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Elegância funcional

03/08/2020

Em pequenos ou grandes espaços, a arquitetura de João Crescente trata de acolher e gerar beleza independente da escala. Seus projetos preferidos são que o tirem da zona de conforto.

João Pedro Crescente ainda não chegou aos 30 anos e já chama a atenção das gerações que o antecederam pela identidade definida nos projetos que assina. Seu estilo limpo, elegante, contemporâneo, marcado pela arquitetura em todas as escalas nos ambientes surpreende e até emociona, como uma declaração de gentileza em 3D. Em pequenos ou grandes espaços, sua arquitetura trata de acolher e gerar beleza independente da escala. Os preferidos de Crescente são os projetos que o tirem da zona de conforto.

Sua maturidade no início da carreira profissional passou pela oportunidade de um estágio no escritório do arquiteto Isay Weinfeld. Ao contemplar um projeto seu, a sensação de fluidez e tranquilidade de uma arquitetura que “fala baixo”, como diz Isay sobre seu próprio trabalho, está presente no DNA pupilo.

Foi uma experiência única e importante na minha formação como arquiteto. Lá aprendi o real sentido do detalhamento minucioso em arquitetura. A elegância vive nos detalhes – diz João Pedro Crescente, ao rememorar o período em 2012 na equipe de Isay Weinfeld.

Interiores assinados por AMBIDESTRO para o Anita Residence, empreendimento da Maiojama em Porto Alegre que ficará pronto no início de 2021

Interiores assinados por AMBIDESTRO para o Anita Residence, empreendimento da Maiojama em Porto Alegre que ficará pronto no início de 2021 (Crédito: Neorama)

Desde sempre Arquitetura 

O jovem co-fundador do escritório AMBIDESTRO é porto-alegrense, tem 29 anos e o primogênito de uma família com quatro filhos: João Pedro, Betina, Arthur e Martina. Desde os tempos de escola, lembra que já tinha foco: “adorava desenhar prédios nas classes da escola”. Espero que a professora tenha percebido que aquilo era a manifestação de talento e não de vandalismo infantil. História e Arte eram as disciplinas que mais interessavam ao guri no colégio e, na faculdade de Arquitetura da UniRitter, as aulas de História da Arquitetura e Desenho encantavam o rapaz, confirmando o seu pendor.

Estudo para o projeto do primeiro edifício, que terá arquitetura e interiores do AMBIDESTRO e Ideia1

Estudo para o projeto do primeiro edifício, que terá arquitetura e interiores do AMBIDESTRO e Ideia1

 Hoje os desenhos de edifícios no colégio são feitos durante a jornada de trabalho: o edifício inaugural está sendo projetado em co-autoria com o escritório Ideia1.

Estamos desenvolvendo nosso primeiro empreendimento imobiliário em Porto Alegre que não só temos a assinatura dos interiores como também da arquitetura de exteriores; tudo amarrado dentro de um mesmo conceito e experiência – revela Crescente, ao dizer que seu foco é o alto padrão, desde residências, apartamentos, escritórios e sedes corporativas.

A sua empresa está vivendo uma fase de amadurecimento conduzida pelo esforço de Crescente, suas sócias e equipe. 

Infelizmente, não tive nenhum arquiteto na família como modelo, mas sempre quis arquitetura desde pequeno; sempre soube que queria fazer arquitetura. Não foi uma decisão difícil, me sinto privilegiado por isso – diz Crescente.

Voltando à sua formação, podemos dizer que a vivência internacional entra para o rol das influências inevitáveis do curioso Crescente, para depois fazer uma arquitetura que desde os primórdios descreve uma espiral crescente, (com o perdão do trocadilho) até chegar a um edifício.

Sempre fui inquieto e, por isso, quis explorar ao máximo as oportunidades durante a faculdade. Consegui entrar na AA School Architectural Association School of Architecture de Londres durante um semestre e logo após ganhei uma bolsa de estudos na TU Universidade Técnica de Viena na Áustria. Descobri o mundo naquela época – ressalta.

Na hora do trabalho de conclusão de curso, o formando do final de 2014 criou o projeto de um retrofit em um prédio garagem existente em frente ao Cais Mauá, na região portuária e central da capital gaúcha. 

Mantive a estrutura original do prédio, dando um novo uso através de um sistema de reforço e encamisamento de pilares, criando assim outro edifício acima do existente, um hotel boutique direcionado para o Guaíba: foi uma experiência muito bacana e enriquecedora, pois tive a oportunidade de experimentar arquitetura em todas as suas escalas – lembra o arquiteto.

Crescente tinha “vários ídolos na época da faculdade”. Ainda estudante, conta que sempre ficou muito impactado pelo trabalho de Mies Van Der Rohe, John Pawson e Isay Weinfeld no Brasil. Atualmente, é “muito fã” do trabalho da dupla Yabu Pushelberg, do israelense Pitsou Kedem e do hotelier Ian Schrager, entre outros.

Diversas experiências de estágio durante a faculdade o fazem acreditar que isso foi muito rico para sua formação. Como já foi mencionado, o estudante teve a oportunidade de trabalhar na equipe de Isay Weinfeld, em São Paulo. E em Porto Alegre, recordo que ele teve uma passagem pelo consolidado escritório de Ronaldo Rezende. 

 Após a formatura, “já estávamos com a AMBIDESTRO engatilhada”, falando de seu escritório que hoje tem três sócios. A escolha por Porto Alegre foi o chamado da cidade natal e também pela visão de que havia “oportunidade de explorar melhor o nicho de mercado”, mas isso não quer dizer que não trabalhem para outras cidades e estados, naturalmente. A maioria dos projetos está concentrada em Porto Alegre e seus arredores, mas São Paulo e Campinas já têm propostas em execução.

Os três sócios – João Pedro Crescente, Raquel Zaffalon e Laís Adib – pensam e têm referenciais de arquitetura muito parecidos, são perfis complementares, conforme Crescente; ele considera que “Laís entrou para equilibrar” (Crédito: Marcelo Donadussi, divulgação)

Os três sócios – João Pedro Crescente, Raquel Zaffalon e Laís Adib – pensam e têm referenciais de arquitetura muito parecidos, são perfis complementares, conforme Crescente; ele considera que “Laís entrou para equilibrar” (Crédito: Marcelo Donadussi, divulgação)

Jornada a três

Eu e minha colega de faculdade Raquel Zaffalon unimos forças e decidimos juntos fundar nosso escritório, AMBIDESTRO. Em busca de uma arquitetura inusitada, com identidade, simples e elegante, plantamos a semente em 2015. Aos poucos, fomos mostrando nosso trabalho e conceito de arquitetura e fomos conquistando o mercado e clientes de diferentes escalas e tipologias. No meio do caminho, apareceu a Laís Adib, que era arquiteta do escritório, e hoje é sócia comigo e com a Raquel – conta Crescente.

A parte da criação/conceituação fica a cargo dos três sócios. Já a coordenação é definida posteriormente entre os arquitetos do time, explica o arquiteto. 

Cama Husk, design de Patricia Urquiola para a grife B&B Italia chama a atenção no dormitório (Crédito: Marcelo Donadussi, divulgação)

Cama Husk, design de Patricia Urquiola para a grife B&B Italia chama a atenção no dormitório (Crédito: Marcelo Donadussi, divulgação)

Nos projetos que coordeno, acabo entrando em todas as etapas de projeto, desde conceituação, atendimento, até detalhamento, acompanhamento e finalização. Sou responsável também pelo setor comercial do escritório, segundo minhas sócias sou o mais “cara de pau” dos três. (risos)

Neste período de quarentena, em que o trabalho remoto virou uma realidade, conseguiram incorporar a mudança no dia a dia com toda a equipe 14 pessoas entre arquitetos, designers, administradores e estagiários. E, mais do que resiliência, no nível pessoal, Crescente considera que a pandemia trouxe “o consumo mais consciente e o valor da natureza em nossas vidas”.

– Somos um time, uma grande família, eu costumo dizer. Tenho muito orgulho de onde chegamos juntos e onde queremos chegar – ressalta o arquiteto.

Entre o que está no seu horizonte como desejo de realizar, Crescente diz que é construir um “complexo hoteleiro”. Naturalmente, dentro da identidade AMBIDESTRO, de criar projetos atemporais: “Pelo menos sempre tento buscar isto (risos)”.

Acredito que cada escritório e profissional tem um diferencial. No nosso caso, acredito que esteja na capacidade de entendermos o que os clientes realmente querem e traduzirmos isto através de uma arquitetura com linguagem leve, elegante e funcional. Rica em detalhes e com identidade dos clientes. Uma arquitetura que fale por si. Vivemos intensamente cada projeto do escritório como se fosse para nós mesmos. A divulgação fica por conta de redes sociais, sites e revistas e, claro, o tradicional boca a boca – admite e, para se inspirar, diz que, observador, está “sempre olhando tudo” ao seu redor: Instagram, revistas, livros e principalmente filmes; acredite ou não.” Admite que ama cinema, mas não tem um filme favorito. No entanto, aprecia muito as obras de Woody Allen.

Arquitetura de interiores de um projeto corporativo deixa evidente a estrutura da edificação (Crédito: Marcelo Donadussi, divulgação)

Arquitetura de interiores de um projeto corporativo deixa evidente a estrutura da edificação (Crédito: Marcelo Donadussi, divulgação)

Arquitetos criativos podem fazer projetos, móveis, objetos. Contudo, mesmo que sejam autossuficientes, ainda assim precisam lançar mão de muitos materiais e produtos do mercado. E, claro, semelhante atrai semelhante. Do mesmo modo, os clientes se sentem atraídos pelos trabalhos de arquitetos com os quais se identificam.

Neste ambiente do projeto corporativo, as luminárias pendentes Ufo, de Fernando Prado para a Lumini, dão um toque de delicadeza à cena (Crédito: Marcelo Donadussi, divulgação)

Neste ambiente do projeto corporativo, as luminárias pendentes Ufo, de Fernando Prado para a Lumini, dão um toque de delicadeza à cena (Crédito: Marcelo Donadussi, divulgação)

 – Adorei a linha nova Ms.Barcelona (inspirada em um dos mestres da arquitetura moderna, Mies van der Rohe, autor da poltrona Barcelona e da frase Menos é Mais) da Portobello. Temos especificado em alguns projetos  Ms. Barcelona Acero e Cristal. É um produto elegante e atemporal. Virou um queridinho no nosso escritório – diz Crescente.

Pessoalmente, como objeto de design, atualmente, está “aficionado pelo abajur Atollo do italiano Vico Magistretti, criado na década de 70”. Na arquitetura, pretende conhecer a Fondation Louis Vuitton, em Paris, e o The Vessel, no Hudson Yards, em Nova York.

Vale reiterar que a experiência com Isay Weinfeld o “marcou por completo: precisa-se pensar nos mínimos detalhes para atingir a excelência”. Hoje, o inspiram “pessoas que amam o que fazem”.

Tenho a sorte de ter clientes/amigos que são verdadeiras inspirações pra mim – conclui Crescente.

Foto de destaque: João Pedro Crescente desde cedo manifestou interesse pela Arquitetura, o que tornou tranquila a escolha pela profissão (Crédito: Fagner Damasceno, divulgação)

 

 

 

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