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IAN SCHRAGER – O dono de boate que se tornou um dos maiores magnatas da indústria hoteleira

09/12/2019

Hoje, com cinquenta anos de carreira, empreendedor referência absoluta no universo do design, dá palestras no mundo todo.

Não é fácil pensar em nome mais influente no universo da hotelaria, do design e da vida noturna que Ian Schrager. O menino curioso nascido em uma família judia e conservadora do Brooklyn foi responsável pela criação da boate mais revolucionária do mundo (Studio 54), pelo conceito do hoje tão popular “boutique hotel”, pela democratização do design de qualidade em grandes condomínios e por mais uma série de aspectos que ditam a maneira como a gente se diverte, viaja, come, bebe e vive.

Filho de um alfaiate e de uma professora de escola pública, Ian sempre foi estimulado a não ousar, arriscar ou almejar uma vida ambiciosa. Durante sua infância e adolescência, “menos”, sempre foi “mais”. Entrou para a faculdade de direito, conseguiu um trabalho chatíssimo num escritório de advocacia e, até então, supostamente, havia suprido as expectativas da família. Em três anos, perdeu os pais vítimas de doenças fulminantes e inesperadas (um câncer e um ataque cardíaco respectivamente).

Steve Rubell e Ian Schrager, na boate Studio 54 (Foto: divulgação Studio 54: The Documentary)

Steve Rubell e Ian Schrager, na boate Studio 54 (Foto: divulgação Studio 54: The Documentary)

No momento mais desesperador da sua vida, o ombro que serviu de apoio foi o do vizinho e companheiro de escola, Steve Rubell. Com a morte dos pais, faleceu também a obrigação de não decepcioná-los e por isso, estimulado pelo melhor amigo, decidiu abandonar a advocacia e passar um período em busca da sua real vocação. 

Com o intuito de tirar o colega da depressão causada pelas recentes tragédias familiares, Steve, que por sinal tinha acabado de sair do armário, levava Ian para a balada em boates e bares gays como o Club Flamingo, o Le Jardins e o Stonewall (local onde, diga-se de passagem, nasceu o Gay Pride).

Ao notar o entusiasmo com o qual a clientela dançava, a sensualidade na atmosfera desses locais, o início do que hoje conhecemos como door policy (quando alguém decide quem pode ou não entrar no estabelecimento baseando sua escolha no estilo alheio) e a arte por trás daquelas festas, Ian decidiu trazer todas estas características para a noite hétero propondo assim a criação de uma casa noturna em sociedade com Steve. Aos olhos deles, orientação sexual não deveria segregar a pista de dança, muito pelo contrário, deveria unir raças, religiões, classes sociais, etc…

Parte do atrativo do Studio 54 tinha a ver com a ilusão de que ao entrar naquela boate, estaríamos mergulhando em um universo paralelo. Eles não vendiam somente boa música, mas sim, uma experiência completa. Tudo tinha que estar em sintonia: a iluminação, o DJ, os bartenders, a decoração, as drogas psicodélicas, as roupas usadas pela clientela, as muitas celebridades que por lá passavam (Diana Ross, Mick Jagger, Liza Minnelli, Andy Warhol, Elton John, Michael Jackson, dentre outros) e cada detalhe ao nosso redor.

Anos depois, após problemas fiscais seríssimos, a farra acabou. O Studio 54 fechou as portas e Ian perdeu tudo; segundo o próprio, foram meses até conseguir abrir uma nova conta bancária. Como se isso não bastasse, em pouco tempo, seu amigo de infância e sócio Steve Rubell faleceu vítima da epidemia da AIDS nos anos 80.

Naquele momento, ele se deu conta de que a única possibilidade de combater a depressão severa pela qual estava passando, era se reinventar novamente. Abrir mais uma boate seria inimaginável; qualquer tentativa acabaria sendo comparada ao Studio 54 original e considerada uma versão medíocre do templo da disco music. Nesse instante Ian se deu conta de que seu maior talento não estava no empreendedorismo noturno, mas sim, na habilidade de criar ambientes capazes de tornar momentos banais em memórias inesquecíveis.

Aos poucos Ian mergulhou na hotelaria. Dentre seus projetos mais famosos durante esta nova guinada profissional nos anos 90 estavam os hotéis Hudson, Royalton, Morgan, Paramount e Shore Club. Em todos o DNA dele estava presente, no entanto, seu objetivo sempre foi trazer algo de único para cada empreendimento.

Dentre as tantas lições que ele trouxe de sua experiência na pista de dança mais disputada do mundo, talvez a mais marcante tenha sido a democratização do luxo. Seus ambientes tem uma sutileza extravagante que é ao mesmo tempo ambiciosa e acessível. Durante uma entrevista em rede nacional americana, Ian disse: – “Hotéis devem ser criados para que todos usufruam de seus encantos; se a pessoa não tem poder aquisitivo para se hospedar em determinado local, ela deve pelo menos querer tomar um drink no bar ou ter uma reunião de trabalho no lobby”. 

Pedro Andrade conhece hotéis de Ian Schrager em Nova Iorque (Foto: arquivo Pedro Andrade)

Um exemplo muito usado por ele é o encanto atrelado a um super blockbuster, a um best-seller ou a um hit no topo das paradas musicais. Todos esses exemplos transcendem o status daquilo que em teoria é para “rico” ou para “pobre” – expressão que ele, assim como eu, sempre detestou.

Mais tarde Schrager expandiu seu império se associando à marca Marriott. Junto à mega cadeia hoteleira, criou os famosos Edition Hotels. São mais de dez exemplares que vão de Shangai e Abu Dhabi a Miami e NY, é claro.

Além disso, recentemente decidiu também lançar o Public Hotel no Lower East Side de Manhattan com direito a preços acessíveis, uma boate underground e dois restaurantes com cardápios assinados pelo premiado chef Jean George.

Fachada do hotel 160 Leroy, inspirada nas obras do arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer (Foto: 160leroy.com)

Escadas rolantes vibrantemente iluminadas do Hudson Hotel (Foto: hudsonhotel.com)

Escadas rolantes vibrantemente iluminadas do Hudson Hotel (Foto: www.hudsonhotel.com)

Quarto Queen Hi-Floor do Public Hotel (Foto: publichotels.com)

Quarto Queen Hi-Floor do Public Hotel (Foto: publichotels.com)

Após o sucesso absoluto no universo da hotelaria, Ian decidiu expandir seu olhar para projetos residenciais, dentre eles o 40 Bond e o 160 Leroy. Mais uma vez, o segredo por trás do sucesso está na capacidade de criar mundos onde todos nós, sem exceção, possamos nos sentir especiais. Aos seus olhos, a decoração, o paisagismo, o design, o fundo musical e a arquitetura, funcionam como uma pista de dança, ou seja, vários elementos vindos de lugares distintos, de repente, se unem harmoniosamente e curtem aquele espaço lado a lado em total sintonia.

Suas maiores inspirações são filmes antigos como O Mágico de Oz e Alice no País das Maravilhas. A ideia que de uma hora para outra, tudo pode mudar, sempre fez com que Schrager tivesse o poder de transformar a vida alheia, ainda que somente por um dia, ou, até mesmo por um instante.

ian schrager

Empreendedor e CEO Ian Schrager Company (Foto: C2 Montréal)

Hoje, do alto de seus 73 anos, Ian vive com com sua mulher (ex-bailarina do NY City Ballet) e seus três filhos em uma mansão de 20 milhões de dólares em South Hampton. Apesar de recentemente ter completado cinquenta anos de carreira, dar palestras no mundo todo, ser referência absoluta no universo do design e ter se tornado uma verdadeira máquina de fazer dinheiro, ele jura que ainda é tão disposto e ambicioso quanto aquele jovem que ousou abrir a boate mais revolucionária de todos os tempos em 1977. Parafraseando o próprio ” O sucesso não olha para trás, só para frente “.

Foto de capa: C2 Montréal

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