha, e essa linha pode virar uma chaise longue, por exemplo”.

Ele tem o hábito de carregar consigo um bloquinho para capturar insights em situações como essa. “A melhor memória, como meu pai me ensinou, é um pedaço de papel e um lápis”. Ele e o irmão têm o hábito de se reunir pelo menos uma vez por semana para conversar sobre materiais e as observações que tiveram.

O costume de anotar é rotina, inclusive, em viagens. Sérgio relembra uma vez que visitou a Argentina com a esposa: fascinado por jovens que tocavam e dançavam milonga — ritmo tradicional de algumas regiões latino-americanas — ele tentou se aproximar da praça em que a cantoria acontecia.

“A praça estava tão cheia que a única coisa que eu conseguia ver era o bojo de um dos violões e, por uma fresta mais embaixo, a perna dos bailarinos fazendo o paso doble [movimento de dança]”, Sérgio relembra. Encantado pela combinação de formas, ele logo pediu um guardanapo à esposa para que pudesse desenhar o que via.

“Eu fiz o traço do bojo do violão e dois traços representando os pés dos bailarinos. Quando eu voltei a São Paulo, isso se transformou na chaise Paso Doble. Você pode ver que ela é um pedaço do bojo de um violão gigante, de que cortei um pedaço, e as madeiras curvadas que compõem a parte debaixo são onde os bailarinos cruzam os pés”.

São Paulo, cidade em que os irmãos cresceram, também é muito importante para o design que desenvolvem. “Andávamos muito com nosso pai no centro da cidade”, diz Sérgio. “A gente andava muito a pé. Ele dizia para gente nunca olhar para o chão, olhar para cima, que é quando se descobre a arquitetura da nossa cidade”.

Segundo Sérgio, o trabalho que realiza com o irmão seria totalmente diferente caso tivessem crescido em qualquer outro lugar.

Móvel é para quem usa

“A minha preocupação é sempre a relação do móvel com o usuário”, sintetiza Sérgio. “Eu não faço uma poltrona por fazer uma poltrona — ela tem que ter premissas importantes, um espaço adequado àquele ambiente para o qual estou projetando, tem que ter um sentar específico, e esse sentar tem que receber muito bem o usuário”.

Além disso, há atenção aos materiais: “Eles são pensados de maneira ecologicamente correta”, afirma Sérgio. “Toda madeira é certificada, toda espuma que a gente usa é reciclável, todo tecido tem o mínimo de composição que agrida o meio ambiente, o verniz é à base de água…”.

Conforto para o usuário e cuidado ambiental se encontraram no projeto que os irmãos Fahrer desenvolveram para a comedoria do Sesc Pinheiros em 2006. As cadeiras, mesas e bancos do espaço são assinados pelos irmãos, e deu tão certo que a ideia se estendeu para outras unidades do Sesc em São Paulo.

“Um dos materiais que a gente usou foi o MDF, que na época sofria certo preconceito, por ser ‘porta de armário’. Junto a um grupo de pesquisadores, a gente descobriu que ele podia ser utilizado para as cadeiras e mesas. A gente fez todas assim, cortadas em uma máquina SMC”, Sérgio explica.

E essa não foi a única ousadia estética e tecnológica da empreitada que gerou as peças Tubitos. “A cadeira não tem encaixes, é toda monobloco”, continua Sérgio. “E a gente fez parte do encosto dela com madeira maciça, torneada, ou com tubinhos de madeira maciça e, o mais surpreendente, com tubinhos de fenolite, que é um tubo de papelão colado dentro de tubos de concreto para a passagem de fios”.

Descubra qual é o novo projeto dos irmãos Fahrer

Além de designers, os irmãos Fahrer são pesquisadores. Eles estão sempre em busca de novos materiais para trabalhar e testam todos antes de efetivamente aplicá-los ao design de móveis.

“Quando você busca um material novo, tem que explorar tudo o que ele pode dar a você. Tem que procurar o próprio material ou algo muito próximo para entender o que ele permite fazer e depois criar”, explica Jack. Por isso, eles costumam fazer miniaturas dos móveis — com argila, massinha de modelar ou alumínio, por exemplo — antes de começar o trabalho na prática.

Agora, eles já têm um novo material em vista para os próximos lançamentos: “A gente está trabalhando com cerâmicas brasileiras”, Sérgio revela. “Estamos pesquisando cerâmicas para fazer mesas de centro, bancos, sofa tables, luminárias…”.

Sérgio percebe que, para a área externa, já há muitos trabalhos com cerâmica — de bancos à beira de piscinas, por exemplo. Mas a intenção dele e de Jack é trazer o material para móveis da parte interna da casa (e não necessariamente casas de praia), aproveitando as texturas e padrões que a cerâmica contemporânea oferece.

Eles ainda estão testando os melhores materiais e formas de trabalho, mas Sérgio espera lançar a novidade ainda em 2018.

Gostou de conhecer mais sobre a trajetória dos irmãos Fahrer? Compartilhe este post nas redes sociais e apresente essa dupla de brasileiros mestres do design para os seus amigos!

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