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Arata Isozaki, a cara do Pritzker

06/05/2019

Sétimo japonês a receber a maior honraria mundial da arquitetura, aos 88 anos, Arata Isozaki é a personificação do modo de pensar do júri do Prêmio Pritzker, unificando diferentes pontos de vista em um trabalho sólido, mas ao mesmo tempo escultural e orgânico.

Não foi dessa vez que vimos mais um brasileiro ser agraciado pelo Prêmio Pritzker, a maior honraria entre todas as premiações de arquitetura ao redor do globo. Listei recentemente aqueles que poderiam ser nossos representantes futuros na premiação, em um ensaio bastante pessoal que pode ser revisitado aqui. No início deste ano, o site Archdaily publicou uma enquete sobre quem seria merecedor da honraria e a brasileira Carla Juaçaba figurou em primeiro lugar, à frente de nomes como BIG, Smiljan Radic, David Chipperfield, Sou Fujimoto, Aires Mateus e diversos outros gigantes da produção arquitetônica mundial.

Mas neste ano a láurea máxima não foi para nenhum brasileiro, tampouco para os nomes listados na referida enquete. No início de março, Arata Isozaki foi o sétimo profissional japonês a receber o prêmio, unindo-se a Kenzo Tange (1987), Fumihiko Maki (1993), Kazuyo Sejima e Ryūe Nishizawa (2010), Toyo Ito (2013) e Shigeru Ban (2014).

Um dos principais nomes da arquitetura japonesa no século 20, Isozaki possui mais de 100 obras edificadas no Japão e em países da Europa e da América, incluindo museus, bibliotecas e instalações esportivas, sendo também reconhecido como planejador urbano e teórico da arquitetura, incluindo a atividade de professor visitante em importantes instituições norte-americanas de ensino.

Qatar National Convention Center, em Doha (2011). Fachadas orgânicas e esculturais (Hisao Susuki/Divulgação)

Não há um norte ou diretriz claros para que o júri faça suas escolhas. Além da oficial justificativa de contribuição para a humanidade e para o ambiente construído, já foram premiados profissionais pela colaboração com o debate arquitetônico, por trabalho humanitário ou por seu papel social. Isozaki, de certa forma, reúne todas essas características em seus mais de 100 trabalhos.

Isozaki tinha 14 anos quando Hiroshima e Nagasaki foram bombardeadas e afirma que devido a esse episódio sua primeira experiência foi com a “arquitetura do vazio” – em referência às ruínas nos territórios atingidos. Na busca por caminhos para a reconstrução política, social e cultural do Japão pós-Segunda Guerra, Isokazi diz ter crescido com a ideia de que os edifícios deveriam ser transitórios – e isso reflete-se em sua obra, que não possui aspectos formais únicos.

Nessa linha, em 2013, numa parceria com o artista Anish Kapoor, projetou o primeiro espaço de eventos inflável do mundo. A estrutura móvel, batizada de Ark Nova, era formada por uma membrana translúcida, que poderia ser montada em apenas duas horas. A estrutura foi formatada para transmitir esperança a uma região com constantes ações de terremotos e tsunamis. Uma tradução literal do conceito budista da impermanência.

Ark Nova, obra desenvolvida com o artista Anish Kapoor. Um manifesto à impermanência (Iwan Baan/Divulgação)

Em adição às características marcantes de sua obra, o júri do Pritzker destacou seu protagonismo ao forjar um relacionamento profundo e duradouro entre Oriente e Ocidente. Foi o primeiro japonês a trabalhar em projetos fora de seu país, com o Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles (1986) e o Edifício Team Disney, na Flórida (1991).

Disse o júri que “Arata Isozaki é conhecido como um arquiteto versátil, influente e verdadeiramente internacional. (…) Dono de um vasto conhecimento de história e teoria da arquitetura, e abraçando a vanguarda, ele nunca apenas replicou o status quo, mas o desafiou. (…) O que é evidentemente claro é que ele não segue tendências, mas segue seu próprio caminho”.

Nara Centennial Hall, Japão, 1998 (Hisao Susuki/Divulgação)

 

Shanghai Symphony Hall, 2014 (Chen Hao/Divulgação)

Essa característica fundamental de mudança e olhar atento ao efêmero e impermanente, pode ser resumida por uma de suas famosas frases: “A mudança se tornou constante. Paradoxalmente, isso veio a ser meu próprio estilo”.

Vencedor de outras premiações emblemáticas  como o Riba, em 1986, e o Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura em Veneza, em 1996, Arata Isozaki é, portanto, merecedor da homenagem. Em 2010, tive o prazer de ouvi-lo em palestra realizada durante o World Architecture Festival (WAF), à época realizado em Barcelona. Na ocasião, ele desafiou a classe ao dizer que sua maior inspiração vinha de Antoni Gaudí, um autodidata, e dos ideogramas japoneses. Essa mistura pode ser vista, por exemplo, na obra do Himalayas Art Center, em Shangai.

Himalayas Art Center, em Shanghai, 2010: mistura de Gaudí com ideogramas japoneses (divulgação)

Detalhe da fachada do Himalayas Art Center, em Shanghai, inspirada pelos ideogramas japoneses

Desconfio que justamente a atitude contestadora de Isozaki possa ter sido a força motora da decisão do júri em 2019. Nos deleitemos, então, com sua obra, enquanto aguardamos os próximos sinais emitidos pela premiação da Fundação Hyatt.

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