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Américas e suas realidades no foco do Congresso UIA2020RIO

26/02/2020

“O Brasil é hoje o epicentro de todo o contexto latino-americano”. Em entrevista ao Archtrends, arquiteto Roberto Simon fala sobre o congresso mundial que acontece pela primeira vez no Brasil e aponta a importância de olharmos para a periferia e de trazer as Américas do Sul, Central e Caribe para o centro dos debates.

O desafio: pensar e debater soluções para as cidades do mundo numa perspectiva abrangente. O cenário: uma cidade diversa, que diz não aos guetos e personifica a mistura de experiências populares e sofisticadas. O time: plural e internacional de arquitetos e urbanistas. O evento: 27º Congresso Mundial de Arquitetos UIA 2020 RIO, que acontece pela primeira vez no Brasil, em julho deste ano, quebrando um jejum de 42 anos sem acontecer na América Latina.

Para falar sobre o assunto, entrevistamos o arquiteto Roberto Simon, vice-presidente para as Américas da União Internacional de Arquitetos (UIA) – ele é o terceiro brasileiro a ocupar um cargo na direção executiva da entidade, os outros foram Jaime Lerner (presidente 2002/2005) e Miguel Pereira (vice-presidente das Américas entre 1999 e 2002). 

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Os conselheiros da UIA na entrada do Pier Mauá, no Rio de Janeiro (Crédito: Divulgação/UIA)

 Nesta entrevista, Simon fala sobre dois pontos fundamentais com a realização do congresso no Rio: o olhar para a periferia e a importância de trazer as Américas do Sul, Central e Caribe, e suas diferentes realidades, para o centro das discussões. O arquiteto, que é o segundo vice-presidente do Congresso Mundial, integrando o comitê de Fiscalização e Controle, discorre também sobre a luta para transformar o Rio de Janeiro na Capital Mundial da Arquitetura, e os temas urgentes que devem ser abordados como arquitetura social e novos arranjos profissionais numa realidade nacional de 170 mil arquitetos aproximadamente com perspectiva de mais 150 mil que irão se formar daqui há 5 anos. Qual a mudança de rota? O próprio arquiteto fala sobre o seu caminho neste cenário de transformação.

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Esa Mohamed, ex-presidente da UIA, e Thomas Vonier, atual presidente da UIA, em visita ao Pier Mauá, com o Museu do Amanhã ao fundo (Crédito: Divulgação/UIA)

Carioca radicado em Florianópolis, Roberto Simon é formado na Universidade Federal do Paraná, com mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina. Em 2020, celebra 20 anos de suas atividades associativas, tendo começado como presidente do IAB/SC, depois conselheiro federal do CAU/SC, e a participação mais de uma vez no Conselho da UIA e de várias comissões da entidade internacional – a UIA atualmente está presente em 138 países, dos cinco continentes, representando cerca de 3.200.000 profissionais. A UIA é ainda órgão consultivo da UNESCO para assuntos relativos ao habitat e à qualidade do espaço construído.   

Eixos temáticos

Com o tema Todos os mundos. Um só mundo. Arquitetura 21, o RIO2020 UIA é o maior evento global de arquitetura e urbanismo, que acontecerá entre 19 e 23 de julho, no Rio de Janeiro, tendo como espaço principal a Marina da Glória com a Arena Todos os Mundos e a Feira Mundial. As inscrições estão abertas no site https://uia2020rio.archi/index.asp O próximo Congresso acontece em Copenhague, na Dinamarca, em 2023. 

Os quatro eixos temáticos definidos pretendem refletir a diversidade cultural, econômica e arquitetônica e vão guiar os debates e palestras da programação.  São eles: Diversidade e Mistura; Mudanças e Emergência; Fragilidades e Desigualdades e Transitoriedades e Fluxos.  O Comitê Científico do UIA2020RIO é composto pelos arquitetos, Bete França, Margareth Pereira, Ruth Verde Zein, Thiago de Andrade, Zeca Brandão e Vinícius Andrade. 

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Arquiteto Roberto Simon, vice-presidente para as Américas da União Internacional de Arquitetos (UIA) e integrante do comitê organizador do congresso (Crédito – Divulgação/acervo do arquiteto)

Archtrends – Simon, situa a relevância do Congresso Mundial de Arquitetos?

Roberto Simon – É o maior evento, ocorre desde 1948, organizado pela UIA. Vem sofrendo transformações decorrentes da própria dinâmica global com fóruns entre os congressos e outras atividades para acelerar a profissão, porque hoje a cada 3 anos já ocorreram mudanças significativas. É a primeira vez que acontece no Brasil, é gigantesco e expressa o pensamento da arquitetura do planeta, ou, pelo menos, do planeta mais ativo que são por volta de 135 países e territórios envolvidos. Isso significa 85% do PIB mundial, parece estranho falar assim, mas é onde as coisas acontecem, onde circulam mais recursos, etc., são desses lugares que virão as maiores contribuições e irão elevar muito o nível do congresso. 

Por outro lado, temos dificuldades inerentes a esse tipo de operação pelo fato de envolver muita gente de dentro e fora do país, além de pops stars da arquitetura, a possibilidade dessas pessoas virem por si só torna o momento formidável para a profissão e para nosso país. É um gol para a América Latina, porque a América do Norte está mais sólida em suas bases econômicas, já sediaram o congresso, nós sempre atravessamos as crises, num sobe e desce, e não é uma questão brasileira, é da América Latina. Por isso, me parece extraordinário! O Brasil é hoje o epicentro de todo o contexto latino-americano, todos nós precisamos discutir matérias que são muito ligadas as nossas semelhantes realidades, sejam sociais, econômicas e, obviamente, tudo isso repercute na arquitetura, no que nós fazemos, na nossa produção. Sofrer uma leitura local e internacional em um contexto extremamente rico em diversidade e nessa escala, isso nunca aconteceu, o praxe global é olhar demasiadamente para a Europa que se encontra muito pronta. 

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Praça Mauá, no Rio de Janeiro, um dos locais onde acontecerá o Congresso UIA2020RIO (Crédito: Divulgação/UIA)

Archtrends – A realização do Congresso no Rio quebra um jejum de 42 anos, será um desafio e tanto sob vários aspectos e um aprendizado sob a perspectiva da diversidade, das experiências variadas em relação a própria arquitetura, ora sofisticada, ora popular. O mundo tem interesse em conhecer o Rio, sua mistura e riqueza arquitetônica? O que o Rio e o Brasil têm a ensinar aos estrangeiros? 

Roberto Simon – O Rio de Janeiro é o nosso melhor exemplo dos dois extremos, é um laboratório aberto, nós temos o que há de socialmente mais problemático e de socialmente melhor resolvido, do mais sofisticado ao popular. Mais do que ver contrastes, o que nos move é a possibilidade de construirmos nesse tempo um efetivo e consequente debate sobre a arquitetura e o urbanismo em nosso país. Então, não diria ensinar como você colocou, mas trocar com os nossos colegas de outras partes do mundo, tornando-se elemento da maior importância na atenção ao mercado de trabalho nacional que atravessa, como de resto o próprio Brasil, momento extremamente delicado e de duração, com período longo de recuperação. Independentemente de termos países superdesenvolvidos como a Dinamarca, tendo Copenhagen como sede do próximo congresso, naturalmente pelo estagio que se encontram, tem seus olhos voltados para situações que ainda estamos distantes de atingir, entretanto certamente ao compartilhar esse espaço de discussão terão muito a contribuir, citando só um exemplo.

Hoje temos aproximadamente 800 projetos apresentados pré-qualificados para o Congresso, o mundo todo tem o interesse de conhecer e discutir a nossa miscelânea e riqueza arquitetônica. O mundo cada vez mais precisa da mistura, ao invés da hegemonia, e de evitar os guetos do isolamento, sejam de que ordem forem. Olhar também para o continente africano, para boa parte do Leste Europeu, assim como a Ásia, que dispara nas questões ligadas a tecnologia. É um caldo bacana!

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Paulo Mendes da Rocha, Presidente do Comitê de Honra do UIA2020RIO, o arquiteto é um dos destaques da extensa programação de eventos de arquitetura que o Rio de Janeiro receberá em 2020. Entre os prêmios, acumula o Pritzker, Leão de Ouro da Bienal de Veneza, Medalha de Ouro Real do Royal Institute of British Architects (Riba), Prêmio Imperial do Japão e Prêmio Mies van der Rohe (Crédito: RIBA/UIA)

Archtrends – O lema geral é Todos os mundos. Um só mundo. Arquitetura 21 diz muito sobre o momento que vivemos, e os quatro eixos temáticos procuram sistematizar, de certa forma, os debates contemporâneos e seus reflexos nos campos da arquitetura e do urbanismo.

Roberto Simon – Dentro desses quatro eixos que aparentemente definem a linha de ação do congresso, na minha opinião, cabe quase tudo do pensamento e da atividade humana, e cada um deles se desdobra em outros e invariavelmente ligado a arquitetura e urbanismo. Com o tema proposto para o Congresso, Todos os Mundos. Um só mundo. Arquitetura 21, reconhecemos as experiências distintas e, ao mesmo tempo, as necessidades de se compreender o mundo em sua integridade. Dá para destacar algumas das questões a serem abordadas como êxodo e migração no eixo “Transitoriedades e Fluxos” ou “Mudanças e Emergência”, mas tantas outras irão surgir como deixam claro os mais de 800 trabalhos apresentados. 

Não podemos nos esquecer de destacar que outro enorme desafio é de transformar, de fato, o Rio na Capital Mundial da Arquitetura. Isso é uma grande novidade e uma enorme conquista não só para o Rio, mas para o Brasil. As cidades que sediarem o Congresso Mundial serão também designadas pela UNESCO como Capital Mundial da Arquitetura. Com esse título, as cidades se responsabilizam em promover uma série de eventos relacionados às questões urbanas, durante todo o ano em que se realizará o Congresso.

Foi uma longa jornada junto a UNESCO para que fosse entendido e instituído o título. Já existia a capital mundial do design, por que não a da arquitetura?

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A UIA2020RIO Expo irá acontecer no coração do Porto Maravilha, em uma área de 40 mil m². Quatro armazéns no Píer Mauá receberão o congresso e a feira em que empresas apresentarão ao público as novidades e inovações em materiais e equipamentos para arquitetura, mobilidade urbana, mobiliário e inovação (Crédito: Divulgação/UIA)

Voltando aos eixos temáticos, uma das questões urgentes é a habitação social, qual a abordagem deste problema no eixo “Fragilidades e Desigualdades”?

Roberto Simon – Nós temos que olhar para a periferia, nós, por razões diversas, não assistimos adequadamente esse tema tão aos nossos olhos. A arquitetura monumental sempre atraiu muito a profissão, hoje corremos para entender e atender o lado socialmente menos privilegiado. A arquitetura e o urbanismo devem ser, literalmente, para todos. Nossas instituições profissionais têm discutido muito e trazido à tona essa carência de nos envolvermos profundamente nessa área, resposta que tem vindo através do programa de Assistência Técnica de Habitação de Interesse Social (Athis). 

Arrisco a dizer que o olhar para esse tema vai ser muito forte, porque esteve muito tempo na gaveta em projetos mal resolvidos por bancos de desenvolvimento, no passado, e, mais recentemente, pelo Minha Casa Minha Vida, que amontoou gente em edificações e prédio onde não têm lazer, comércio, trabalho. No fundo, mudou a casca, mas não mudaram as possibilidades. 

A proposta do tema do Congresso também estará centrado no papel da Arquitetura tendo presente a realidade urbana do mundo contemporâneo, onde se expressam a diversidade e a multiplicidade das formas urbanas e dos modos de produção das cidades. Cidades múltiplas, cheias de contrastes, de possibilidades, de desigualdades e de acertos. São muitos os mundos urbanos a exigir atenção específica, para a qual a arquitetura, em sua ampla dimensão, tem responsabilidade jamais exagerada. 

 

Archtrends – Houve um distanciamento entre a arquitetura e a sociedade, o Congresso vai promover essa reaproximação?

Roberto Simon – Com certeza tivemos distante, mas nos últimos anos vem crescendo dentro das nossas organizações o olhar para isso, e se já olhávamos no passado, olhávamos sem grandes possibilidades de intervenção. Hoje temos em nosso conselho recursos destinados para a questão social, não para resolver o problema, porque quem deve de direito resolver esta situação é o Estado, no entanto quem pode e tem que discutir somos nós, nós temos que colocar o bloco na rua.  Diria mais, além de entender, tão importante quanto é o de estender para a participação multidisciplinar. São as diferenças sociais que criam os maiores problemas do planeta. Esse tópico é certamente dos mais importantes, portanto, se tivermos juízo, devemos assumi-lo como um dos principais.  

Das minhas reflexões, fruto dessas andanças por aí, vejo que os jovens estão mudando firmemente. Esses jovens com 17 a 25 anos estão mais voltados para o ser do que para o ter, e na medida que você verifica essa virada começa a perceber que teremos que ter alternativas diferentes no futuro. E isso muda tudo. Vai mudar o real estate, dentro de 20 anos as pessoas não vão mais querer ter a casa ou o carro, em alguns lugares é quase uma realidade como em Israel.

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Museu do Amanhã (Crédito: Divulgação/UIA)

Archtrends – São os novos valores e arranjos profissionais que certamente vão fazer parte dos debates do UIA2020. E como o arquiteto Simon se coloca dentro deste panorama?

Roberto Simon – Eu tenho um amigo que diz “Simon essas tuas reflexões não são fruto da tua inteligência, mas porque és viajadinho”. Brincadeiras à parte, o fato de ter tido a oportunidade de caminhar por um pedaço significativo do mundo, vem me ajudando a aprimorar as reflexões a respeito da vida e da profissão. Sou grato aos colegas arquitetos que me propiciaram a chance de representá-los durante quase um quarto de século -, me permitiu observar a transformação e, ao ver, sempre busquei melhores resultados, seja na política profissional como também no ofício que nunca abandonei. Percebi que precisava deixar de fazer só projetos e caminhei para a construção, incorporação, estruturação de negócios. Hoje a situação caminha para um rearranjo nos processos que envolvem a atividade profissional, penso que inovar na profissão será mexer nos processos que a acompanham a mais de um século! 

Somos hoje mais de 170 mil arquitetos, sendo que 150 mil estão nas escolas de arquitetura, seremos 320 mil dentro de 5 anos, nesse tempo teremos algo como 200 mil nas escolas, que hoje são 800 no país! 

Desses 170 mil temos algo como 110 mil jovens arquitetos, a maioria está em subemprego, ou sem o que fazer, ou vai para outra atividade. Dessa diferença temos 30 mil seniors, que tem um currículo maravilhoso, uma produção fantástica ao longo da vida, esses estão afastados em sua maioria pela tecnologia em constante mutação, ou ainda dependentes da complexidade da quarta revolução industrial, e, por fim, temos uma faixa entre os seniors e os jovens que tem escritórios atuantes, mas com 20% a 50% de ócio, o que não é uma situação desejável.

Inovar é mexer no processo. Penso que isso deva ocorrer em momento não muito distante de agora, envolverá startups, relacionamentos, credibilidade, mobilidade, mas principalmente estar presente em diversos lugares em um mundo que vai abandonando suas fronteiras. A globalização é inexorável, é nesse contexto que me encontro, imerso nessas reflexões busco com a velocidade necessária o “modus operandi” do novo modelo.

Por fim, voltando ao congresso nosso foco, quando nos perguntamos que legado um congresso deste porte deixará, não apenas para a cidade, mas para o Brasil, em especial. Um aprofundamento da reflexão sobre o planejamento do país, da ocupação do território brasileiro, da cidade e de sua arquitetura. Tem tudo para ser uma grande mobilização, que nos ajudará a colocar na pauta política a questão urbana, para melhor enfrentar problemas como mobilidade, saneamento e habitação.

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Foto de destaque: Designação do Rio como Capital Mundial da Arquitetura, na sede da UNESCO, em Paris, janeiro de 2019 (Crédito: Divulgação/UIA)

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