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Afrofuturismo, Christian Benimana

Rwanda Office of Mass Design Group, com projetos do tipo (Foto: Deezen)

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Afrofuturismo: tecnologia e ancestralidade na arquitetura

18/11/2020

Conheça o afrofuturismo, movimento que une o passado ancestral a uma visão e estética de futuro, com o negro como protagonista!

Valorizar o passado e projetar o futuro. Assim pode ser resumido de forma bem simples o afrofuturismo. Um movimento que já existia antes mesmo de ter um nome propriamente dito e que, depois que ganhou um, conquistou ainda mais presença e adeptos no mundo. E, em uma expansão por diversas áreas, do cinema à música, o conceito também marca o seu espaço na arquitetura.

É possível entender a cultura negra por meio de histórias e símbolos futuristas, que conversam até com outras dimensões e planetas distantes? Se você acha isso improvável, o afrofuturismo prova que dá. Ele mostra os usos e costumes de um povo e, além disso, o insere como protagonista de narrativas por caminhos nada convencionais.

Viaje a outros mundos para entender a ancestralidade e a posição do negro diante de séculos de história nas artes e ciências. Esse é o afrofuturismo — e neste artigo, você vai descobrir tudo sobre ele!

O que é o afrofuturismo?

Colocar à frente uma parcela da população que foi desprezada em inúmeras histórias. Mostrar as figuras-chave de uma etnia que é protagonista em diversos campos. Trazer o negro por meio de contos ficcionais.

Tudo isso e mais uma série de características formam o afrofuturismo, um movimento que alia a ancestralidade e a tecnologia.

Afrofuturismo, imagem
O movimento pode ser considerado um encontro inusitado, fruto de uma diáspora africana que não acontece por forças brutas. É um conceito que dá a liberdade de se pensar o negro e levá-lo à ação nas mais variadas áreas (Foto: Victor Hugo Barreto)

Nas histórias em que o negro é o personagem principal, entra o autor negro, que também se posiciona na realidade como protagonista de sua história.

Consequentemente, surge a outra característica essencial que incorpora o afrofuturismo, que é a afrocentricidade.

Ou seja, é um movimento feito para dar lugar aos negros, que conta histórias de ficção futurista pela ótica deles.

Como o afrofuturismo surgiu?

O afrofuturismo não tem uma data fixa de surgimento, mas começou a dar as suas primeiras expressões de vida nos anos 1960, impulsionado pela cultura beatnik.

Esse movimento, conhecido por escritores como Allen Ginsberg e Jack Kerouac, também tinha um pé na cultura afro. Ou seja, era a premissa para dar forma ao que viria a seguir.

O pioneiro Sun Ra

O pioneiro do afrofuturismo foi o poeta, músico e autointitulado filósofo cósmico Sun Ra, um artista de múltiplos talentos, que deu a cara e o corpo do movimento.

Afrofuturismo, Sun Ra
Sun Ra se vestia com roupas longas em estilo tribal, dreadlocks e adereços ancestrais; munido de instrumentos avançados, trazia à luz o conceito afrofuturista (Foto: Monkeybuzz)

O livro que deu o nome ao conceito

Contudo, mesmo com o expoente Sun Ra conhecido mundialmente, o movimento só ganhou esse nome em 1994.

A obra Black To The Future: ficção científica e cibercultura do século XX a serviço de uma apropriação imaginária da experiência e da identidade negra, do autor norte-americano Mark Dery, nomeou o até então conceito sem nome.

Porém, mesmo com o nome consolidado apenas em 1994, entre o poeta Sun Ra e o livro, muitos artistas e obras mantiveram o afrofuturismo em voga.

A expansão do movimento

Alguns dos personagens mais famosos dessa narrativa cósmica que permeia tanto a utopia quanto a distopia são:

  • o DJ de hip-hop Afrika Bambaataa e o projeto Soulsonic Force;
  • o grupo Funkadelic, do líder George Clinton;
  • a cantora e atriz Grace Jones.

Com o tempo, ele ganhou ainda mais alma e expressão, pois agrupou também estilos como o soul e o funk. Além, é claro, de trazer a estética negra à moda, os traços arquitetônicos de construções ancestrais da África, as cores na pintura e muitos outros componentes de diversas áreas.

Afrofuturismo, Peter Mabeo
O designer e carpinteiro Peter Mabeo, de Botsuana, imprime o afrofuturismo em peças de mobiliário, trabalhando com materiais que traduzem o conceito (Foto: Deezen)

Quais são os principais traços do afrofuturismo?

Um conceito não é nada se ele não é carregado de símbolos e métodos. Assim, o afrofuturismo é recheado de expressões que denotam a ancestralidade mesclada à tecnologia.

Histórias de ficção científica

Essa é uma máxima do movimento, que permeia toda a estética por onde ele habita. Os roteiros que trazem narrativas do espaço e de outras civilizações, incluindo seres alienígenas, estão presentes no cinema, na literatura e em quadrinhos.

Roxo e azul

Esses tons dão o ritmo em que a estética afrofuturista deve seguir, remetendo sempre ao místico, ao inexplorado e ao espaço.

O azul que beira o roxo representa o movimento (Foto: Shoko Press)

Metais

Blusas com chapas, óculos em metal exposto, personagens com armaduras de robôs e histórias com cidades em que a arquitetura é baseada em materiais tecnológicos. O metal está presente em 100% dos meios em que o afrofuturismo está.

Roupas étnicas

As vestimentas em tecidos de tons terrosos e texturas rústicas são marcas clássicas do afrofuturismo na moda, tanto para os artistas quanto para os personagens de quadrinhos, livros e filmes.

As roupas também mostram formatos e padrões das mais diversas culturas africanas. As cores e os estilos atuais dão a pitada de contemporaneidade às peças com cara ancestral.

Artigos ancestrais

Brincos que se parecem com chifres, colares de dentes, adornos feitos de ossos, peles naturais e outros itens com o mesmo teor marcam o afrofuturismo.

Afrofuturismo, homem com artigos ancestrais
Os materiais não apenas remetem a povos ancestrais, mas servem como um ponto de contato com o místico e são espécies de “sinais hierárquicos”. Assim, os adereços identificam chefes e subalternos (Foto: Deezen)

Cabelos descoloridos e em cortes ancestrais e futuristas

Dreadlocks, cortes quadrados ou mesmo o cabelo todo descolorido. O afrofuturismo é demonstrado literalmente na cabeça, não sendo uma tendência, mas sim uma marca registrada do movimento.

Quais são as referências do afrofuturismo em diversos campos?

O afrofuturismo está em diversas áreas. E cada uma delas tem os seus principais representantes. Literatura, moda, música, quadrinhos, cinema, pintura, games e, claro, arquitetura, tem os seus expoentes, que preservam e dão seus toques ao movimento.

Literatura

Octavia Butler

A romancista traz a cultura negra embalada no estilo afrofuturista em obras como A Parábola do Semeador, Sons de Fala e Ritos de Passagem.

Afrofuturismo, Octavia E.Butler
Em sua outra obra mais conhecida, Kindred, Butler narra a história de um dispositivo que faz viagens no tempo, chamado de Sankofa, um símbolo da cultura afro (Foto: Nikolas Coukouma)

Samuel Delany

O escritor norte-americano tem duas obras de cunho afrofuturista que são marcos do movimento. Estrela Imperial e Babel-17 são textos que narram, cada qual à sua maneira, histórias com negros como protagonistas.

Em Babel-17, por exemplo, o autor cria um enredo em que uma personagem mulher negra é uma poeta das cinco galáxias.

O seu objetivo na trama é decodificar sons emitidos por um governo inimigo para descobrir quais são os seus planos. No entanto, ela descobre algo mais inusitado por trás dessa missão.

Moda

Walé Oyejide

Afrofuturismo, Walé Oyejide, Label Ikiré Jones
A mescla do ouro com as cores quentes é um dos principais ativos da marca de Ikiré Jones, que imprime na moda uma expressão fiel do afrofuturismo (Foto: Design Sponge)

O estilista nigeriano é o diretor criativo da Ikiré Jones, marca criada para capturar a essência da cultura africana por meio de cores e formatos

Tássia Reis

À frente da empresa Xiu, Tássia Reis dissemina o estilo Brasil afora, valorizando a ancestralidade e trazendo muito pioneirismo negro ao setor.

Afrofuturismo, Tássia Reis
A cantora brasileira coloca o afrofuturismo em letras, sons e também na moda (Foto: Miojo Indie)

Emicida

O rapper lidera a Lab Fantasma, que, além de gravadora independente focada no lançamento e trabalho de artistas negros, tem uma frente têxtil.

Roupas longas, trabalhadas na essência das cores e formas africanas, além de peças urbanas e industriais, são constantes da marca.

Música

Grace Jones

A cantora vai além da música e coloca à mostra no cinema e na moda a estética e o conceito afrofuturista, sendo uma pioneira no corte de cabelo quadrado. Um estilo que se popularizou pelo mundo todo.

Afrofuturismo, Grace Jones, Do or Die
Capa do disco Do or Die, de Grace Jones, demonstra o poder vanguardista do afrofuturismo (Foto: Rich Records)

Elza Soares

Essa representante icônica do samba e de outros estilos brasileiros, desde o seu disco A Mulher do Fim do Mundo, traz e reforça a cada dia o afrofuturismo.

A maquiagem em tons roxos, o figurino metálico e a estética de palco bastante futurista reafirmem o lugar da mulher negra nas artes.

BaianaSystem

O grupo faz uma mistura de afro-beat com reggae e rock, muito inspirado no clássico Nação Zumbi — outro representante do movimento.

Funkadelic e Parliament

As duas megabandas lideradas por George Clinton trazem um soul/funk embebido na estética afrofuturista. O movimento é especialmente observado no disco Mothership Connection, do Parliament, que traz as principais características do afrofuturismo nas artes e nas letras.

Quadrinhos

Fábio Kabral

O quadrinista e escritor brasileiro Fábio Kabral evoca o afrofuturismo em O Caçador Cibernético da Rua 13, a sua HQ.

Afrofuturismo, O Caçador Cibernético da Rua 13, Fábio Kabral
No roteiro, o caçador de espíritos João Arolê é o protagonista em uma cidade com grandes corporações, em que pessoas com transformações corporais foram removidas de sua terra natal (Foto: Fábio Kabral)

Cinema

Spike Lee

O cineasta sempre aborda o papel do negro em suas obras. E, mesmo que não faça um filme embasado no movimento, por ser autor, diretor e produtor, reforça o papel do afrofuturismo, que é o de colocar o negro como protagonista.

Pantera Negra

O filme com o super-herói famoso da Marvel, estrelado pelo ator Chadwick Boseman, conta a história de Wakanda, terra liderada por Pantera Negra, que assume o trono e deve proteger o país contra ameaças de povos que querem o poder.

Afrofuturismo, Pantera Negra
Filme colocou nas telas todos os símbolos do afrofuturismo em uma história de sucesso mundial (Foto: Disney/Marvel Studios)

Pintura

Basquiat

Grafiteiro, artista plástico e pintor, Jean-Michel Basquiat elevou a cultura negra nos anos 1980 e virou um ícone das artes.

Por ter ganhado notoriedade em uma área dominada por brancos, Basquiat pode ser introduzido no conceito de afrofuturismo.

Afrofuturismo, quadro de Jean Michel Basquiat
Em suas telas e colagens, Basquiat retratava a vida nova-iorquina e colocava pitadas de ancestralidade, o que o reafirma como parte do movimento (Foto: Unsplash)

Games

Dandara — Long Hat House

O jogo brasileiro de ação prestigia a história de Dandara dos Palmares, que luta para proteger uma comunidade quilombola e deve resguardar o mundo do conflito de duas facções.

Arquitetura

La Pyramide

O edifício que mescla as construções egípcias com raízes de outros locais da África é um exemplar do afrofuturismo direto da fonte.

Afrofuturismo, La Pyramide de Abdijan
A construção fica na Costa do Marfim e, apesar de ter sido projetada por um arquiteto italiano, traduz a essência do continente com força (Foto: Bauzeitgeist)

Escola Flutuante de Makoko

O projeto, que infelizmente teve uma vida curta, foi premiado com o Leão de Prata na Bienal de Veneza de 2016.

O arquiteto nigeriano Kunlé Adeyemi foi o responsável por colocar em evidência a cultura africana simbolizada na obra.

Afrofuturismo, Escola Flutuante de Makoko
A proposta do espaço era para, muito além de ser um centro de estudos com design ancestral, oferecer ajuda humanitária às crianças da Nigéria (Foto: AKTC / NLE

Casa do 1º Presidente da Angola

Gigantesco, o local une a arquitetura brutalista ao afrofuturismo, com uma enorme torre estampada pelo símbolo da foice e do martelo socialista.

O motivo da representação é que o então presidente, Agostinho Neto, ajudou na guerra que tornou Angola, Guiné-Bissau e Moçambique independentes de Portugal.

Monument des Martyrs

Com cara de “disco voador”, o Monument des Martyrs fica em Ouagadougou, capital de Burkina Faso.

O monumento foi criado para homenagear as pessoas que perderam as suas vidas em combates nas revoluções pelas quais o país passou.

Cores terrosas, estilo bem-acabado e design robusto são marcas dessa peça que parece querer fazer contato com seres de outros planetas.

Suprema Corte do Egito

Em escala monumental, simbolizando os maiores templos faraônicos, o edifício da Suprema Corte do Egito conecta o melhor do legado arquitetônico deixado pelos egípcios antigos à atualidade.

Cor de areia do deserto, colunas imensas e jardins projetados para fazer par e conferir o toque sustentável ao entorno do edifício são algumas das marcas do projeto.

Afrofuturismo, Suprema Corte do Egito
O arquiteto do projeto, Ahmed Mito, prezou também pelas curvas e pelos símbolos que denotam o lado místico do afrofuturismo (Foto: lienyuan lee)

Conservar, evidenciar e disseminar mirando sempre o protagonismo, seja em qual âmbito for. Essa é a síntese de algumas das premissas do afrofuturismo, que é uma ponte que liga passado e futuro, brindando o presente com ancestralidade e tecnologia.

Veja também como os africanos influenciaram a estética construtiva do Brasil em 7 características essenciais da arquitetura brasileira!

Foto de destaque: Christian Benimana é um dos novos expoentes do afrofuturismo na arquitetura, liderando o escritório Rwanda Office of Mass Design Group, com projetos do tipo (Foto: Deezen)

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