Menu
Projetos e Obras
Busca

Conteúdo Entrevistas

Arquitetura solidária

12/08/2020

É muito bonito ver o resultado da combinação de décor e arquitetura com solidariedade literalmente construtiva. Assim vejo o trabalho dos Arquitetos Voluntários. Movidos primeiro pela compaixão, essa onda mobilizada por Daniela Giffoni, surgida de um Hackathon para combater o Covid-19, cria um horizonte de atuação permanente em hospitais e postos de saúde em várias cidades gaúchas em áreas para cuidar de quem cuida, os profissionais da área médica.

“Espaços de descompressão” é o nome de batismo dado pelos Arquitetos Voluntários capitaneados por Daniela Giffoni para designar ambientes projetados para atender à necessidade de um local de descanso nas longas jornadas dos médicos, enfermeiros e atendentes detectada pelos próprios profissionais e pelos hospitais. Antes do volume de atendimentos e do nível de estresse dos profissionais de saúde em geral causados pelo Covid-19, não era tão evidente a necessidade de equipar um espaço para os profissionais. A importância de se refazerem do trabalho contínuo com estruturas para dormir, lanchar e se sentirem “abraçados” pelo conforto de breves intervalos tornou-se vital para eles. Estarem alertas no cuidado consigo mesmos e com os pacientes também depende do ambiente que dispõem para descansar. 

A idealizadora do movimento Arquitetos Voluntários, Daniela Giffoni, com as mentoras Aline Fuhrmeister, Karen Feldman e Erika Listo na frente do Hospital de Clínicas, a primeira obra entregue (da E para a D na foto) - (Crédito: Lenara Petenuzzo, divulgação)

A idealizadora do movimento Arquitetos Voluntários, Daniela Giffoni, com as mentoras Aline Fuhrmeister, Karen Feldman e Erika Listo na frente do Hospital de Clínicas, a primeira obra entregue (da E para a D na foto) – (Crédito: Lenara Petenuzzo, divulgação)

Hoje, há cerca de 70 profissionais voluntários da área de arquitetura, engenharia e interiores para atender às demandas efêmeras e definitivas de hospitais, Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e postos de saúde com ações previstas, em andamento ou já realizadas em Porto Alegre, Canoas, Novo Hamburgo e Caxias do Sul. Em quatro meses, entregaram sete trabalhos e, no momento, os Arquitetos Voluntários trabalham em mais oito ações. 

As obras variam: há algumas que envolvem desde alvenaria até a adição de contêiner na edificação e adequação do interior dos prédios, com pintura, revestimentos e mobiliário adequado. Algumas ações duram menos de um mês. Materiais de revestimento e mobiliário têm de ser apropriados para higienização e aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Considerando que são ambientes de descanso para os profissionais e não salas cirúrgicas, ainda é possível, por exemplo, utilizar rejuntes no piso. Entre os materiais de fácil limpeza estão melaminas, aço inox, vidro, couro artificial, acrílico, plásticos em geral e porcelanato. Muitos estofados, para serem doados, tiveram que ser revestidos dos materiais adequados à assepsia necessária. Lojistas e marcas adotaram a causa e tornam realidade a execução de projetos que compatibilizam as condições existentes e as necessidades urgentes. São aprendizados que, muitos deles, podem refletir nas especificações futuras de profissionais envolvidos com a construção de espaços. O foco voltado à limpeza em geral e em particular na dos acessos das pessoas nos lugares públicos e privados é uma questão primordial relativa às superfícies e estruturas de apoio à higienização.

Peças de design pontuam os espaços, apesar de todas as normas às quais os materiais têm que se adaptar. Este ambiente é no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (Crédito: Clovis de Souza Prates, divulgação)

Peças de design pontuam os espaços, apesar de todas as normas às quais os materiais têm que se adaptar. Este ambiente é no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (Crédito: Clovis de Souza Prates, divulgação)

Mas sonhar é preciso. O uso de cadeiras de design junto com móveis funcionais e mais simples são harmonizados com elementos que remetem à beleza e à natureza em particular. Isso por meio de obras de arte de artistas voluntários que participam do projeto. Imagine um médico estressado pela perda de um paciente, abatido, sozinho consigo mesmo, longe de casa, em um momento de intervalo nas longas jornadas de luta por vidas postas à prova. Quando olha para as cores do ambiente, uma peça de design instigante ou para uma imagem que os transporta para uma memória afetiva positiva ou para a beleza de um lugar imaginário tem um momento especial de cura da tristeza.

Roberta Edelweiss, Daniela Giffoni, Cintia Martin e Cecilia Pozza no Hospital Universitário de Canoas, Região Metropolitana de Porto Alegre (Crédito: Arquivo Pessoal)

Roberta Edelweiss, Daniela Giffoni, Cintia Martin e Cecilia Pozza no Hospital Universitário de Canoas, Região Metropolitana de Porto Alegre (Crédito: Arquivo Pessoal)

Na parede, a pintura em aquarela da artista e designer Mariana Prestes contracena em harmonia com o mobiliário e a paisagem do entorno, colorindo os momentos de descompressão dos profissionais de saúde (Crédito: Arquivo Pessoal)

Na parede, a pintura em aquarela da artista e designer Mariana Prestes contracena em harmonia com o mobiliário e a paisagem do entorno, colorindo os momentos de descompressão dos profissionais de saúde (Crédito: arquivo pessoal)

Na linha de frente

Sempre falo da enorme força que arquitetos, engenheiros e decoradores têm no mercado para movimentar as vendas e, por consequência, a economia. Mas agora vejo além, com uma admiração sem tamanho por profissionais que doam tempo, energia e têm coragem de ajudar os outros em um momento em que sair do mundo virtual requer coragem. Quando recebi um WhatsApp da arquiteta Daniela Giffoni pedindo ajuda para o que ainda era uma ideia, imediatamente disparei a mensagem para arquitetas próximas, principalmente para o grupo autodenominado Milanesas, e grande parte delas, como muitas outras, se engajaram na ação. 

Tal como fez comigo, Daniela espalhou para toda a sua rede de contatos a vontade de tomar uma atitude prática. “A primeira pessoa que procurei foi a colega Erika Listo, que tem experiência em arquitetura hospitalar”, conforme relembra a formação do primeiro grupo composto ainda por Felipe Helfer, Bianca Russo, Marcelo Minuscoli, Karen Feldman e Aline Fuhrmeister. Esses viraram coordenadores e chamaram outros que formaram a rede atual de mais de 60 arquitetos e 12 coordenadores que passaram ou estão ativos no projeto, gente que nunca havia trabalhado junto. 

“O que nos uniu foi a vontade de ajudar hospitais e postos de saúde”, ressalta Daniela que, no primeiro momento, com o grupo já montado, ainda não sabia qual seria a primeira ação e nem como seria posta em prática, mas a disposição moveria tudo a favor dos Arquitetos Voluntários. A arquiteta conta onde estava o embrião do que hoje tende a se consolidar como uma atividade permanente dos arquitetos gaúchos que vão onde a necessidade está.

– Tudo surgiu quando precisei cancelar uma viagem a Portugal por causa da pandemia. Ainda não tinha chegado no Brasil, mas na Europa inteira já estavam iniciando os fechamentos de fronteiras. Desisti da viagem e, ao mesmo tempo, deparei com um problema sobre o qual precisava fazer alguma coisa para ajudar. Mas como um arquiteto atuaria em uma crise como esta? Eu e meu marido trabalhamos com empresas de inovação na área da saúde. Ao mesmo tempo que o Paulo (Paulo Beck, empresário) montou pela empresa dele um Hackathon de ideação para combater o Covid-19, eu também pensava em montar um grupo para fazer algo novo e participar deste Hackathon com alguma ideia voltada à arquitetura – relata.

Daniela lembra que muitos outros colegas entraram em contato para participar. Assim, a realidade do Covid-19 chegou e o grupo já estava pronto para agir. O primeiro grupo montado atuou na ação do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA). 

No ano passado, meu escritório tinha desenvolvido o projeto do centro de inovação e tecnologia do Hospital, portanto estavam tratando com uma pessoa confiável e conhecida. Sempre falo que mais difícil que oferecer ajuda é aceitar essa ajuda: é muita responsabilidade aceitar uma ação de voluntariado de um coletivo ainda desconhecido – acrescenta

Uma legião de lojistas, voluntários e todo tipo de e doadores surgiram a partir do “incrível poder que temos em conectar as pessoas em prol de uma causa”, como relata a arquiteta, emocionada em contar com parceiros de trabalho que vão além da relação profissional. Lembra que diversas vezes de emocionou ao telefone após longas conversas com pessoas que pouco conhecia, mas que “agora parecem melhores amigos”. Além de arquitetos, engenheiros, profissionais de interiores e lojistas, há empresários, fotógrafos, artistas, assessores de imprensa, advogados e cinegrafistas engajados na causa que vai transcender o período de pandemia.

A partir da primeira ação entregue, sentimos que tínhamos muita força e propósito para seguir adiante. Cada participante deste primeiro grupo foi convidado a ser coordenador de sua própria ação e convidar arquitetos de sua confiança para compor a sua equipe – conta

Está no ar uma vaquinha virtual, que ajuda a arrecadar valores para comprar o que não for possível conseguir por meio das doações.

Toda ajuda é bem-vinda e, quanto mais doações, mais hospitais poderemos atender. O que mais precisamos são revestimentos de piso (porcelanato ou vinílico), torneiras cotovelo, bancadas de inox, poltronas e sofás em tecidos facto ou courino, cadeiras higienizáveis, colchões, beliches e marcenaria – diz.

O retorno é garantido. Em gratidão. Já é possível sentir o efeito sobre os profissionais carentes de conforto para se recuperarem de turnos de trabalho mais pesado no aspecto emocional que no físico.

Eles se sentem abraçados e acolhidos. Recebemos mensagens, fotos, postagens agradecendo o nosso carinho. No atual momento são nossos heróis e estão totalmente focados em cuidar dos pacientes. Mas quem cuida deles? Nós estamos fazendo a nossa parte criando ambientes humanizados e confortantes. Trazemos arte, cor, conforto, design e principalmente tornamos o ambiente seguro e reconfortante para estes profissionais que estão na linha de frente – conta.

Daniela lembra que, no início dos efeitos da pandemia no Brasil, ela praticamente trabalhava o dia todo. Isso incluía os finais de semana. Hoje, com os voluntários “mais maduros e organizados”, a jornada da arquiteta com as ações fica em três horas diárias. Daniela já voltou a trabalhar com diversos projetos de arquitetura de interiores e corporativa com todos os cuidados requeridos pelo momento, claro. Fora isso, a sorridente Daniela curte arrumar o seu espaço. Ainda tem pouco tempo sobrando, mas diz que adora ”deixar a casa acolhedora para curtir com a família e os pets”.

Foto de destaque: A solução dos Arquitetos Voluntários para criar uma área de descanso para os profissionais no Hospital Ernesto Dornelles, em Porto Alegre, foi acoplar um contêiner ao prédio. O artista urbano Lucas Anão Vernieri criou uma obra de street art na fachada com inspiração no trabalho dos heróis da saúde (Crédito: Yuri Panichi)

Nenhum comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *