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Ilustração: Anderson Miguel

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Por uma arquitetura sem muros

21/12/2020

Voc√™ j√° parou para pensar em quantos arquitetos negros voc√™ conhece? Nos √ļltimos meses, os Decornautas, em parceria com a editora e ativista Ana Paula de Assis, vem mapeando grandes pranchetas brasileiras que driblam o racismo estrutural em diversos setores, inclusive na inesgot√°vel ind√ļstria do design.

Sem tempo para ler? Que tal OUVIR esse texto?

No que tange √†s constru√ß√Ķes, o Modernismo no Brasil come√ßa oficialmente na d√©cada de 1920 quando, ainda no processo digestivo da antropof√°gica Semana de 22, Gregori Warchavchik regurgitou sua Casa da Rua Santa Cruz, em SP ‚Äď a primeira resid√™ncia moderna da Am√©rica Latina. 150 anos antes, com Tebas (Joaquim Pinto de Oliveira) ‚Äď sim, o primeiro arquiteto nacional foi um escravizado ‚Äď os colonizadores europeus j√° se valiam de saberes e t√©cnicas ancestrais dos africanos, que disseminaram nas Am√©ricas seus conhecimentos milenares sobre o manuseio de pedras e metais. Assim fica evidente que quando Niemeyer, um dos precursores do concreto armado, erigiu o improv√°vel em marcos que seriam modernos para sempre, ele estava olhando para muito al√©m da sinuosidade lecorbusiana ‚Äď o mestre mirou sistemas vernaculares ‚Äúherdados‚ÄĚ das etnias inaugurais, civiliza√ß√Ķes que tiveram suas trajet√≥rias interrompidas e apagadas.

De volta ao presente, Empatia e Lugar de Fala s√£o ‚Äúlogradouros‚ÄĚ equidistantes entre si. O Privil√©gio e a Falta de Equidade, tamb√©m. Mas em 2020, ano da orquestra√ß√£o do inveross√≠mil e do flerte com o Apocalipse, nenhum oposto se confundiu tanto quanto Consci√™ncia e Demagogia. Filtrar √© preciso. Uma das principais bandeiras do nosso trabalho, como jornalistas brancos dentro de uma reda√ß√£o que prega a diversidade, √© o antirracismo, para muito al√©m de estampar uma celebridade negra na capa da revista de vez em quando ‚Äď recentemente fomos premiados por trabalhos realizados com as divas Elza Soares e Iza, por exemplo. Mas para al√©m de qualquer apelo midi√°tico que o momento possa insinuar como oportunismo, o posicionamento precisa acontecer de dentro para fora, cotidianamente ‚Äď e n√£o me refiro a trabalhar ouvindo Aretha Franklin e Marvin Gaye e achar que isso √© pluralidade. Os projetos gr√°ficos mais expressivos que lan√ßamos nos √ļltimos 10 anos para o circuito do Design & Lifestyle, quase que invariavelmente, foram encabe√ßados por profissionais negros ‚Äď o diretor de arte Jos√© Renato Maia, criador das identidades visuais de POP-SE e Decornautas, a editora-chefe Ana Paula de Assis, e a produtora-executiva Adriana Oliveira. Mesmo com esse entendimento sobre o racismo estrutural e com li√ß√Ķes di√°rias aprendidas com profissionais que est√£o entre os mais brilhantes na nossa √°rea, rar√≠ssimas vezes conseguimos prestigiar arquitetos negros em nossos ve√≠culos, dada a invisibilidade que o mercado insiste em lhes imbuir (status em parte desencadeado pela enorme dificuldade de penetra√ß√£o em mais um campo elitizado). Que bom observar que, pela primeira vez, come√ßamos a vislumbrar uma abertura real no meio de tanto lobby. Nos √ļltimos 10 meses, em parceria com a mesma Ana Paula, que tamb√©m √© uma das articuladoras do novo projeto ‚ÄúFala das Pretas‚ÄĚ (ao lado de Lilian Santos e Paula Marinho), mapeamos 100 arquitetos talentos√≠ssimos que relatam obst√°culos/desvantagens/discrimina√ß√Ķes/retalia√ß√Ķes estratosf√©ricas. ‚ÄúPrecisamos criar um manifesto arquitet√īnico e social do nosso tempo, considerando nossas dores e nossas quest√Ķes‚ÄĚ, diz a fluminense Larissa Paiva. ‚ÄúComo arquiteta, nordestina e negra, precisei estudar o dobro, demonstrar qualidade em dobro e me impor em dobro‚ÄĚ, conta a maranhense Bianca Tereza. Onde est√£o todos eles? Dando um show de compet√™ncia e resist√™ncia, bem aqui, debaixo dos nossos narizes. Mas a gente n√£o enxerga. Nos habituamos √† normatiza√ß√£o da exclus√£o, √†s vistas grossas com a apropria√ß√£o cultural (a arquitetura, afinal, muito mais do que a moda, toma partido da produ√ß√£o √©tnica numa dilui√ß√£o muitas vezes descontextualizada e predat√≥ria de s√≠mbolos chamados ‚Äúex√≥ticos‚ÄĚ em abordagens gilbertofreyrianas, mesmo antes do Niemeyer que abre nosso text√£o). Se a culpa √© desse sistema, √© nossa tamb√©m, j√° que somos engrenagens dele. Mais do que uma s√©rie, essa percep√ß√£o sobre as conex√Ķes entre Arquitetura e Racismo √© uma nova atitude. √Č a obriga√ß√£o leg√≠tima da inclus√£o.

Visibilidade aos talentos negros j√°!

Ilustração: Anderson Miguel

Por Allex Colontonio e André Rodrigues

Decornautas - @decornautas

Jornalistas e diretores criativos que est√£o entre os mais respeitados do Pa√≠s, Allex Colontonio e Andr√© Rodrigues comp√Ķem, juntos, uma usina de conte√ļdo exclusivo em design, arquitetura, d√©cor, arte e lifestyle. Entre 2016 e 2018, seu apartamento estampou a capa de importantes revistas mundiais, como a alem√£ AW Architektur & Wohnen e a americana Design View, al√©m de ter sido publicado em ve√≠culos de enorme reverbera√ß√£o como Elle, Architectural Digest, jornais como O Globo e em programas de televis√£o. Acabam de lan√ßar sua nova revista-artsy, a POP-SE, e o Art Book Decornautas.

Al√©m das palestras sobre estilo e tend√™ncias, que prefere chamar de narrativas, o duo entrega projetos visuais que v√£o de pe√ßas gr√°ficas (livros, revistas, fanzines, ensaios fotogr√°ficos, campanhas publicit√°rias) a ambientes (mostras, consultorias para marcas e profissionais de arquitetura), passando por espet√°culos de enorme impacto midi√°tico ‚Äď Allex est√° produzindo no momento o novo DVD de uma grande estrela da MPB, por exemplo.

Aliás, ele, que em 2017 dirigiu a área cultural do Memorial da América Latina e desenhou o espetáculo de reabertura de seu legendário auditório considerado obra-prima de Oscar Niemeyer (o concerto Jazz & Divas), criou a revista Wish Casa após 10 anos como um dos cabeças da Casa Vogue. Reinseriu a revista Kaza no mapa com projeto editorial inovador e voltou a sacudir o circuito com a premiada revista GIZ. Também responde pelos livros de nomes incensados da arquitetura, que vão de Guilherme Torres a
Sig Bergamin, e cuida do branding da Artefacto.

Ap√≥s colaborar com ve√≠culos como Vogue e Jornal do Brasil, Andr√© Rodrigues criou um dos mais expressivos sites de moda do Pa√≠s, o ffw. Tamb√©m √© co-idealizador da revista mag! e comandou as revistas Joyce Pascowitch, Modo de Vida e L'Officiel. No design, dirigiu KAZA e GIZ, e assina as revistas da Artefacto e o jornal-artsy da Micasa, o Manipresto, al√©m de colaborar com publica√ß√Ķes customizadas de marcas como Melissa. Junto com Allex, tamb√©m responde por uma das contas de Instagram mais prestigiadas do segmento no Pa√≠s, com drops di√°rios de estilo: @Decornautas

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