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Museu Nacional de Belas Artes, Santiago do Chile, 2020 / Foto: Helio Moraes (@helinhoramos)

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Está mesmo tudo bem?

14/06/2021

Mesmo em meio ao caos, é constante a sensação de que precisamos dar conta de tudo, afinal, as engrenagens não param e o tempo não espera. Se nós já entramos nessa corrida centenas de anos atrasadas, se cada conquista tem muito esforço nosso e de quem veio antes de nós, sentimos que não dá pra parar de correr. E você, como se sente?

Talvez esse seja nosso texto mais difícil. Longe de exigir horas de pesquisa e estudo, é o reflexo de quase 15 meses em casa, trabalhando, estudando, existindo, vivendo, sobrevivendo. Difícil porque expor nossos limites e fraquezas requer muita coragem, principalmente em um mundo onde mulheres foram criadas para acreditar que devem ser fortes 24h por dia, 07 dias da semana.  Não somos super-heroínas! 

No programa Altas Horas, da Rede Globo, que foi ao ar no dia 17 de abril deste ano, Serginho Groisman tinha como convidado o rapper Emicida que, questionado se estava tudo bem com ele, respondeu: “Eu tô tão bem quanto se pode estar, sendo brasileiro e estando no Brasil em 2021”. E essa frase tem ecoado em nossas mentes desde então, refletindo um sentimento frequente por aqui.

Estamos todos exaustos! 

O Brasil já ultrapassa a marca de 470 mil mortes por Covid-19 e, apesar da existência de várias vacinas, não temos sequer uma data estimada em que uma parcela significativa da população brasileira esteja vacinada e, assim, a pandemia esteja controlada.

Como manter a positividade com tantos sentimentos em conflito? Raiva, medo, tristeza, saudade e desamparo… É difícil demais conciliar todos eles estando ciente da dura realidade, então, tentar se esconder acaba virando uma estratégia para se manter são. 

É possível se esconder de fato? Dá para mergulhar de cabeça no trabalho e fingir que está tudo bem? 

Talvez para algumas pessoas funcione, mas não é o nosso caso. Com toda sensibilidade que um arquiteto precisa ter, fica quase impossível passar por cima de tudo e seguir a vida normalmente. Se arquitetura é sobre pessoas, encontros e ocupação de espaços, onde está tudo aquilo que nos empenhamos em propor?

Não há como fazer arquitetura sem sensibilidade, sem enxergar o próximo, sem se colocar no lugar do outro, não existe arquitetura sem empatia. 

Então a gente sente. 

Sente cada vez que o cliente diz como a vida mudou, cada vez que uma reunião é desmarcada por questões de saúde, quando os planos da obra são adiados pela incerteza do futuro. Sentimos, principalmente, quando é preciso lidar com a doença ou com o luto. 

Por falar em luto, estamos. Se há 15 meses tem sido difícil viver, há 3 meses tem sido difícil sobreviver. Perdemos uma grande amiga! 

Projetar tem sido especialmente exaustivo, pois exige que tenhamos confiança no futuro quando já está complicado lidar com o presente. Seguimos no esforço constante de manter o alto padrão nas entregas, com uma rotina de trabalho, focando na criatividade e na produtividade. Empenhadas para que a arquitetura que desenhamos hoje seja materializada no futuro. 

A conta não fecha! Precisamos nos desconectar da realidade para continuar trabalhando mas, ao mesmo tempo, como é possível criar arquitetura sem entender o contexto? 

Seguimos nos esforçando!

Mesmo em meio ao caos, é constante a sensação de que precisamos dar conta de tudo, afinal, as engrenagens não param e o tempo não espera. Se nós já entramos nessa corrida centenas de anos atrasadas, se cada conquista tem muito esforço nosso e de quem veio antes de nós, sentimos que não dá pra parar de correr. 

Ainda não tivemos muitas chances de parar, tomar um fôlego e processarmos esse turbilhão de sentimentos, mas já compreendemos a importância de estabelecer limites e respeitarmos o nosso tempo. Sem acolher as nossas dores é impossível nos mantermos em frente e honrarmos nossos ancestrais.

Não temos respostas para as perguntas que trouxemos. Por aqui estamos fazendo o possível, vivendo um dia de cada vez. Esperamos que você também! 

Tem sido uma luta, talvez isso explique o cansaço.

Texto em homenagem a Tamara Pires, filha, irmã, amiga, advogada humana e sensível, e demais vítimas da Covid-19. 

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