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Casa Valéria Cirell: saiba o significado desse clássico da arquitetura

Simples, purista e com aspectos naturais que a tornam única, esse projeto de Lina Bo Bardi une ideias e conceitos de forma concreta.

Escondida em meio à vegetação, a Casa Valéria Cirell é um importante exemplar da arquitetura desenvolvida por Lina Bo Bardi. Localizada no bairro Morumbi, na capital paulista, se trata na verdade de um conjunto composto pela casa, projetada em 1958, e um pavilhão próximo, acrescentado em 1964.

A arquiteta ítalo-brasileira projetou poucas construções residenciais — entre elas a mais famosa, Casa de Vidro, e a casa do Chame-chame —, mas aplicou em todas as obras suas crenças e ideias acerca da cultura brasileira e do caráter social da arquitetura, usando elementos naturais, criativos, simples e modernos.

Quer conhecer um pouco mais sobre a obra de Lina Bo Bardi? Confira!

A história da construção

Lina foi responsável por três obras que têm grande valor para a cultura brasileira e para o cenário cultural da cidade de São Paulo. São elas: o MASP — Museu de Arte de São Paulo —, o Teatro Oficina e o SESC Pompeia.

A participação de Lina não se limitou apenas à arquitetura. Naturalizada brasileira em 1951, Lina contribuiu também para a arte e a produção cultural do país. A arquiteta enfrentou muitas dificuldades por ser mulher e estrangeira, mas não deixou de expressar suas opiniões e críticas.

A revista Habitat, criada por Lina e seu esposo, Pietro Maria Bardi, contou com artigos e ensaios que abordavam a cultura brasileira de maneira equilibrada, unindo aspectos eruditos e populares.

Um dos colaboradores da revista era Renato Cirell Czerna, professor de filosofia do curso de Direito da USP. Um dos relatos de Czerna tratava da necessidade que a população mais pobre tinha de realizar serviços de arquitetura mesmo sem conhecimento ou os materiais corretos. A história era de uma casa específica em que a proprietária construiu tudo, dos tijolos à mobília da casa.

Alguns anos depois, Renato e sua mãe, Valéria Cirell, fizeram uma encomenda do projeto residencial para Lina.

Estilo da Casa Valéria Cirell

Toda a ideia por trás da obra foi o resultado da convergência do ponto de vista de Lina, Valéria e Renato, no que se refere à preocupação com os temas socioculturais nacionais.

A casa foi erguida em um terreno com declive e área de aproximadamente 2 mil m². A área construída é de 810 m². É um projeto tido como experimental, nas características do estilo purista — um movimento derivado do Cubismo —, que defendia e apreciava uma purificação de artes, como a pintura e a arquitetura, tirando a influência emocional dos trabalhos.

Na arquitetura, as obras contam com formatos bem definidos e geométricos, porém pouco elaborados e racionais. A casa Valéria Cirell apresenta características que a tornam simples, mas conta com adereços, como a natureza em volta, plantas na própria estrutura, pedras, conchas, móveis e itens de decoração, que a transformam em uma das obras de Lina que aliam as ideias e conceitos ao que é objetivo e concreto.

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Estrutura da casa

A parte da casa é composta por um bloco maior, com dois andares em formato de cubo. No andar inferior, estão a cozinha, a varanda e as salas de estar e jantar, que são integradas. O segundo andar é considerado um mezanino (é como um corte na diagonal do cubo) e contém dois quartos, separados apenas por cortinas.

Os dois pavimentos são ligados por uma escada em formato de caracol (helicoidal), sustentada por um pilar de madeira bruta. No bloco menor, localizado ao lado do maior, estão as dependências de empregada, compostas por um pavimento.

Os dois blocos têm jardins na laje e são contornados por um alpendre de capim-sapê, material rústico e popular utilizado em áreas rurais brasileiras. A preocupação em incluir materiais mais rudimentares aparece também no revestimento interno, bem como na parte externa. Lina faz uso de tijolos de barro, itens de pedra, madeira, argamassa grossa, pintura branca das paredes e cacos de cerâmica, compondo formas não muito regulares.

O pavilhão é a estrutura um pouco afastada da casa, em uma parte inferior do terreno. Foi projetado para ser um atelier e casa de hóspede, nomeado Torraccia. A obra tem formato cilíndrico, com a parte frontal aberta, como recorte — com inspiração nos monumentos antigos —, dando espaço para uma varanda.

Para a construção, Lina aliou técnicas construtivas modernas para a época e, ainda, processos, ferramentas e materiais vernaculares, usados em construções rústicas.

Inspirações

O conceito de “arquitetura pobre” foi desenvolvido por Lina para definir algumas de suas obras e é, basicamente, a escolha de opções diretas e práticas, valorizando os materiais, a natureza e as formas. A simplicidade, a modernidade e a liberdade de criação de Lina são pontos que podem ser grandes inspirações para arquitetos.

O uso da natureza como elemento central — e, ao mesmo tempo, complementar — é um aspecto simples, mas que pode ser muito bem explorado em varandas, jardins e áreas de lazer, por exemplo. Além da pegada estética, plantas e jardins são opções que remetem à sustentabilidade e, aliadas a outras práticas, têm papel fundamental no contexto social.

Além disso, a busca por materiais como a madeira, pedras, aço e vidro de outras obras é um fator interessante que também pode ser aproveitado com facilidade em construções, tanto para decoração quanto para a construção em si.

O tema comum às obras de Lina é a cultura, outro importante elemento que pode servir de inspiração na montagem de ambientes. O uso de peças, itens decorativos e materiais de construção rústicos ou regionais valoriza a beleza do espaço e a própria cultura e identidade do país.

Por fim, as obras de Lina mostram muito mais do que seu valor arquitetônico, são exemplares de uma artista que procurou utilizar suas vivências e suas ideias na construção de residências ou edifícios com valor identitário e cultural. Dessa forma, ela deixou para a arquitetura brasileira e mundial marcos de uma época de mudanças para a arquitetura, abrindo espaço para as mulheres na área.

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