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Intuição e sutileza

22/01/2020

Conheça o trabalho e trajetória de Antonio Bernardo, renomado designer de joias carioca.

O designer de joias Antonio Bernardo recebeu o Archtrends em seu atelier no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, numa tarde de muito calor em 27 de dezembro. Eu, jornalista convidada para entrevistá-lo, fiquei surpresa da empresa estar funcionando em plena época de recesso. Mas todos trabalhavam intensamente. “Não me considero um carioca típico, vou pouco à praia, sou branquinho, não sou surfista”, diz Antonio.

O Rio de Janeiro, no entanto, se manifesta em seu trabalho, com linhas orgânicas, despretensiosas e sensuais. Pelo menos nos olhos dessa paulista que aqui escreve. Antonio discorda: “Você acha óbvio que eu sou do Rio? Eu não penso nisso. Nunca tive intenção que minha joia tivesse esse aspecto. Mas eu vivo nessa cidade, sempre vivi, então estou sujeito a todas as influências dela”. 

Da janela de seu escritório, no topo de um edifício comercial, é possível enxergar a Lagoa Rodrigo de Freitas e os morros verdes que a cercam. No parapeito, fica uma galeria de exposição de protótipos. Ao lado, a bancada de trabalho com ferramentas de joalheria. “Eu não desenho. Eu gosto de trabalhar no tridimensional. O desenho é a representação do tridimensional no bidimensional. Em vez de criar no bidimensional pensando no tridimensional, eu prefiro já criar no tridimensional e depois a gente põe no papel. Sempre foi assim. A minha criação começa na banca”, explica.

antonio bernardo

Primeiro Anel com diamante, de Antonio Bernardo

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Primeiro Anel, a primeira criação de Antonio Bernardo, é componível

A intimidade com as ferramentas vem da infância. Seu pai comandava uma empresa de comércio de ferramentas para ourives e relojoeiros. “Essa é uma área especializada das ferramentas, na maior parte das vezes, importadas da Suíça e da Alemanha. As ferramentas são todas pequenas, podemos dizer até bonitas. Desde garoto eu conheço isso tudo”, relembra. Outros aspectos desse universo o encantavam. “A carta de uma empresa suíça era um tratado de design. Uma vez me surpreendi com uma empresa que alinhou tudo pela direita, quando o tradicional era pela esquerda. E eu pensava, como pode, será que faz sentido? Eu adorava me fazer essas perguntas.”

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Anel Atmos com Quartzo Fumê, ilustra o fascínio de Antonio Bernardo com o universo

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Anel Sideral, de Antonio Bernardo

Seu interesse era tanto pela arte e design dos relógios e joias, como pelo seu funcionamento. Por isso, escolheu fazer faculdade engenharia mecânica na PUC-Rio. Seu pai almejava que Antonio o sucedesse na empresa. Então o presenteou, por ter passado no concorrido vestibular com 19 anos, com uma viagem para a Suíça. Por um ano, ele estudou francês e administração na área de peças para relógios. Também fez estágios em fabricantes de peças para relógios e no maior distribuidor de peças para relógios do mundo.

De volta ao Brasil depois dessa incrível experiência, a faculdade não lhe despertou muito interesse. Um pouco desmotivado, seguiu trabalhando meio período na empresa de seu pai. “Um dia eu desenhei um anel. Fiz um esboço muito básico e entreguei para um dos clientes da loja, que era meu conhecido e tinha uma pequena oficina. Depois ele me trouxe o anel e eu me encantei pelo resultado, achei muito legal. Imediatamente já pensei num outro, como se fosse um aperfeiçoamento do primeiro. Assim comecei, posso dizer, por acaso”, conta Antonio.

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Brinco Caribe, de Antonio Bernardo

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Pulseira Percurso, de Antonio Bernardo

O ano era 1969 – em 2019 Antonio comemorou 50 anos de carreira. O modernismo estava em seu auge no Brasil e as pessoas se interessavam por arquitetura, mobiliário e, por que não, joias modernas. “Meu trabalho teve aceitação. Teve no começo e tem até hoje. Eu sempre fico fascinado com isso. Quando eu fiz a primeira joia, por que eu tive coragem de mostrar para alguém? Eu achava que ela tinha alguma coisa de interessante, de diferente, de original. Comecei a desenvolver meu trabalho dessa maneira, sempre procurando algo de novo, de inesperado.”

O sucesso levou Antonio a seguir na carreira de designer de joias. Sete anos depois, no entanto, ele se sentiu inseguro. “Eu tinha largado a faculdade, não estudei outra coisa, não me formei, não sabia fazer joias, dependia de terceiros. Eu fazia esboços das joias e acompanhava a execução nas joalherias”, relembra. Porém, ao dirigir a fabricação das joias ele, sem perceber, estava aprendendo o ofício. Um dia, tomou coragem, comprou uma banca, as próprias ferramentas e começou a fazer. Logo tomou prazer e desenvolveu habilidade no ofício.

“Aí o meu trabalho deu um salto qualitativo. Eu estava efetivamente trabalhando na joia. Quando você lida com o material, acontecem várias coisas. Ele te sugere coisas, você sugere coisas para ele. É quase como se fosse um diálogo. O meu processo de criação é totalmente experimental. Eu não tinha muita técnica, então minha joia não podia ser muito complexa. Mas eu gostava das coisas simples que eu fazia. E isso virou o meu traço.”

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Brinco Kioto ilustra a simplicidade do design de Antonio Bernardo

Um exemplo de simplicidade é o brinco Kioto, um fio de ouro que faz uma curva. Antonio conta que chegou a se questionar se era um design simples ou simplista. “Quando você cria, não tem muita noção do que é, principalmente pelo método experimental. Depois que ficou pronto eu analisei por que eu gostava daquela forma. É porque o olhar tem que percorrer o brinco, fazer o caminho da linha no espaço. Aí eu descobri que essa linha tem velocidade, tem aceleração”, conta.

A criação intuitiva, que gera um design sutil, se tornou marca de seu trabalho. “Eu não estudei joalheria, aprendi de ver. Então eu tive muita liberdade para escolher o caminho que eu queria. Quando se estuda, muitas vezes se é guiado numa direção”, reflete Antonio. Sem seguir padrões pré-estabelecidos, o designer cria joias autorais, que levavam sua assinatura. “A joia de autor tem origem, vai ter algum significado para quem compra, além do valor do material. Não é arte pura, é arte aplicada, mas pode-se dizer que é uma escultura. Dependendo do autor, pode representar uma coisa ou outra”, acredita.

O trabalho autoral de Antonio Bernardo lhe rendeu reconhecimento, uma empresa com 60 funcionários, lojas com seu nome nas principais cidades do Brasil e convites para atuar em outras áreas. Entre as parcerias, se destacam a Luminária 360 para a Lumini, em 2011, e o edifício residencial Timóteo, em fase de finalização no Rio. Novas cocriações com arquitetura serão reveladas em breve, enquanto o trabalho de joalheria segue firme e forte, sempre com o lançamento de novos produtos e linhas e a manutenção de designs que já se tornaram clássicos.

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Luminária 360, parceria de Antonio Bernardo com a Lumini

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Antonio Bernardo desenhou a fachada do edifício residencial Timóteo, no Rio de Janeiro. As varandas de alumínio são irregulares, gerando movimento

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