29.04.2019
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Arte moldada

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29.04.2019
A técnica da cerâmica vem sendo refinada ao longo dos últimos anos como expressão de uma arte tradicional que lentamente transformou o oleiro de um artesão anônimo em um verdadeiro artista.
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Utilizando processos que são, em essência, tão antigos quanto a relação humana com a argila queimada, a ceramista Sara Flynn, nascida na Irlanda, usa sua expertise em porcelana e argila para moldar formas orgânicas, e suas escolhas são determinadas em igual medida pela intuição tátil e por um processo intelectual de análise e eliminação.

Conhecida por seus potes com texturas sedutoras e tratamentos de superfície, que conferem ao trabalho complexidade táctil e sofisticação visual, foi finalista do prestigioso Loewe Craft Prize em 2017, jurada do mesmo prêmio em 2018, e será mais uma vez jurada em 2019.

Foto: Glenn Norwood/Cortesia de Sara Flynn

Para muitos artistas como ela, a criação de um objeto está totalmente ligada ao domínio da técnica, principalmente quando se trata da manipulação da argila, um material que pode surpreender na queima e durante outras etapas do processo, mesmo quando se tem prática em manipular, cortar e remontar.

“Não lutar contra as surpresas é fundamental. O material pode muitas vezes sugerir e levar a ideias, se eu estiver aberta para ouvir. Mas para mim é muito importante aprender completamente a técnica para que o resultado não seja aleatório e acidental. Preciso ter certeza de que a forma está resolvida. Se o material está totalmente no controle, o resultado não é verdadeiro pra mim. O equilíbrio entre abraçar a serenidade e ainda assim manter a forma fiel a minha visão é delicado”, explica a ceramista.

Sara Flynn, em uma exposição em Londres (Foto: Andy Stagg. Cortesia de Erskine Hall & Coe)

Todo o trabalho é queimado a 1280 ° centígrados, oferecendo uma grande variedade de cores e acabamentos com esmaltes aplicados de forma refinada e elegante. Assim como Flynn, muitos desses profissionais combinam o expressionismo figurativo da escultura com as nuances da cerâmica, expondo seus objetos em galerias de arte moderna e contemporânea.

Aqui a ceramista fala sobre processos, mestres, influências e a paixão pelo material.

ENTREVISTA SARA FLYNN 

  1. Você sempre quis ser uma ceramista? Quando foi que despertou para essa forma de arte?

Eu entrei na faculdade de arte, em 1988, com o plano de me tornar pintora. No curso fundamental fui apresentada à argila e fiquei instantaneamente encantada. (Eu teria dado uma pintora terrível, a propósito).

  1. Houve alguma influência no início de sua carreira? Algum grande ceramista a influenciou particularmente?

Desde o início fui atraída pelas formas de Hans Coper. Ele era um mestre em combinar forma, volume e superfícies para fazer uma única peça coesa. Eu também amo o trabalho de Lucie Rie – suas peças esmaltadas são incríveis – mas Coper é o meu favorito.

Foto: Andy Stagg. Cortesia de Erskine Hall & Coe
  1. Você trabalhou com algum ceramista antes de se lançar em carreira solo? Com quem gostaria de ter trabalhado?

Eu nunca fui aprendiz ou trabalhei com outros ceramistas. Teria sido ótimo, já que muitas vezes penso que teria sido mais fácil encontrar o meu caminho e o meu trabalho poderia ter progredido mais rápido se não fosse pela falta de conhecimento para resolver problemas técnicos. Mas, dito isso, a solidão e a falta de influência me permitiram encontrar minha própria voz e agora eu não apenas amo como preciso trabalhar sozinha. Mas eu adoraria ter trabalhado com Lisa Hammond, por exemplo. Ela é uma ceramista incrível, rica em habilidades e conhecimento. Ela fundou a Adopt a Potter (uma espécie de residência para ceramistas) e se eu tivesse mais tempo, teria adorado passar por essa experiência quando estava começando.

  1. A arte da cerâmica nunca esteve tão em alta como nos últimos tempos. Tudo que é artesanal e original ganhou um espaço imenso. Isso ajudou a impulsionar o seu trabalho? 

Com certeza. Não há dúvida de que o interesse maior da imprensa, artigos interessantes, exposições criativas e inesperadas (como Disobedient Bodies: JW Anderson Curates, exposição montada em 2017, que misturou artesanato, moda e arte para romper com os limites tradicionais) geraram mais interesse pelo meu trabalho – e por artesanato/cerâmica em geral.

  1. A cerâmica japonesa exerce grande influencia nos artistas da cerâmica ao redor do mundo. Existe algum artista japonês contemporâneo que você aprecia em especial?

Eu adoro o trabalho de Takeshi Yasuda e Shozo Michikawa.

Foto: Lewis Roland. Cortesia de Loewe Craft Prize
  1. Você prefere trabalhar a porcelana em vez da cerâmica ou depende do projeto? 

Cerâmica é um termo que se refere à argila queimada acima de 600 graus e quimicamente modificada e eu não quero separar a porcelana dessa definição. Para mim, é simplesmente uma argila que é rica em conteúdo de vidro. Continua a ser essencialmente barro. Os diferentes corpos de argila são simplesmente compostos de vários graus de argila e vidro e, portanto, capazes de coisas diferentes. A porcelana pode ter um ar esnobe – como se fosse melhor do que outra argila. Eu não concordo com esta teoria. Na minha opinião, o importante é que o ceramista use o processo apropriado para as formas que deseja fazer; a porcelana faz isso por mim, por enquanto. Com ela consigo bordas bonitas e definição precisa. É também uma bela tela branca que pode ser uma base para uma impressionante gama de cores.

  1. Você já sabe de antemão a forma que vai criar ou a forma nasce espontaneamente durante o trabalho?

Meu processo é guiado pelo material. Posso começar com uma ideia de forma, e o material sugerirá, em algum momento, uma mudança de direção. É uma ótima maneira de trabalhar.

  1. Sendo finalista do prestigioso prêmio Loewe Craft Prize em 2017, e agora fazendo parte da equipe de jurados, você constatou um aumento no número de artistas ceramistas nos últimos anos?

A adesão à cerâmica é enorme – em todos os países. É um ofício tão antigo e uma área tão ampla como meio de expressão. Com profundas raízes em tantas culturas, não é de surpreender que tenha um apelo tão abrangente e que seja praticado de forma tão ampla. Este ano, vimos um aumento nas inscrições de todas as categorias, e com a cerâmica não foi diferente. Sou uma grande defensora do Loewe Craft Prize. Ele usa a palavra “Craft” sem cerimônia, o que é maravilhoso. Não há dúvida em minha mente de que o público agora vê o artesanato e objetos artesanais com um olhar novo. O prêmio estabeleceu padrões elevados e, pelo que tenho visto, a International Craft Community está aproveitando a oportunidade e o desafio em todas as disciplinas. É absolutamente maravilhoso fazer parte dessa história de ambos os lados do processo.

Foto: Glenn Norwood/Cortesia de Sara Flynn
  1. Você conhece algum ceramista brasileiro?

Adoro o trabalho de Carina Ciscato, que agora está em Londres. Ela tem um jeito bonito de abordar processos e materiais e é uma artesã altamente qualificada – além de trabalhar de forma consistente e ser verdadeiramente dedicada ao seu ofício.

  1. Alguma exposição em breve?

Este ano vou expor pela primeira vez no Japão. A exposição acontecerá na Gallery Spkyo, em Kyoto, em setembro (datas exatas a serem confirmadas).  É uma oportunidade incrível de ser apresentado a um novo público e atualmente estou imersa na criação de novas peças. É um grande e extremamente excitante desafio.

Foto: Lewis Roland. Cortesia de Loewe Craft Prize

SARA FLYNN - Biografia

Sara Flynn nasceu em Cork, na Irlanda, em 1971, e estudou design de cerâmica no Crawford College of Art and Design, em 1992, retornando em 1998 para completar sua graduação. Foi durante o seu primeiro ano de estudos que começou a trabalhar com porcelana, produzindo vasos decorativos esculturais.

Seu trabalho é destaque em muitas coleções públicas e privadas internacionais, incluindo as coleções da Embaixada da Irlanda na Austrália, Espanha, Holanda e China, o Museu Nacional da Irlanda em Dublin e a coleção de arte da Columbus State University na Geórgia, EUA. Ela foi pré-selecionada para a edição inaugural do prêmio Loewe Craft Prize, em 2017, membro do painel de especialistas para o prêmio em 2018 e será novamente em 2019.

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Clarissa Schneider
Colunista
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Formada em Belas Artes e Propaganda e Marketing, Clarissa trabalhou como redatora e diretora...

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