Menu
Projetos e Obras
Busca

Roberto Burle Marx em 1981 (Foto: Wikimedia Commons)

Conteúdo Matérias

Roberto Burle Marx: principal referência do paisagismo brasileiro

02/12/2020

Artista plástico, arquiteto, paisagista e, acima de tudo, pintor, Burle Marx trouxe verde ao cinza das construções urbanas.

O Brasil é repleto de profissionais que conseguiram transformar a visão convencional de arquitetura. No entanto, grande parte das construções do país teve inspiração europeia. Um dos responsáveis por trazer o Brasil para a arquitetura brasileira foi Roberto Burle Marx.

Apesar da bagagem cultural dos seus anos de estudos na Alemanha, Burle Marx se apaixonou pelas árvores e plantas nativas e resolveu usá-las em jardins com formas fluidas, características marcantes em seus trabalhos paisagísticos por toda a vida. 

Neste artigo, você vai saber mais sobre a vida e obra do artista plástico, arquiteto e paisagista Burle Marx. Acompanhe!

História

Fazenda Vargem Grande, em São Paulo (Foto: Daniel Ryan)

Nascido em São Paulo, Roberto Burle Marx (1909–1994) passou grande parte da sua vida no Rio de Janeiro. É no estado fluminense, aliás, que estão as suas maiores obras, embora grande parte delas esteja espalhada pelo mundo. 

Filho de Cecília Burle (da família pernambucana de ascendência francesa Burle Dubeux) e de Wilhelm Marx (judeu alemão), Burle Marx começou a ter contato com a arte ainda muito novo. O amor pelas plantas também veio cedo. Aos sete anos, ele já colecionava as suas primeiras espécies.

Estadia na Alemanha

A Praça Adhemar de Barros, em Águas de Lindoia (SP), tem projeto paisagístico de Burle Marx (Foto: Anpocs)

Aos 19 anos, Burle Marx começou a sofrer com um problema nos olhos que quase custou a sua visão. Para tratá-lo, ele e a família seguiram para a Alemanha, onde ficaram por dois anos. 

Durante a sua estadia no país, Burle Marx estudou desenho no ateliê de Elise Degner Klemn, que apresentou a Roberto uma abundância de eventos culturais. Segundo o artista, “nossas vidas giravam em torno do teatro, dos concertos, da ópera: Wagner, Richard, Strauss… Todo o panorama musical eu conhecia bem”.

A intenção de Wilhelm Marx era de que a sua família tivesse uma base cultural sólida. Para isso, ele contratou uma tutora alemã para dar aulas a Siegfried, o irmão mais novo. No entanto, Eva Busse sentiu uma afinidade especial por Roberto e o apresentou ao teatro, aos museus e às galerias de arte. Ela também o incentivou a ler Os Miseráveis, Madame BovarySalammbô e os clássicos de Dostoiévski nos idiomas originais.

Embora o seu interesse por plantas venha desde a infância, curiosamente foi na Alemanha que ele se apaixonou por espécies nativas brasileiras. Ao visitar o Jardim Botânico local, ficou fascinado por uma estufa reservada exclusivamente para elas.

Volta ao Brasil

Escultura às Iaras, de Alfredo Ceschiatti, no Palácio da Alvorada. Primeiro projeto paisagístico por Yoichi Aikawa e posteriormente por Roberto Burle Marx (Foto: Silene Andrade)a Alvorada

Burle Marx voltou ao Rio de Janeiro em 1930.

No Leme, ele se tornou vizinho de Lúcio Costa, então diretor da Escola Nacional de Belas Artes (hoje chamada Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro). Costa, então, incentivou o jovem artista plástico a se matricular na instituição — local onde ele começou a ter contato com alguns dos futuros grandes nomes da arquitetura brasileira, como Oscar Niemeyer, Hélio Uchôa e Milton Roberto.

Durante os seus anos de estudos, Burle Marx começou a usar referências oriundas do seu tempo na Alemanha, criando arte com plantas nativas. Então, o seu trabalho começou a chamar a atenção do seu professor e vizinho. Em 1932, Costa o convidou para fazer o primeiro projeto de paisagismo da sua carreira: o jardim da família Schwartz. 

Coincidentemente, o governador de Pernambuco na época, Carlos de Lima Cavalcanti, passou pelo jardim da família e ficou impressionado com o que viu. Perguntou quem foi o responsável pelo projeto e ligou pessoalmente para Burle Marx, o convidando para uma entrevista no Copacabana Palace. Assim, o jardim dos Schwartz levou Roberto ao cargo de diretor dos parques de Recife.

Ele se mudou para Recife, e os três jardins municipais que ele projetou posteriormente lhe deram a oportunidade de provar o seu valor. Como muitos jovens designers, ele queria mostrar a amplitude de seu conhecimento. Na Praça Euclides da Cunha, por exemplo, ele criou um jardim de cactos que não precisava de muita irrigação.

Além da Euclides, Burle Marx também foi responsável pela Praça de Casa Forte, a Praça do Derby (1936), o conjunto Praça da República e Jardim do Palácio do Campo das Princesas (1936), a Praça Ministro Salgado Filho (1957) e a Praça Faria Neves (1958) — todas consideradas patrimônio cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

As suas referências vieram da revista de jardinagem alemã Gartenschönheit, de algumas espécies brasileiras e do parque de Dois Irmãos, em Recife — fugindo da tradição de jardins europeus, algo comum no Brasil naquela época.

Burle Marx permaneceu em Recife de 1934 a 1937, quando retornou ao Rio de Janeiro. No entanto, durante esse período, ele viajou com frequência à capital fluminense para ter aulas com Candido Portinari e com o escritor Mário de Andrade no Instituto de Arte da Universidade do Distrito Federal. 

A volta triunfal ao Rio

Os jardins do Aterro do Flamengo estão entre as obras mais importantes do paisagista (Foto: Rubi Rolf)

Os jardins projetados para o prédio do Ministério da Educação e Saúde, em 1938, renderam a Burle Marx aclamação mundial. Considerado até hoje um dos melhores exemplos da arquitetura moderna do Brasil, o trabalho foi uma colaboração entre um grupo de jovens arquitetos brasileiros liderados por Lúcio Costa (incluindo Oscar Niemeyer) que tinha Le Corbusier como consultor.

Os jardins do telhado de Burle Marx empregavam plantações tropicais de forma sinuosa. Esse estilo, com plantações em grande escala e uso de cores e texturas contrastantes, permaneceu com Burle Marx por toda a sua vida, embora ele tenha diminuído o número de plantas e adotado formas mais geométricas em trabalhos posteriores.

Walter Gropius declarou que gostava dos jardins de Burle Marx, mas não conseguia entender os seus planos. Feitos em guache, eles eram cuidadosamente pintados no escritório e mostravam a justaposição dos vários elementos por meio da cor e da composição. Em média, um plano levava cerca de duas semanas para colorir e, por isso, eram produzidos apenas para exposições e publicações.

Parceria

A Praça dos Cristais, em Brasília, é uma parceria entre Roberto Burle Marx e o seu assistente Haruyoshi Ono (Foto: Guillermo Arévalo Aucahuasi)

Embora o seu interesse por plantas nativas venha dos dias na Alemanha, foi a sua colaboração com o botânico e colecionador de plantas Henrique Lahmeyer de Mello Barreto que o fez crescer como arquiteto paisagista.

Como Mello Barreto se interessava pelo estudo das plantas em seu habitat, ele foi o parceiro ideal. Burle Marx não pensava nas plantas apenas para trabalho, mas estudava as relações das espécies entre si e com o meio ambiente.

Os dois participaram de muitas expedições de caça a plantas no interior do Brasil, principalmente na década de 1940.

Estilo Burle Marx

Padrões do Calçadão de Copacabana desenhados por Burle Marx (Foto: MauMach75)

Burle Marx se considerava, acima de tudo, um pintor — e isso é perceptível em seu trabalho, que elevou o paisagismo ao status de obra de arte.

As formas sinuosas de seu trabalho levaram o traço livre de uma pincelada descompromissada para as plantas nativas, que são as cores da tela abstrata em plantas baixas.

O seu trabalho foi muito importante para definir a arquitetura moderna brasileira, já que recebia influência de movimentos vanguardistas, como a arte abstrata, o concretismo e o construtivismo. 

Um período marcante para o paisagista foi o final da década de 1930. Com a sua experiência em Recife e as aulas com Portinari e Mário de Andrade, a sua obra paisagística se integrava à arquitetura moderna.

Prêmios e títulos

  • Prêmio de Arquitetura de Paisagem na 2ª Exposição Internacional de Arquitetura (1953);
  • Título de Cavaleiro da Ordem da Coroa da Bélgica (1959);
  • Diploma de Honra, em Paris (1959);
  • Medalha Santos Dumont, do governo brasileiro (1963);
  • Medalha de Belas Artes do Instituto Americano de Arquitetos, em Washington (1965);
  • Comenda da Ordem do Rio Branco do Itamaraty, em Brasília (1971);
  • Título de doutor honoris causa do Royal College of Art, em Londres (1982);
  • Título de doutor honoris causa da Academia Real de Belas Artes de Haia, na Holanda (1982);
  • Homenagem da escola de samba Independentes de Cordovil, no Rio de Janeiro (1988).

Desde 2009, no início de agosto é celebrada a Semana Burle Marx em Recife.

Obras

Parque del Este, em Caracas, na Venezuela (Foto: Paolo Costa Baldi)

Sozinho ou em colaboração com outros arquitetos, como Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, Burle Marx criou ou projetou:

  • Jardim da família Schwartz, no Rio de Janeiro (1932);
  • Praças e jardins públicos, em Recife, Pernambuco (1934-37);
  • Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro (1935);
  • Parque Ecológico do Recife, em Recife, Pernambuco (1937);
  • Azulejos do hall de entrada do Edifício Prudência, em Higienópolis, São Paulo (1944);
  • Fazenda Marambaia, em Petrópolis, Rio de Janeiro (1948);
  • Parque Generalíssimo Francisco de Miranda, em Caracas, Venezuela (1950);
  • Cidade Universitária da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro (1953);
  • Jardim do Aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, Minas Gerais (1953);
  • Balneário Municipal de Águas de Lindoia, em São Paulo (1954);
  • Parque do Ibirapuera, em São Paulo (1954);
  • Fazenda Tacaruna, em Pedro do Rio, Rio de Janeiro (1954);
  • Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, no Rio de Janeiro (1955);
  • Paisagismo do Eixo Monumental, em Brasília (1960);
  • Praça da Cidadania da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, Santa Catarina (1960);
  • Parque del Este, em Caracas, Venezuela (1961);
  • Aterro do Flamengo — Patrimônio Mundial da Humanidade na categoria “Paisagem Cultural Urbana“, título concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 2012 (1965);
  • Paço Municipal de Santo André, em Santo André, São Paulo (1965);
  • Embaixada do Brasil, em Washington, Estados Unidos (1968);
  • Palácio Karnak, em Teresina, Piauí (1970);
  • Aterro da Bahia Sul, em Florianópolis, Santa Catarina (1971);
  • Calçadão da Praia de Copacabana (na extensão da Avenida Atlântica), no Rio de Janeiro (1971);
  • Fazenda Vargem Grande, em Areias, São Paulo (1979);
  • Parque Ipanema, em Ipatinga, Minas Gerais (1990);
  • Biscayne Boulevard, em Miami, Estados Unidos (1991);
  • Cascade Garden, em Longwood Gardens, Estados Unidos (1992).

Mas, como dito, ele era antes de tudo um pintor. Alguns de seus quadros são:

  • Estrada de Ferro (1938);
  • Fuzileiro Naval (1938);
  • Composição nº16 (1970);
  • Sem Título (1973);
  • Sumaré (1986);
  • Mundo Novo (1986);
  • Clambônia (1986);
  • Canângula III (1987);
  • Clambélia II (1987);
  • Itaituba (1987);
  • Girândola (1987);
  • Lili (1987);
  • Favela (1991).

Entendeu um pouco melhor a trajetória de Burle Marx? Um dos maiores nomes da arquitetura modernista no Brasil, ele trabalhou com diversos outros expoentes do segmento. Então, conheça agora a vida e obra de Oscar Niemeyer!

Foto de destaque: Roberto Burle Marx em 1981 (Foto: Wikimedia Commons)

Nenhum comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *