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Crédito: Pintura “Things Fall Apart (acrílica sobre canva) | Autor: Fahamu Pecou

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Espaço Agô, uma experiência de pensar a arquitetura a partir da perspectiva afro-brasileira

01/11/2021

Neste texto, Gab de Matos escreve sobre como o conceito de Sankofa está presente na essência do seu projeto para a mostra Casa Cor São Paulo 2021. Também destaca alguns elementos importantes no espaço e propõe uma série de reflexões a partir de sua criação.

Sankofa, significa: Sanko = voltar | fa = buscar, trazer, ou seja, trazer para o presente o que ficou esquecido no passado. Resgatar nossas origens.

Este conceito tem origem no conjunto de símbolos chamados de adinkras que são símbolos criados pela comunidade Akan da África Ocidental (Gana, Togo e Costa do Marfim). Povos que foram trazidos para o Brasil pela escravidão e que aqui foram denominados de Povos de Mina, em referência a Costa da Mina, lugar onde está localizada a Fortaleza de São Jorge da Mina, um dos portos mais expressivos no que diz respeito ao sistema de escravidão europeu.

É de Mina também que vieram meus antepassados da parte da minha família materna. Informação que descobri através da pesquisa que desenvolvo a mais 10 anos sobre minha ascendência familiar, e que foi confirmada através de um teste de DNA ancestral a pouco tempo. Mas isso é história para outro texto.

Neste texto escrevo sobre como o conceito de sankofa está presente na essência do Espaço Agô, projeto que criei para a mostra Casa Cor São Paulo 2021.

Recebi com alegria o convite para projetar o Espaço de Boas Vindas da Casa Cor SP 2021. Cheguei a relatar em outro texto publicado no meu perfil no instagram, como a Casa Cor já ocupava um lugar especial na minha memória pois visitei pela primeira vez a mostra em 2012 no Rio de Janeiro. Foi naquela ocasião que eu também conheci pela primeira vez uma obra do Oscar Niemeyer de perto.

Aquela edição da mostra aconteceu na Casa Leonel Miranda, um ícone da arquitetura modernista brasileira projetada por Oscar Niemeyer em 1942. 

Associei a sensação que tive na minha primeira experiência conhecendo uma obra do Niemeyer à Casa Cor e relembrei todas essas sensações no momento do convite e durante todo o processo de desenvolvimento do projeto.

O projeto do Espaço Agô propõe uma reflexão sobre a casa a partir de uma perspectiva afro-brasileira e ameríndia, onde os limites da morada não são definidos pelas paredes e sim pelas relações que temos com o ambiente ao nosso redor, com as pessoas que vivem com a gente e com nós mesmos. 

Criei formas a partir da desconstrução e re-construção de elementos presentes nas arquiteturas que constituem a maior parte das paisagens das cidades brasileiras, convidando o público a experimentar outros modos de ver e fazer arquitetura a partir de diferentes formas de se apropriar do espaço. Todos os elementos que eu trouxe para este projeto, não só estão inseridos e contribuem para composição estética do espaço, mas também constituem o projeto essencialmente.

Espaço Agô
Espaço Agô na Casa Cor SP 2021. Projeto de Gab de Matos desenvolvido por seu Estúdio de Arquitetura – Gab de Matos (Foto: Paulo Pereira / Teia Documenta)

Neste projeto, destaco alguns dos elementos que considero essenciais para a representação da arquitetura afro-brasileira. São eles:

  • os azulejos – 
Espaço Agô
Azulejos: linha Sunset Key West da Portobello (Foto: Paulo Pereira / Teia Documenta)

Os azulejos no espaço Agô referem a arquitetura norte africana e a herança desta arquitetura na arquitetura brasileira, principalmente no nordeste do Brasil.

No projeto, os azulejos ocupam um protagonismo central, pois são responsáveis por revestirem as formas que sugerem novas apropriações do espaço residencial. Um convite às pessoas usarem suas casas da forma que quiserem pois acredito que a nossa casa está ligada intimamente à nossa essência e por isso deve refletir o que somos e como nos relacionamos com nós mesmos e com o mundo. 

Agô
Azulejos: linha Sunset Key West da Portobello (Foto: Paulo Pereira / Teia Documenta)
  • os muxarabis– 

O muxarabi também é um elemento vazado que foi criado no norte africano e que resolve questões de permeabilidade visual de uma forma esteticamente muito interessante. Além de possuírem a qualidade de permitir que uma comunicação seja estabelecida através dos desenhos que compõem esse painel. Esta comunicação através da fachada, seja por pinturas, grades ou muxarabis, também é herança das arquiteturas africanas na arquitetura brasileira.

Os muxarabis do Espaço Agô são assinados por mim e pelo arquiteto Fellipe Brum do Estúdio de Arquitetura Gab de Matos.

 Agô
Projeto de muxabis: Gab de Matos e Fellipe Brum (Foto: Paulo Pereira / Teia Documenta)

  • o barro – 

O barro está presente nas arquiteturas afro-brasileiras tanto enquanto técnica construtiva – vide os adobes, taipas e etc, quanto nos utilitários, nas obras de arte e artesanato possíveis de serem encontrados em todo o território nacional. No nosso espaço estão presentes as peças de cerâmica dos ceramistas Bruno Oler e Rosalva Siqueira.

Agô
Ceramista: Rosalva (Foto: Paulo Pereira / Teia Documenta)

    

Espaço Agô
Ceramista: Bruno Oler (Foto: Paulo Pereira / Teia Documenta)

  • as cores – 

A paleta de cores reflete os elementos da natureza, a água, a terra, o fogo e o ar, e as sensações que temos quando estamos na natureza. O frescor dos azuis, o calor do vermelho. A constatação de que os contrastes podem funcionar juntos e ainda assim trazer uma sensação de harmonia.

O tapete Carta Topográfica da Lola Muller traz essas cores em uma proposição de forma orgânica que me fez lembrar o fluxo das águas do Rio Doce.

Espaço Agô
Cores: Tintas Coral | Tapete: Lola Muller (Foto: Paulo Pereira / Teia Documenta)
  • as formas os arcos e os pórticos

Os arcos e os pórticos estão presentes tanto na arquitetura africana quanto na arquitetura afro brasileira. São apresentados nas mais diversas formas e estão no Espaço Agô celebrando a pluralidade presente nas formas que constituem a paisagem urbana brasileira.

Agô
(Foto: Paulo Pereira / Teia Documenta)
  • as técnicas construtivas – 

O banco de taipa de pilão, técnica construtiva ancestral utilizada em boa parte das edificações da arquitetura colonial brasileira, aqui constroem um banco, que eu chamei de e faz referência a minha origem no Vale do Rio Doce. Além de representar a possibilidade de trazermos técnicas ancestrais à produções contemporâneas. O banco margem de rio também representa o primeiro projeto de mobiliário assinado por mim e executado pela Oficina Colaborativa Bambu.

De uma forma geral, o projeto do Espaço Agô representa a possibilidade de resgatarmos nossas origens, de termos um espaço com muitos significados e ainda assim muito contemporâneo.

A experiência de criar este projeto diz sobre as diversidade de referências que tem permeado minha pesquisa e os meus projetos nos últimos tempos, mas também diz sobre a liberdade de criação. Sobre a criação que escapa dos padrões eurocêntricos e norte americanizados de produção de pensamento e prática, para ganhar outros lugares, lugares que assimilem a arquitetura brasileira a partir da celebração de sua diversidade.

Agô
Projeto do banco: Gab de Matos | Execução do banco: Oficina Colaborativa Bambu (Foto: Paulo Pereira / Teia Documenta)

Todas as referências que mencionei aqui e tantas outras que permearam a criação deste projeto, são passíveis de serem sentidas pela sensação de estar neste ambiente.

A Casa Cor SP ficará aberta até o dia 15 de novembro no estacionamento do Allianz Parque na cidade de São Paulo.

Eu espero que as pessoas visitem esse espaço com tantas referências e que estabeleçam outras conexões e outras referências a partir dele. Pois este é o meu desejo quando crio um projeto: que ele possibilite novas reflexões e outras experiências.

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