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Gentrificação: um desafio para urbanistas e arquitetos

04/12/2019

Além de um desafio, a gentrificação pode ser uma oportunidade para os urbanistas e arquitetos. Entenda mais sobre o assunto!

É bem provável que você já tenha ouvido falar em gentrificação. Mas sabe realmente o que esse termo significa? É preciso ter cuidado, uma vez que muitas pessoas fazem confusão e pensam que se trata de um sinônimo para revitalização.

A gentrificação vai além de apenas revitalizar um ambiente: ela o transforma totalmente, com o objetivo de tornar os locais mais “nobres” e, assim, aumentar o seu valor de mercado.

Trata-se de um tema que é desafiador para os urbanistas e arquitetos. Por isso, desenvolvemos este artigo, que pretende responder as principais perguntas que os profissionais têm sobre a gentrificação.

Acompanhe!

Afinal, o que é gentrificação?

O filme Aquarius, protagonizado por Sônia Braga, mostra um caso de gentrificação (Foto: CinemaScópio / SBS Productions / Videofilmes / Globo Filmes)

O filme Aquarius, protagonizado por Sônia Braga, mostra um caso de gentrificação (Foto: CinemaScópio / SBS Productions / Videofilmes / Globo Filmes)

O vocábulo “gentrificação” é derivado da língua inglesa, que utiliza a palavra gentry para nomear pessoas muito ricas ou ligadas a títulos de nobreza. Os primeiros registros do uso do termo são datados da década de 1960.

Nessa época, em Londres, alguns membros da nobreza migraram para bairros que antes eram ocupados pela classe trabalhadora. Isso gerou um movimento na cidade e valorizou essas regiões, uma vez que muitas obras foram demolidas e outras com mais requinte foram construídas.

Exemplo disso podem ser visto no cinema. O filme Aquarius (2016), protagonizado pela atriz Sônia Braga, conta a história de Clara, uma viúva de 65 anos que é a última moradora de um prédio localizado nas proximidades da orla da Praia de Boa Viagem, no Recife.

A protagonista se recusa a deixar o prédio, que teve os demais apartamentos comprados por uma construtora, que deseja demoli-lo e construir um projeto mais moderno. O filme está disponível na plataforma de streaming Tele Cine Play.

Como a gentrificação se diferencia da revitalização?

Quando uma praça é revitalizada, não podemos dizer que ocorreu gentrificação (Foto: Pixabay)

Quando uma praça é revitalizada, não podemos dizer que ocorreu gentrificação (Foto: Pixabay)

Gentrificação não pode ser confundida com revitalização. Imagine a seguinte situação: uma praça de uma cidade está deteriorada pelo passar do tempo e as ações da natureza, como a chuva, o sol, os ventos etc.

Para que a população possa seguir usufruindo desse espaço público, o prefeito propõe um projeto para que a praça seja redesenhada, alguns pontos sejam modificados na estrutura e o clima fique mais agradável. Nesse caso, estamos nos referindo a uma revitalização.

Porém, quando as mudanças ocorrem por conta de interesses econômicos e não apenas para usufruto público, ocorre uma gentrificação. É o que acontece com o prédio em que vive a personagem de Sônia Braga em Aquarius.

Se um edifício, condomínio ou até mesmo um bairro todo é modificado para atrair novos compradores e valorizar os preços dos imóveis na região, por exemplo, ocorre a gentrificação.

Em suma, podemos dizer que a revitalização mantém e respeita as características urbanas e culturais dos locais. Já a gentrificação, não necessariamente, uma vez que mudanças profundas podem ser realizadas.

Quais são as consequências que isso traz para cidades e pessoas?

No Vidigal, a favela e os hotéis de luxo compartilham espaço (Foto: Jeff Belmonte)

No Vidigal, a favela e os hotéis de luxo compartilham espaço (Foto: Jeff Belmonte)

Um exemplo de gentrificação ocorreu no Vidigal, bairro localizado na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Até o início desta década, o Morro do Vidigal era uma favela dominada por facções criminosas. A população local vivia em um cenário tenso, no qual o medo tomava conta, devido aos constantes conflitos entre policiais e bandidos.

Essa situação fazia com que o local não fosse bem-visto por comerciantes e turistas. Afinal, todos tinham medo de ir até o Vidigal e se tornarem vítimas das situações controversas que aconteciam lá.

Em 2008, o Governo do Rio de Janeiro, por meio da Secretaria de Estado de Segurança, iniciou um grande projeto de pacificação das favelas — que, na época, foi muito explorado pela mídia.

Territórios que há décadas eram dominados por traficantes e milicianos foram ocupados por Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). O objetivo do programa era fazer com que a população pudesse viver de forma mais tranquila e que os bandidos deixassem os locais.

Foi isso que aconteceu com o Vidigal. Após a pacificação, novos estabelecimentos comerciais tomaram conta do local, como boates, pousadas e hostels, entre outros. Isso fez com que o bairro se tornasse um lugar alternativo na Zona Sul do Rio de Janeiro.

O Vidigal mudou completamente e a bela vista que proporciona para o mar atraiu compradores célebres, movimentando o cenário da arquitetura local. A atriz Cléo Pires, o cantor Otto, o jogador David Beckham e a diva pop Madonna são alguns dos famosos que adquiriram moradias luxuosas na região.

A valorização do local também fez com que o Vidigal servisse de cenário para um clipe da cantora Anitta, que ajudou a divulgar o novo ponto turístico para o mundo.

Assim como acontece com o Vidigal, outras regiões passam por modificações socioculturais, trazendo impactos para as cidades e a população. Apropriando-se das ideias de Antoine Lavoisier, para caracterizar os processos da natureza, podemos dizer que nas cidades e nas civilizações, “nada se perde, mas tudo se transforma”.

Qual o papel dos urbanistas e arquitetos nisso tudo?

Urbanistas e arquitetos são desafiados e encontram uma oportunidade com a gentrificação (Foto: Pixabay)

Urbanistas e arquitetos são desafiados e encontram uma oportunidade com a gentrificação (Foto: Pixabay)

Os urbanistas e arquitetos têm um papel fundamental na gentrificação. Isso porque a arquitetura e o design são elementos presentes em qualquer projeto desse tipo. A ideia não é tornar isso um problema, que faça com que os moradores tenham que deixar as suas casas, mas sim abranger a todos com soluções inovadoras.

O fenômeno da gentrificação torna as áreas mais nobres e traz novos valores às localidades, o que precisa ser incorporado à arquitetura. Além disso, as edificações podem ser feitas de forma estratégica para terem mais luxo e valor agregado, mas sem causar prejuízos para quem já vive em determinada região.

Um imóvel no Vidigal que há cerca de 10 anos era comprado pelo valor de R$ 30 mil hoje custa em média R$ 350 mil. Isso aconteceu por conta da gentrificação, que possibilita um mercado interessante para urbanistas e arquitetos.

A gentrificação é um desafio, mas, ao mesmo tempo, uma oportunidade para urbanistas e arquitetos desenvolverem os seus trabalhos e conquistarem mais espaço. Além disso, o fenômeno não deixa de ser uma tendência para a arquitetura e o design.

E por falar em projetos que causam polêmicas, convidamos vocês para ler o nosso artigo sobre o Palácio Rio Branco, prédio de importância histórica que deve virar um hotel em Salvador.

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